
Quando recebeu o convite para retratar a Santa Casa de Pelotas, a artista visual Ramile Leandro sabia que teria pela frente um dos maiores desafios da carreira. Conhecida pelas aquarelas que retratam o mar, a arquitetura histórica e as paisagens urbanas do sul do Estado, ela foi escolhida para produzir uma série de obras que agora integra a nova recepção do Centro Clínico do hospital.
O projeto resultou em 29 aquarelas, incluindo a maior já produzida pela artista. Com 1,40 metro de altura por 90 centímetros de largura, a obra principal retrata a fachada da Santa Casa e exigiu mais de três semanas de trabalho entre desenho e pintura.
Mais conhecida como Rami, a artista é formada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e mestre em Curadoria de Arte pela Academia de Belas Artes de Florença, na Itália, onde viveu e trabalhou durante sete anos.
Foi nesse período que desenvolveu um olhar ainda mais atento para a arquitetura e para a preservação da memória urbana, elementos que se tornaram marcas de sua produção.
— Quando voltei ao Brasil, comecei a olhar para Rio Grande e Pelotas de outra forma. Passei a perceber ainda mais a beleza da nossa arquitetura e a importância de preservar essas histórias — afirma.
Arquitetura inspira série
O convite para participar do projeto partiu das arquitetas Liziane Milgarejo e Ana Paula Marques, responsáveis pela concepção da nova recepção do Centro Clínico.
Além da obra principal, Rami produziu outras 28 aquarelas inspiradas em elementos arquitetônicos do complexo hospitalar. Grades, maçanetas, ladrilhos hidráulicos, pilares e outros detalhes que costumam passar despercebidos foram transformados em peças individuais.
— Eu queria mostrar que a memória também está nos pequenos detalhes. Às vezes, uma maçaneta ou um pedaço de grade contam tanto da história de um lugar quanto a fachada inteira — explica.

Segundo a artista, a proposta foi valorizar elementos que ajudam a narrar a trajetória do prédio e das pessoas que passaram por ele ao longo das décadas.
— Através da arte, a gente consegue mostrar o quanto é importante preservar a memória dos lugares. Essas obras vão ficar ali muito depois de mim. E isso é o mais bonito de tudo — avalia.
Geometria e matemática por trás da pintura
Embora a aquarela seja frequentemente associada à espontaneidade, a construção da obra teve como base conceitos estudados pela artista durante a formação acadêmica.
Para estruturar a composição, Rami utilizou princípios ligados à proporção áurea e à sequência de Fibonacci, referências clássicas da arte e da arquitetura.
— Quando as pessoas olham para uma pintura, muitas vezes não percebem, mas existe matemática por trás. O desenho foi todo estruturado dessa forma. A pintura veio depois — diz.
Segundo ela, o processo mais complexo não foi a aplicação das cores, mas a elaboração do desenho.
— Foram três semanas de matemática, geometria e poesia — relata.
A dedicação ao projeto exigiu uma rotina quase exclusiva. Durante o período de produção, a artista chegou a cancelar compromissos pessoais para cumprir os prazos.
— Quando pego um projeto assim, ele me consome completamente. Eu não consigo pensar em outra coisa. É cansativo, mas é o que me faz sentir viva — confessa.
Agenda cheia e encomendas internacionais
Nos últimos anos, a trajetória profissional de Rami também mudou de escala. Se no início da carreira as encomendas eram essenciais para garantir o orçamento do mês, hoje a agenda costuma estar preenchida com meses de antecedência.
Atualmente, a artista organiza a produção para entregar entre três e quatro aquarelas por semana. Enquanto concluía as obras da Santa Casa, já recebia pedidos para os próximos meses.
As encomendas ultrapassaram as fronteiras do país e chegam de destinos como Suíça, Portugal, Espanha e Itália. Segundo ela, o crescimento ocorreu principalmente por indicação de clientes.
— Nunca foi um crescimento baseado em vídeo viral. É uma pessoa que compra, mostra para outra e assim o trabalho vai circulando — conta.
Hoje, Rami mantém um ateliê no Parque Una, em Pelotas. Natural de Rio Grande, ela segue levando para as obras referências ligadas às origens.
Além da arquitetura histórica, o mar permanece como um dos temas mais recorrentes de sua produção.
— O mar está muito ligado à minha história. Eu nasci perto dele, cresci perto dele e sempre falo de Rio Grande por onde vou — conclui.
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