Quando Cláudio Nolasco subiu ao palco na reabertura do Theatro Sete de Abril, em Pelotas, ouviu o próprio nome ecoar pela plateia. Artistas e trabalhadores que participavam da cerimônia transformaram o momento em uma homenagem ao homem que, há 47 anos, ajuda a cuidar do espaço. A cena continuou na memória mesmo depois que ele voltou para casa.
— Depois daqueles aplausos, até sonhei com o teatro. Foi uma das melhores coisas que aconteceram. Para mim, a reabertura foi tudo de bom — conta.
Aos 74 anos, Cláudio conhece portas, cortinas, camarotes, galerias e bastidores como quem percorre os cômodos da própria casa. Não por acaso, é chamado por muitos de "guardião do Sete de Abril".
Ao longo de quase cinco décadas, trabalhou na portaria, nos serviços de palco, na organização das pautas, na segurança e na manutenção. Carpinteiro de formação, também fez pinturas, consertos e estruturas de madeira.
— Minha função sempre foi geral. Fazia portaria e depois vinha para o palco. Era dois em um. O que precisava fazer, eu fazia — resume.
Ele chegou ao teatro em 1979, quando o prédio ainda funcionava como cinema. Naquele período, foi chamado para trabalhar na segurança do espaço, que passava por uma interdição e se preparava para uma reforma.

A atividade que deveria ser temporária acabou se transformando em uma vida inteira.
— Vim fazer uma segurança para ninguém entrar. A partir dali, fiquei sempre aqui no teatro — lembra.
Cláudio participou da reforma realizada no fim da década de 1970 e no início dos anos 1980. Em um passeio pelo prédio, ainda consegue apontar partes construídas por ele. Uma estrutura de madeira mais clara, localizada na parte superior do teatro, é uma delas.
— Aquela lá eu fiz. Não tinha, e eu fiz por volta de 1980. Isso aqui era tudo com tecido. Eu fazia carpintaria, pintura, fazia tudo — detalha.
"Meu chão era aqui"
Durante os anos de funcionamento, a rotina começava cedo e, em dias de espetáculo, podia atravessar a madrugada. Cláudio chegava por volta das oito horas e, muitas vezes, só deixava o prédio depois da meia-noite.
Entre tantos espaços, há um canto do palco pelo qual mantém carinho especial. Era ali na parte lateral que permanecia depois de encerrar o trabalho na portaria.

— Meu chão era deste lado. Eu me criei ali puxando e fechando cortina. Hoje está tudo mecanizado, mas antes era tudo manual. Eu morava mais aqui do que em casa — recorda.
A proximidade com o público e com os artistas ajudou a transformar Cláudio em uma figura conhecida de quem frequentava o Sete de Abril.
Ele recebia as companhias, acompanhava a montagem dos espetáculos e estava presente quando os artistas deixavam o palco.
— Sempre me dei bem com todo mundo. Eu fazia muito a portaria, recebia as pessoas, e todo mundo me conhece — garante.
Essa relação ficou evidente durante a cerimônia de reabertura. Quando Cláudio apareceu no palco, foi recebido por gritos, aplausos e chamados de "seu Cláudio". Para ele, o reconhecimento representou o reencontro com pessoas que fizeram parte de sua rotina durante décadas.
— Eu queria rever meus parceiros. A gente se conhecia muito e acabou ficando distanciado — revela.
Dezesseis anos de espera
O Theatro Sete de Abril fechou em 2010. Durante os 16 anos sem espetáculos, Cláudio não rompeu o vínculo com o prédio. Antes do início das obras, seguia indo ao local para realizar limpezas e serviços de manutenção.
Quando o canteiro passou a ser ocupado pela empresa responsável pela reforma, foi transferido para atividades no Casarão 2, sede da Secretaria Municipal de Cultura.
A interrupção da rotina provocou um vazio difícil de preencher. Cláudio deixou de conviver diariamente com artistas, equipes técnicas e público. Também passou a frequentar menos outros espetáculos, porque, segundo ele, o seu lugar sempre foi o Sete de Abril.
— Senti muita falta e muita saudade. Todo dia era uma troca, vinha uma pessoa, depois outra. Quando fechou tudo, ficou uma coisa muito estranha. A gente estava sempre em movimento e, de repente, ficou perdido — afirma.
O passar dos anos e os sucessivos adiamentos aumentaram a frustração. Ainda assim, Cláudio continuou esperando o momento em que voltaria a ver as poltronas ocupadas e o palco em funcionamento.
— Fiquei bem chateado. Eu estava acostumado com aquele movimento todos os dias. Dezesseis anos foi muito tempo — diz.
Para Cláudio, a cidade sentiu durante o período a falta de um de seus principais espaços culturais.
— Foi só alegria. É o teatro que nós temos e faz muita falta. Eu queria voltar e encontrar as pessoas novamente — destaca.
Um teatro diferente, mas reconhecível
Na volta, Cláudio encontrou um Sete de Abril modernizado. As cortinas e estruturas de palco que antes exigiam força manual agora contam com sistemas motorizados. O prédio também recebeu elevador, novas poltronas e adaptações de segurança e acessibilidade.
A capacidade foi reduzida para 461 lugares, mudança que ele percebeu logo ao entrar na plateia. Antigamente, além dos assentos fixos, cadeiras eram colocadas nas laterais e em outros pontos das galerias.
Apesar das transformações, partes da estrutura anterior foram mantidas e restauradas. Cláudio reconhece madeiras, portas e detalhes que atravessaram diferentes fases do prédio. Também acompanha de perto os serviços que ainda precisam ser concluídos.
— Está tudo muito bom. Ainda tem coisas para fazer, mas, para começar, está tudo de bom. Agora é preciso manter e cuidar — pondera.
Com a retomada da programação, ele voltou a percorrer o teatro diariamente. Por causa de um problema de saúde, já não executa as tarefas com a mesma intensidade de antes, mas segue ajudando no que é possível.
— Agora estou mais calmo. Antes eu corria, hoje já não consigo. Mas estou sempre por perto — reconhece.
Missão cumprida
Depois de 47 anos, Cláudio começa a falar em deixar as tarefas mais pesadas para os funcionários mais jovens. A reabertura do Sete de Abril permitiu que ele enxergasse esse momento com a sensação de ter concluído uma missão.
Ao caminhar pelo espaço, afirma carregar apenas as lembranças positivas. Foram milhares de horas de trabalho, incontáveis espetáculos e encontros com gerações de artistas e espectadores.
Questionado sobre o que o Sete de Abril representa, não precisa pensar muito. A resposta resume uma relação que começou como um trabalho de segurança temporário e se transformou em quase meio século de dedicação.
— É tudo. É a minha vida toda aqui. Foi a minha casa — conclui.
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