Encontrar a Doceria Delícias Portuguesas durante a Fenadoce é como descobrir um pedaço de Portugal no Rio Grande do Sul. Entre pastéis de nata recém-saídos do forno e fatias de Braga, Maria Eulália Rosa Duarte, de 68 anos, preserva uma tradição familiar que atravessou o oceano.
Natural de Porto de Mós, no distrito de Leiria, Maria Eulália desembarcou no Brasil aos seis anos de idade. O pai havia chegado antes para abrir uma padaria em Pelotas. Pouco tempo depois, a mãe trouxe na bagagem um patrimônio valioso: as receitas tradicionais aprendidas com a avó.
— Minha avó fazia aqueles andores cheios de doces nas festas de Portugal. Minha mãe aprendeu com ela e, quando veio para o Brasil, continuou fazendo. Depois passou para nós. Agora estou passando para a minha filha — conta.
Hoje, Maria Eulália celebra sua 30ª participação na Fenadoce, acompanhando a evolução do evento e fortalecendo os laços com a comunidade.
— Cada Fenadoce é uma aventura nova. A gente reencontra amigos, conhece pessoas diferentes e faz novas amizades. Isso aqui faz bem. Acalenta o coração — afirma.
Receitas atravessaram gerações

O cardápio da Doceria Delícias Portuguesas reúne clássicos de diferentes regiões de Portugal. Os visitantes encontram opções tradicionais, como Toucinho do Céu, Véu de Noiva e o Pastel de Nata. Embora alguns ingredientes passem por adaptações ao mercado brasileiro, a essência das receitas permanece intacta.
— As receitas portuguesas continuam iguais. A gente adapta conforme os nossos insumos — resume.
A tradição passou da avó para a mãe e, depois, para as quatro filhas. Hoje, é a filha Muriel quem ajuda a manter vivo o legado familiar.
— É uma coisa de sentimento. É lindo ver essa história continuar — diz.
Tradição também sabe se reinventar
A doceira afirma que o segredo é respeitar as receitas que fizeram história, sem deixar de acompanhar as mudanças do paladar. Assim, os doces tradicionais seguem como protagonistas, mas dividem espaço com criações que atraem um público em busca de novidades.
— Eu acho maravilhoso. Tem que ter doce para todos os gostos. Tem gente que não gosta de doce de ovos, enquanto outros não comem se não tiver ovos. Tem quem prefira chocolate, leite condensado (...) Todo doce é bem-vindo — argumenta.

Na avaliação da Maria Eulália, preservar receitas centenárias não significa impedir a inovação. Os clássicos portugueses continuam ocupando lugar de destaque, enquanto novos ingredientes e tendências ampliam o universo da confeitaria pelotense.
— A essência continua sendo aquela que veio da minha mãe — frisa.
Um pedaço de Portugal em Pelotas
Entre os momentos preferidos da doceira está servir um Pastel de Nata ainda quente, acompanhado de um cálice de vinho do Porto, importado de Portugal.

Para ela, a combinação vai além do sabor.
— Tu fecha os olhos e está em Lisboa, em frente à Torre de Belém. Portugal continua sendo a minha terra.
As viagens ao país de origem se tornaram menos frequentes. Com uma filha vivendo em Pelotas e outra na Austrália há duas décadas, a prioridade passou a ser visitar os netos.
Ainda assim, a ligação com Portugal permanece presente todos os dias, especialmente dentro da cozinha.
Muito além dos 19 dias de feira
Embora a Fenadoce seja o período de maior movimento, a produção da Doceria Delícias Portuguesas acontece durante todo o ano.
Os doces seguem para eventos e encomendas em diversas cidades da região e também para Porto Alegre. O trabalho, segundo Maria Eulália, começa muito antes da abertura da feira.
— A preparação inicia semanas antes. Tem nozes, damascos, amêndoas, farinhas (...) Tudo precisa estar pronto para que, quando a Fenadoce comece, a gente possa fazer os doces todos os dias — comenta.
Depois de 30 edições, ela conhece bem o ritmo intenso da feira. São dias longos de produção, atendimento e poucas horas de descanso.
Mesmo assim, não pensa em parar.
Enquanto organiza mais uma bandeja de doces para servir aos visitantes, Maria Eulália vê na Fenadoce muito mais do que um espaço de vendas. É ali que a história iniciada pela avó, em Portugal, continua sendo contada.
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