
Durante a temporada de verão, entre dezembro e março, o Balneário Cassino recebe cerca de 250 mil veranistas, entre moradores e turistas, que escolhem a praia do Litoral Sul para se refrescar nos dias mais quentes do ano. Ao longo de seus 136 anos de história, o balneário passou por diferentes fases até alcançar o atual momento de intensa movimentação, impulsionada por festas, eventos religiosos, gastronomia e vida noturna.
Diferentemente da maioria das praias gaúchas, o Cassino permite a circulação de veículos e o estacionamento na faixa de areia, característica que se mantém como um diferencial. Se antes o movimento se concentrava majoritariamente durante o dia, hoje a ocupação se estende pela noite, alterando a dinâmica local.
Festas tradicionais como o Réveillon, o Carnaval e a Festa de Iemanjá passaram a integrar de forma definitiva o calendário do balneário, fortalecendo o Cassino como um destino que oferece mais do que a praia.
Segundo Caroline Danigno, administradora da pousada Esquina Sol e presidente da Rede Sul de Hotéis e Pousadas, a região teve um crescimento nos últimos anos em decorrência desses atrativos.
— Nós temos uma praia gigantesca, com os Molhes da Barra e a Avenida Rio Grande. O comércio local está se motivando e investindo nisso. A gente tem hotéis muito bons e a gastronomia está aprimorada também. Eu acho que isso é uma construção. O balneário vem sendo construído para se tornar a potência que realmente tem capacidade de ser — declara.
Larus - o primeiro bar

A vida noturna do Balneário Cassino é relativamente recente. Embora o local exista há mais de um século, foi há cerca de 20 anos que o movimento noturno começou a ganhar força, acompanhando o crescimento do público jovem e universitário.
Um dos marcos desse processo foi a abertura do Larus, considerado o primeiro bar de rock local. O fundador, Renato Larus, chegou ao Cassino ainda adolescente, aos 15 anos, e acompanhou de perto a transformação da região.
— Tinham poucos lugares aqui onde se faziam festas. A maioria ocorria em casas. Já no primeiro dia que nós abrimos nesse espaço físico, dia 11 de abril de 1997, lotou. A gente tinha esse público que tinha essa necessidade, essa ânsia de ter uma atividade no Cassino que suprisse suas necessidades: um lugar que tivesse estudantes, fosse seguro, de fácil acesso, com preço justo — relata.

O Larus se tornou ponto de encontro e ajudou a moldar uma nova identidade para o balneário, abrindo espaço para outras iniciativas. O nome do bar surgiu a partir da inspiração da ave Larus, apresentada por estudantes da Furg, moradores do Cassino e amigos de Renato.
— Eu aprendi o que é Larus com os estudantes da Oceanologia. Na época em que abri aqui, foi por necessidade financeira, para melhorar de vida. Queríamos algo com identidade regional, pequeno e forte, que se criou e se perpetuou. Já são 28 anos e nada mais é do que uma gaivota. Então, sempre que vocês virem aquela gaivota no mar, vão lembrar de nós — comenta.
Ao longo das décadas, além do público universitário, moradores da cidade também passaram a frequentar o bar, inclusive durante o inverno. O espaço encerrou as atividades em 2017, quando outros empreendimentos já estavam consolidados na região, mas segue vivo na memória do público.
Em dezembro do ano passado, uma festa comemorativa chamada Quinta Dupla foi realizada no balneário, em referência às tradicionais quintas-feiras com cerveja em dobro.
— A parceria com a SAC (Sociedade Amigos do Cassino) surgiu para manter viva a nossa história e, ao mesmo tempo, oferecer uma programação aos sócios. Além do retorno financeiro, o principal objetivo é preservar essa memória — explica Renato.
A iniciativa já teve três edições, a mais recente em 2025, e a expectativa é realizar a próxima durante o feriadão de Páscoa.
— Essas datas são estratégicas porque reúnem o nosso público, gente que se formou, saiu da cidade, mora fora e volta para visitar a família. A Páscoa sempre teve um movimento muito forte aqui, é um feriado longo, com clima ameno, e todo mundo acaba vindo para o Cassino. Por isso, acreditamos que dá para repetir a Quinta Dupla nessa época também — completa.
Carnaval como motor da temporada

O Carnaval do Cassino, com desfiles pela Avenida Rio Grande, reúne milhares de pessoas ao longo de cinco dias de folia e é considerado o carro-chefe da temporada para o setor hoteleiro e o comércio.
Atualmente, o balneário conta com 2.389 leitos, distribuídos entre pousadas, hotéis, hostels e motéis.
— O Carnaval sempre é o nosso carro-chefe, é quando chegamos a 100% de lotação. Lotamos também os hotéis da cidade. Há muitas pessoas de Bagé, de cidades do Estado, mas também dos países vizinhos. Tem turistas que nos procuram todos os anos para vir para cá — comenta Caroline Danigno.
O desfile dos blocos carnavalescos, nos moldes atuais, começou em 1993. Antes disso, o carnaval de rua em Rio Grande tinha como referência principal o Centro da cidade.

