
Reconhecido como uma das vozes mais relevantes da literatura brasileira contemporânea, o baiano Itamar Vieira Junior acumulou, ao longo de vinte anos, experiências como servidor público atuando junto a comunidades quilombolas e populações do campo, vivência que alimenta diretamente sua escrita.
A partir do lançamento de Torto Arado, em 2019, obra que o projetou nacional e internacionalmente, Itamar passou a circular intensamente por feiras e eventos literários e costuma dizer que, nesses espaços, acabou se tornando uma espécie de “pregador” da leitura.
O romance, que já foi publicado em mais de 55 países, se tornou um fenômeno editorial ao narrar a vida de trabalhadores rurais descendentes de escravizados no sertão baiano, explorando temas como memória, oralidade, espiritualidade, resistência e a profunda relação com a terra. Com a obra, venceu o Prêmio Jabuti e o Prêmio Oceano, duas das principais premiações literárias da língua portuguesa.
Torto Arado marca o início da Trilogia da Terra, projeto que tem como eixo central a vinculação das personagens ao território que habitam. O segundo volume, Salvar o Fogo (2023), expande esse universo, e o ciclo se encerra agora com Coração Sem Medo (2025), que acompanha Rita Preta, uma mulher que vive na cidade e enfrenta o desaparecimento do filho adolescente.
Neste domingo (2), Itamar estará na 51ª Feira do Livro de Pelotas, às 19h, para conversar com o público. Em entrevista exclusiva para GZH Zona Sul, o autor fala sobre seu processo criativo, o momento atual da literatura brasileira e a expectativa para o encontro com os leitores pelotenses.
Como foi o processo de te dedicar à escrita de forma profissional?
Eu escrevo desde muito cedo, mas nunca pensei que escrever pudesse ser uma profissão, até porque não havia pessoas à minha volta que exercessem esse ofício. Para mim, a escrita sempre foi um hobby, algo a que eu me dedicava com paixão. Acho que foi se tornando mais profissional à medida que fui publicando. O primeiro livro foi um livro de contos, que ganhou um prêmio literário em 2012, na Bahia. A partir dali, passei a escrever e publicar com mais regularidade.
Torto Arado foi um sucesso no Brasil inteiro. Como foi o processo de construção dessa obra? Desde o início já sabias que seria uma trilogia?
Durante a escrita de Torto Arado, percebi que aquela história se desdobraria. Antes não, mas durante sim. Antes do livro ser publicado, eu já informei ao meu editor que Torto Arado era o começo de um projeto maior.
Sobre as personagens femininas, eu queria uma história que retratasse o mundo tal como eu o via, um mundo onde as mulheres têm uma presença muito forte, diferente de outros tempos da nossa literatura. E nunca imaginei o caminho que o livro teria, os prêmios, o sucesso. Eu escrevi a história que precisava ser escrita.
Com a publicação de Coração Sem Medo, tu encerras um ciclo pessoal com o fim da Trilogia da Terra? Que significado esse livro tem pra ti?
Esse livro encerra o ciclo que eu nomeei Trilogia da Terra, que conta a história de personagens cuja centralidade está na relação que mantêm com o chão que habitam, com a casa e com a cidade. É um direito fundamental, à moradia, à terra, à cidade, ainda negado a muitos. Em Coração Sem Medo, conhecemos Rita Preta, uma mulher que trabalha em um supermercado e é surpreendida pelo desaparecimento de um dos filhos adolescentes.
Há algum tema que tu ainda não trataste e pretendes abordar em obras futuras?
Acho que tentei aproximar essas histórias da vida, e a vida é atravessada por inúmeras questões. Tenho histórias para escrever, mas não penso nelas por tema e sim pelas personagens e pelas próprias histórias.
Como funciona o teu processo criativo?
Eu vivo em duas dimensões: a da vida e a da imaginação. As personagens chegam de maneira insistente antes da escrita, é o que chamo de “pré-escrita”. Convivendo com elas, vou desenhando a história de forma sutil até sentar para escrever. Depois vem a parte de reescrever, reescrever e reescrever, até a história ganhar forma e sentido.
Tu pensas em um público específico ao escrever?
Não. Acho saudável não criar essa expectativa. Um livro deve poder ser lido por toda e qualquer pessoa, independente de classe, origem ou região. Não deve haver barreiras nem fronteiras.
Tu disseste recentemente que a literatura brasileira carece de brasilidades. Como enxerga o cenário atual?
A literatura brasileira está em um excelente momento, muito diversa e renovada. Hoje temos novas vozes de diferentes regiões, escrevendo sobre o campo, a cidade, a ancestralidade, a periferia. Isso é muito positivo e fértil.
Pesquisas mostram que as pessoas estão lendo menos. Tu concordas?
Não sei bem como essas pesquisas são feitas. Tenho visto muito interesse em literatura nas feiras e lançamentos. Certamente lemos mais hoje do que no tempo do Machado de Assis, quando boa parte da população não era escolarizada. O grande desafio é o acesso, o livro ainda é caro em relação à renda média. Mas as redes sociais ajudam a formar leitores e clubes de leitura.
Tu comentou sobre participar de diversos eventos literários. Como é para ti estar perto dos teus leitores? Acreditas que esses eventos, como a Feira do Livro, facilitem o acesso às obras?
Ajudam muito. Às vezes a pessoa não tem o hábito de ler, mas ouve escritores falando com paixão e se sente instigada. Já participei de eventos em cidades sem livrarias, e eles fazem diferença. Promovem o acesso e fazem a literatura circular.
Pelotas é uma cidade com forte religiosidade e presença afrodescendente. Isso pode inspirar uma próxima obra?
Quem sabe? Espero que sim. Vai ser um prazer encontrar os leitores de Pelotas. Estou com uma expectativa alta para esse encontro. E quero aproveitar para convidar todos os leitores de Pelotas para participarem, neste domingo, às 19h, da Feira do Livro. Vou conversar sobre minhas histórias e romances. Espero todos vocês lá.
Serviço
Conversa com Itamar Vieira Junior
Domingo, 2 de novembro, 19h
Tenda Cultural da 51ª Feira do Livro de Pelotas, na Praça Coronel Pedro Osório




