
Um livro de matrículas com mais de um século de história, documentos do fundador e antigas classes que fizeram parte das salas de aula ajudam a contar a trajetória de uma instituição que atravessou gerações em Rio Grande. Prestes a completar 165 anos, o Educandário Coração de Maria quer usar a própria memória para aproximar novamente a comunidade de uma história iniciada em 1861.
Nesta quarta-feira (19), a instituição promove um encontro entre alunos, ex-alunos, professores, irmãs e pessoas que fizeram parte de diferentes momentos do educandário. Para a atividade, documentos e objetos que normalmente permanecem preservados em caixas e arquivos foram reunidos em uma exposição.
A iniciativa não pretende apenas olhar para o passado. Um dos objetivos é garantir condições para que a instituição continue funcionando no futuro. O educandário já chegou a contar com mais de mil associados que contribuíam para sua manutenção. Atualmente, são apenas 64.
— A intenção é trazer de volta algumas pessoas, incrementar o número de associados e fazer com que pessoas mais jovens conheçam um pouco da história e se sensibilizem com essa obra secular, que precisa da comunidade para continuar — explica Neila Silva, diretora da escola, em entrevista à coluna.
De orfanato a escola com 192 crianças
Criado em 1861, o Educandário Coração de Maria surgiu com o propósito de acolher meninas órfãs. Ao longo de sua trajetória, funcionou como orfanato, semi-internato e Escola de Primeiro Grau.
Hoje, mantém atividades na Educação Infantil, a partir dos três anos, e nos anos iniciais do Ensino Fundamental. São 192 crianças matriculadas, das quais 121 permanecem em turno integral.
Para Neila, a longevidade traz também a responsabilidade de encontrar novas formas de manter a instituição ativa.
— É uma das instituições mais antigas da cidade em atividade. A tarefa que a gente tem é de manutenção, de incremento, de se renovar em algumas coisas e manter a tradição da assistência — afirma.
Além de aumentar o quadro de associados, o educandário pretende aproveitar a programação dos 165 anos para divulgar as ações realizadas durante o ano e aproximar novas famílias da escola.
Incêndio destruiu parte da memória
Preservar a história do educandário também significa reconstruir uma memória parcialmente perdida. Em 1951, um incêndio atingiu a antiga sede, localizada na região da Praça Sete, e destruiu boa parte do acervo histórico.
Alguns documentos, porém, sobreviveram.
Entre eles estão o primeiro livro de matrículas, o primeiro livro de contabilidade e o discurso de posse do fundador, Tito de Sá. Os materiais integram a exposição preparada para o encontro.
— Entre as coisas que se salvaram, tem ainda o primeiro livro de matrícula, o primeiro livro de contabilidade e o discurso de posse do fundador — conta Neila.
Também serão apresentados registros relacionados à construção da atual sede, na Avenida Presidente Vargas. O prédio foi inaugurado em 1956, e o acervo preserva documentos como a ata de lançamento da pedra fundamental e plantas da construção.

Das antigas classes ao acervo digital
Objetos usados no cotidiano da escola a partir da década de 1950 também foram preservados. Entre eles estão antigas classes e bancos utilizados nas salas de aula até os anos 1980, além da mesa da professora e outros exemplares do mobiliário escolar.
— A gente foi guardando um exemplar mais ou menos de cada item para ter como memória — explica a diretora.
Parte dessa história também começará a ganhar uma nova forma de preservação. A programação prevê o lançamento de um ambiente virtual com documentos históricos do Educandário, permitindo ampliar o acesso ao acervo.
A atividade é organizada pelo presidente da instituição, Daniel Prado, e pela secretária do Educandário Coração de Maria, Lúcia Voto.
Mais do que celebrar uma data, a intenção é fazer com que documentos, objetos e lembranças ajudem a recuperar uma relação que já foi muito mais próxima entre a instituição e a comunidade.
— Olhando a exposição, fica muito visível que havia um movimento muito grande de pessoas na sustentação do Educandário. Hoje não temos mais essa presença tão volumosa — observa Neila.
A expectativa é que os 165 anos, além de recuperar essas histórias, ajudem a escrever as próximas páginas da instituição que nasceu no século 19 e segue recebendo crianças em Rio Grande.





