
Muito antes de ganhar vida nos pavilhões da Fenadoce, a edição de 2026 começou a ser escrita nas páginas de um livro. Doces Aventuras de Pelotas: uma jornada mágica, obra do escritor pelotense Jorge Braga, com ilustrações de Mariana Pouey, inspirou a identidade da 32ª Fenadoce e transformou a tradição doceira da cidade em uma narrativa voltada ao público infantil.
Mais do que servir de base para a comunicação visual da feira, o livro — que terá 11 mil exemplares distribuídos gratuitamente durante o evento — nasceu com outro objetivo: estimular o hábito da leitura entre crianças por meio de personagens, patrimônios e elementos que fazem parte da história de Pelotas.
Segundo Jorge Braga, a ideia começou a ser desenvolvida no ano passado, após receber um convite da Câmara de Dirigentes Lojistas de Pelotas (CDL Pelotas).
— A Adriana (gerente da CDL) me fez o convite em setembro do ano passado. No começo eu pensei no tamanho da responsabilidade. Depois começaram a surgir os insights. Até hoje acontece. De madrugada, às vezes acordo com uma ideia e preciso anotar. Inclusive já comecei a escrever a continuação — revela.
Um projeto que nasceu antes da feira
A proposta surgiu após outros trabalhos do escritor voltados ao incentivo à leitura. Jorge já havia lançado livros infantis distribuídos em escolas da região e acredita que a literatura precisa despertar o interesse das crianças antes mesmo de chegar à sala de aula.
— Não adianta entregar um livro para quem ainda não tem o hábito da leitura. Primeiro é preciso despertar esse encantamento. Foi isso que aprendi visitando escolas e conversando com milhares de crianças ao longo dos anos — afirma.
O autor conta que a construção da obra foi coletiva. Enquanto escrevia a história, a ilustradora Mariana Pouey transformava as ideias em imagens, enquanto o diretor de arte Valder Valerão contribuía para definir a identidade visual do projeto.
— O escritor vai montando um mosaico de ideias. Depois entra a Mariana, que transforma as palavras em desenhos, o Valder sugere mudanças, pensa em novos ângulos. Foi um trabalho completamente coletivo — menciona.
Escrever para crianças em tempos de telas
Autor de literatura infantil, poesia e romance, Jorge afirma que escrever para crianças exige compreender uma geração acostumada ao consumo de conteúdo por meio das telas.
Depois de visitar mais de 80 escolas ao longo da carreira, ele percebeu que a linguagem precisava acompanhar a forma como os pequenos se relacionam com a informação.
— Hoje a gente disputa atenção com um mundo inteiro. Tem celular, vídeo, aplicativo. Então o livro precisa conversar com essa realidade. Cores vibrantes, poucas páginas, letras maiores e textos curtos ajudam a despertar a curiosidade — argumenta.
Uma experiência marcou essa percepção. Em um de seus primeiros livros infantis, Jorge utilizou como referência a banda KLB, sucesso entre adolescentes da época. Anos depois, durante uma palestra em uma escola, ouviu uma pergunta inesperada.
— Uma aluna levantou a mão e perguntou: "Tio, que banda é essa?". Ali percebi que a leitura também é orgânica. O tempo passa e as referências mudam — conta.
Projeto pode ganhar novos capítulos
Embora tenha sido criado para inspirar a edição deste ano da Fenadoce, Jorge acredita que o livro pode ser o ponto de partida para outras iniciativas culturais.
Entre as ideias está transformar a história em um espetáculo teatral e criar um circuito literário inspirado no Bloomsday, celebração realizada em Dublin em homenagem ao escritor irlandês James Joyce.
A proposta seria adaptar a experiência para Pelotas, conduzindo o público por locais ligados à vida e à obra de João Simões Lopes Neto.
— O James Joyce é celebrado em Dublin com pessoas caminhando pelos lugares do livro. Por que não fazer algo parecido em Pelotas? Já estamos alinhavando esse projeto para o ano que vem, transformando a história em teatro e percorrendo os espaços por onde Simões Lopes Neto passou — comenta.
Quem é Jorge Braga
Natural de Pelotas, Jorge Braga é poeta, prosador e autor de literatura infantojuvenil. Desde 2006, integra o projeto Autor Presente, do Instituto Estadual do Livro (IEL), promovendo encontros em escolas e instituições culturais.
Ao longo da carreira, foi patrono das Feiras do Livro de Pelotas e Arroio Grande, em 2022, e, no ano seguinte, tornou-se embaixador da primeira Casa de Cultura de Pelotas.
Para o escritor, ver uma obra voltada ao público infantil inspirar a principal feira da cidade representa mais um passo na missão que assumiu há duas décadas.
— Se a literatura conseguir despertar a curiosidade de uma criança e fazer com que ela queira abrir um livro, já valeu todo o trabalho. A Fenadoce ajuda a ampliar esse alcance e leva essa história para milhares de famílias — conclui.
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