Segundo Álvaro Aguiar, fundador do bloco Vem Suando Que Eu Te Enxugo, deslocar-se até o balneário era complicado para quem dependia de transporte coletivo.
— O carnaval oficial era na cidade. Quem veraneava no Cassino precisava se deslocar, e isso já era difícil naquela época. Em 1993, quando aluguei uma casa aqui pela primeira vez, pensei: vamos unir o útil ao agradável e desfilar no Cassino — relembra.
— De 1993 pra cá, eu afirmo que o Vem Suando foi o primeiro a desfilar de forma organizada na Avenida. Outros viram que dava certo e passaram a copiar. O carnaval é isso: alguém inventa, o outro melhora — conclui.
Fé à beira-mar
A Festa de Iemanjá da Praia do Cassino, consolidada como evento fixo no calendário do município, surgiu há mais de cinquenta anos da união da fé dos rio-grandinos.
Antes mesmo da instalação do monumento de Iemanjá na praia, terreiros locais já realizavam a entrega de oferendas no dia 2 de fevereiro.
Ao longo do tempo, a festa ganhou destaque estadual e hoje é considerada patrimônio imaterial.
Entre 30 de janeiro e 2 de fevereiro, cerca de 150 mil pessoas participam da celebração.

Em 1999, por meio da Lei nº 5.291, a festa passou a integrar oficialmente o calendário municipal, após a legitimação da Umbanda, reconhecida oficialmente pelo Censo, em 1966.
Turismo além da temporada

Conhecendo a Praia do Cassino pela primeira vez, a turista uruguaia Marianela afirma ter ficado encantada com a região. Natural de Treinta y Tres, no Uruguai, ela já havia visitado o balneário quando criança, mas a experiência atual superou suas expectativas.
— Fiquei encantada com a cidade, com a tranquilidade, com a praia, com a água, com tudo — relata.
Marianela passou dez dias no Cassino, acompanhada do filho e da nora. Entre as atividades, o que mais chamou sua atenção foi andar de vagoneta pelos Molhes da Barra, passeio que se tornou um dos grandes atrativos turísticos, inclusive no inverno.
Hoje, cerca de 30 vagoneteiros vivem dessa atividade ao longo do ano, garantindo renda para moradores da Barra, muitos deles também pescadores.
O vagoneteiro Antônio Valdir Chagas, de 71 anos, trabalha com vagonetas desde os 11. Para ele, o vínculo criado com os turistas é o que mantém sua dedicação à atividade.
— Comecei com meu pai, que hoje tem 97 anos. Acabei ficando, me aposentei, mas continuei porque gosto muito de trabalhar aqui e de lidar com os turistas. O que mais me encanta na profissão é estar junto com meus colegas. Neste verão, o perfil dos turistas é bem variado, com bastante estrangeiro, principalmente do Uruguai e da Argentina, mas chega gente de todo lugar — relata.

No inverno, o movimento principal vem das excursões escolares.
— Depois de março, o movimento continua com excursões de escolas, e a gente segue trabalhando o ano todo — completa Antônio.
As vagonetas circulam das 8h às 17h30 durante a primavera e até o pôr do sol na alta temporada. O valor do passeio é R$ 100, e cada carrinho comporta até cinco pessoas.
Gastronomia como atrativo

Além das festas e da vida noturna, a gastronomia local também se tornou um dos grandes atrativos do Cassino.
Em dezembro, 20 restaurantes da região elaboraram um cardápio exclusivo, por meio da iniciativa Projeto Gastronomia do Cassino, fruto de uma parceria entre a Prefeitura de Rio Grande e o Sebrae, que promoveu capacitações gratuitas ministradas pelo chef Rodrigo Bellora.
— Dentro de cada restaurante, a gente pensou em um prato que representasse de alguma maneira o Cassino, a Costa Doce, que tivesse reflexos da cultura local. Alguns, a gente criou pratos do zero, completamente novos. A gente remodelou alguns que existiam e, assim, fomos desenvolvendo — explica Rodrigo Bellora.
A diversidade de opções agradam tanto moradores quanto turistas, tornando cada refeição uma experiência à altura do balneário: saborosa, acolhedora e parte da própria história de quem visita a maior praia do mundo.
— Nenhum lugar do mundo é igual o Cassino. O Cassino é único, o nosso ritmo de vida é único, a nossa gastronomia é diferente. Quem vem passar um verão aqui, sempre volta. Já quem resolve ficar para morar, não se arrepende — finaliza Caroline Danigno.
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