Durante anos, uma casa simples em Pelotas virou destino para quem buscava alívio para dores, doenças respiratórias ou situações que pareciam não ter resposta. O caminho levava sempre ao mesmo lugar: o atendimento de Dario de Almeida Marques, conhecido na cidade pelas benzeduras com tunas.
Não havia placa, agenda formal ou estrutura organizada. O funcionamento era baseado na confiança e na indicação. Quem precisava, chegava. Muitas vezes por recomendação de vizinhos, familiares ou até de profissionais de saúde. Em determinados períodos, o movimento se intensificava, especialmente em casos de bronquite, um dos problemas mais associados aos atendimentos.
Cinco anos após a morte, o movimento já não existe mais. A porta não recebe filas, o espaço está em silêncio. Mas o nome de Dario continua circulando — em conversas de família, em relatos que atravessam gerações e em histórias que seguem sendo contadas com convicção por quem passou por ali.

A origem das benzeduras, segundo a família, está ligada a um episódio que mudou o rumo da vida dele. Dario sofreu um acidente de bicicleta na década de 1960, foi atropelado e ficou em coma por um período. A recuperação marcou o início de uma transformação percebida pelos mais próximos.
— Ele ficou um bom tempo internado. Depois que voltou, parecia outra pessoa. Eu acredito que ali ele recebeu uma missão — relata a filha Denise Marques.
Antes disso, a rotina era outra. Dario trabalhava como feirante e levava uma vida comum, sem qualquer envolvimento com práticas espirituais ou atendimentos. As benzeduras começaram de forma gradual, ainda na feira, e passaram a ganhar espaço à medida que mais pessoas procuravam ajuda.

Da feira ao atendimento em casa
Com o aumento da procura, os atendimentos foram transferidos para a casa da família. Um espaço ao lado da residência passou a concentrar o fluxo de pessoas. Ali, ao mesmo tempo em que a família mantinha uma fruteira, Dario realizava as benzeduras.
O ritual seguia um padrão que se repetiu ao longo dos anos. As pessoas chegavam, aguardavam e, quando chamadas, colocavam o pé sobre uma tuna. A partir dali, ele conduzia o atendimento com orações e pequenos cortes na planta.
— Era sempre o pé. Ele colocava o pé da pessoa na tuna, fazia alguns cortes e realizava as orações — lembra Denise.
Em casos considerados mais delicados, o atendimento não se encerrava no primeiro contato. Havia orientação de retorno.
— Quando ele achava necessário, pedia para a pessoa voltar durante sete semanas.
Além disso, era comum que os pacientes levassem tunas para casa, como parte do processo. As plantas deveriam ser mantidas em local protegido da chuva, mas com exposição à luz, enquanto a família acompanhava a evolução.
Não havia cobrança pelo atendimento. A prática era conduzida como um gesto de ajuda.

Relatos seguem sendo contados
Mesmo após a morte, histórias relacionadas aos atendimentos continuam surgindo. Muitas delas associadas a quadros respiratórios, especialmente em crianças.
Uma das mais marcantes envolve Rosiane Canez e o filho, Guilherme Canez Brasil. Hoje com 23 anos, ele enfrentou ainda bebê um quadro grave de bronquiolite, que chegou a levar à internação hospitalar.
Meses depois da recuperação, por indicação do pai de Rosiane, a família decidiu procurar Dario.
— Ele tinha uns seis meses e foi muito difícil ver ele daquele jeito no hospital — relembra.
No atendimento, o benzedor repetiu o ritual que se tornaria característico. Entregou duas tunas e orientou a família a levá-las para casa, pendurando em um local protegido da chuva, mas com luz natural.
— Ele disse que eram como os pulmõezinhos dele. Se secassem, ele ia ficar curado — relata.
A partir dali, o acompanhamento passou a fazer parte da rotina da família. As plantas foram penduradas em uma área aberta da casa, onde pudessem ser observadas diariamente.
Com o passar das semanas, a mudança chamou atenção.
— Elas ficaram todas torcidas, como uma espiral. Foi impressionante de ver.

Segundo Rosiane, o comportamento das tunas coincidiu com a melhora definitiva do filho.
— Meu filho nunca mais teve nada. Hoje está com 23 anos. É o que menos fica doente em casa — garante.
Histórias como essa ajudaram a consolidar a reputação de Dario na cidade. O nome dele passou a circular com facilidade, muitas vezes sem necessidade de explicação adicional.
— Eu chegava na rodoviária e só falava o nome dele. Não precisava dar o endereço — conta outra filha, Luciane.
O reconhecimento também aparecia em ambientes como hospitais, onde pessoas abordavam a família para relatar experiências vividas anos antes.
— As pessoas chegavam e diziam: o senhor curou meu filho. Era muito gratificante ouvir isso — recorda.

O homem além do benzedor
Apesar da projeção que ganhou ao longo dos anos, dentro de casa Dario mantinha uma rotina simples. Era descrito como alguém próximo, acessível e bem-humorado. Torcedor do Esporte Clube Pelotas e um apaixonado pela família e pelos amigos.
— Ele era brincalhão, gostava de fazer graça. Era muito amoroso — diz Denise.
A trajetória foi interrompida em 2021, durante a pandemia. Dario e a esposa Maria Francisca foram internados com Covid-19 praticamente no mesmo período. Uma das filhas também estava hospitalizada na mesma época, no mesmo local.
Os três ficaram internados próximos, em quartos diferentes, o que permitiu momentos de contato mesmo diante das restrições.
— Nós três estávamos internados. Ele estava no quarto em frente ao meu — conta Denise.
O quadro de saúde dele se agravou rapidamente. Dario foi encaminhado à UTI e morreu ainda naquela noite. A esposa faleceu poucas horas depois, já na madrugada.
— Eu consegui me despedir dos dois na UTI.
Até então, os dois mantinham uma rotina ativa. Ele tinha 87 anos, e ela 84. Segundo a família, estavam lúcidos e independentes antes da internação.
O que ficou
Com a morte de Dario, as benzeduras deixaram de acontecer. Nenhum dos filhos deu continuidade à prática, que sempre foi conduzida de forma muito particular por ele.
Ainda assim, a família entende que o principal legado não está apenas no ritual, mas na forma como ele se relacionava com as pessoas e na fé que transmitia.
As histórias seguem sendo contadas, reforçando uma memória que não depende mais da presença física.
Para Denise, a explicação para tantos relatos passa menos pelo que era feito durante os atendimentos e mais pela forma como cada pessoa se conecta com aquilo que acredita.
— A gente busca, muitas vezes, fora aquilo que está dentro da gente. A cura está dentro de nós — conclui.
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