Mulher negra, lésbica e adotada ainda criança, Heloísa Helena Ferreira Duarte, 65 anos, conhecida como DJ Helô, construiu uma trajetória que se confunde com a própria história da noite gaúcha das últimas quatro décadas.
Em um universo tradicionalmente dominado por homens, ela começou a tocar ainda nos anos 1980, quando praticamente não existiam mulheres atuando como DJs. Quarenta anos depois, segue em atividade, colecionando histórias, milhares de CDs e uma legião de admiradores que atravessa gerações.

A trajetória será celebrada em um evento especial neste domingo, marcando oficialmente os 40 anos de carreira da artista que, mesmo em meio aos avanços tecnológicos, segue discotecando com CDs e vinis e não pensa em aderir aos formatos digitais.
Natural de Pelotas, Helô teve uma infância marcada por dificuldades e foi adotada aos quatro anos. Tempos depois, retomou contato com a família biológica. Em uma infância marcada por problemas familiares, a música entrou em sua vida muito antes de imaginar que poderia transformá-la em profissão.
— O que eu sempre gostei foi de música. Eu lembro de ficar ouvindo as pessoas escutarem rádio e aquilo me dava uma coisa diferente — recorda.
Uma das primeiras lembranças musicais vem da infância, quando ouviu "Paisagem da Janela", do Clube da Esquina. Antes disso, outra canção já havia despertado sua atenção: "Juventude Transviada", de Luiz Melodia.
— Eu ficava fascinada com aquela voz, com aquelas histórias. Nem entendia direito a música, mas aquilo me tocava profundamente.
Dos discos emprestados às primeiras festas
A aproximação com a discotecagem aconteceu de forma improvisada. Ainda jovem, Helô tinha poucos discos e um toca-discos simples que ganhou da mãe biológica após retomar contato com ela.
Em uma época sem internet, sem tutoriais e sem equipamentos acessíveis, aprendeu observando.
O primeiro convite para tocar surgiu em um bar de amigos, em Pelotas. Pouco tempo depois, durante uma temporada em Santa Vitória do Palmar, recebeu a oportunidade de comandar o som de uma boate da cidade.
— Eu nunca tinha visto um mixer na vida. Fiquei observando o DJ trabalhar e, quando ele terminou, simplesmente disse: "Agora é tu". Eu fui lá e fiz.
A experiência deu certo.
Durante cerca de seis anos em Santa Vitória do Palmar, começou a tocar profissionalmente em festas e casas noturnas. Em 1991, retornou para Pelotas e passou a construir o nome que se tornaria referência na cena cultural da cidade.
— Eu toquei em formaturas, aniversários de um ano, bodas de ouro, casamentos e festas para milhares de pessoas. Nunca mais parei.
Preconceito dentro e fora das pistas
Se construir uma carreira como DJ já era um desafio, ser mulher, negra e lésbica tornou o caminho ainda mais difícil.
Ao longo da trajetória, Helô enfrentou episódios de racismo, homofobia e discriminação.
Entre as situações que relembra estão comentários ofensivos sobre seu cabelo, questionamentos sobre seu gênero e um episódio em que um homem aproximou do seu rosto um objeto estampado com uma suástica nazista durante uma festa.
— Houve momentos em que pensei em desistir. Mas eu vivia daquilo. Era o meu trabalho, a minha renda, a minha vida.
Apesar das dificuldades, seguiu ocupando espaços e abrindo caminhos para outras mulheres.
— O lugar da discotecagem sempre foi muito masculino. Ainda é. Mas eu queria mostrar que mulheres também podiam estar ali.
A paixão pela música brasileira
Ao contrário da tendência predominante nas pistas dos anos 1990, Helô apostou na música popular brasileira como marca registrada.
Gilberto Gil, Milton Nascimento, Maria Bethânia, Chico Buarque, Luiz Melodia e dezenas de outros artistas passaram a integrar seus repertórios.
— Muita gente dizia que ninguém dançava MPB. Eu provei que dançava.
Hoje, uma das maiores satisfações é encontrar pessoas que afirmam ter conhecido artistas e músicas através de suas festas.
— Eu ensinei muita gente a ouvir música brasileira.
Dos vinis aos 8 mil CDs
Colecionadora desde jovem, Helô acompanhou a transição dos vinis para os CDs e mantém até hoje um acervo estimado em cerca de 8 mil títulos.
Mesmo com o crescimento das plataformas digitais, continua fiel ao formato físico.
— Continuo acreditando na experiência de ouvir música de verdade.
A organização do repertório é feita de forma intuitiva. Não existe playlist pronta.
— Eu vou sentindo a pista. É uma coisa muito intuitiva. Cada festa é diferente.
Na contramão do streaming
Enquanto a maioria dos DJs migrou para arquivos digitais e plataformas de streaming, Helô segue fiel aos formatos físicos que marcaram sua trajetória.
Nas apresentações, ainda utiliza CDs e vinis, mantendo um acervo acumulado ao longo de quatro décadas.
— Eu não uso MP3. Gosto de pegar o CD, olhar a capa, ler as informações. Isso também faz parte da música.
Mesmo precisando transportar caixas e mais caixas de discos para cada evento, ela não pensa em mudar.
— Eu continuo comprando CD. Enquanto existir, vou continuar comprando.

Quatro décadas depois
Ao olhar para trás, Helô vê muito mais do que uma carreira.
Vê amizades construídas, casais que se conheceram em suas festas, crianças que hoje são adultas e continuam frequentando seus eventos.
— Outro dia uma menina me disse que era a segunda vez que estava em uma festa minha. A primeira tinha sido na barriga da mãe.
A trajetória será celebrada neste domingo (7), a partir das 14h, no Galpão Satolep, em Pelotas. O evento vai reunir amigos, frequentadores de diferentes gerações e admiradores da DJ, além de uma exposição de cartazes históricos de festas que marcaram sua carreira e uma discotecagem comandada pela própria Helô.
Atualmente, ela segue em atividade em eventos particulares, festas alternativas e espaços culturais. Também promove eventos próprios e apresenta um programa de rádio, mantendo a ligação com a música que começou ainda na infância.
Entre preconceitos, desafios e conquistas, transformou a música em profissão e, principalmente, em resistência.
— Eu nunca driblei nada na vida. Eu lutei, eu resisti e estou aqui contando a minha história.


