
Um episódio pouco conhecido da história do Rio Grande do Sul, envolvendo a presença de cientistas da Nasa no litoral sul, virou ponto de partida para um romance que mistura ficção e fatos reais. O livro Assassinato no Projeto Eclipse, do professor e escritor André Cordenonsi, será lançado na Bienal do Livro de São Paulo e reconstrói o contexto da operação norte-americana em Rio Grande, nos anos 1960, para criar uma trama policial ambientada em meio à ditadura militar.
A ideia surgiu a partir de uma descoberta casual. Professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Cordenonsi conta que tomou conhecimento do episódio por meio de um colega historiador, natural de Rio Grande.
— Quando ele comentou por alto essa história, eu fiquei impressionado. Não entendia como nunca tinha ouvido falar disso — relata.
A partir daí, iniciou uma pesquisa que envolveu documentos históricos, arquivos digitais e materiais sobre o chamado Projeto Eclipse, operação que trouxe cientistas e equipamentos dos Estados Unidos ao Brasil durante a Guerra Fria.

Base real, trama ficcional
A obra se inspira em um fato histórico: em 1966, durante um eclipse solar, Rio Grande recebeu uma missão internacional que envolvia o lançamento de foguetes-sonda na praia do Cassino. O objetivo era coletar dados científicos que contribuiriam para o desenvolvimento do programa espacial norte-americano.
Mais de 300 cientistas e engenheiros participaram da operação, que contou com a construção de uma base temporária no litoral. Parte dessa estrutura ainda existe.
— Tudo isso é real. Veio gente da Nasa, pesquisadores brasileiros, e a cidade recebeu um movimento incomum para a época — explica Cordenonsi.
Na narrativa, esse cenário serve como pano de fundo para uma investigação fictícia. Durante a operação, um cientista americano é assassinado, dando início a uma trama conduzida pelo inspetor Gaspar Zanco, personagem central da história.
— É uma trama policial ambientada na década de 1960, com elementos da ditadura, da Guerra Fria e da presença estrangeira no país — resume.

Pesquisa e reconstrução histórica
Para dar verossimilhança à narrativa, Cordenonsi recorreu a diferentes fontes. Parte do material foi obtida em arquivos públicos, incluindo documentos do governo federal disponíveis no Arquivo Nacional. Também utilizou registros da própria Nasa e reportagens antigas.
Além disso, contou com o apoio de um historiador e arquivista, que contribuiu com referências sobre a cidade de Rio Grande na década de 1960.
— Sobre o projeto em si, não existe tanta pesquisa acadêmica. O que há são registros pontuais, reportagens e documentos históricos — afirma.
Segundo ele, a reconstrução do ambiente urbano e social da época foi um dos principais desafios.
— Eu conhecia a cidade, mas precisava entender como ela era naquele período, como as pessoas viviam e como reagiram à chegada de tantos estrangeiros — diz.
Lançamento e próximos passos
O livro será lançado na Bienal do Livro de São Paulo, em setembro. A expectativa é realizar eventos também no Rio Grande do Sul, incluindo sessões em Santa Maria, Porto Alegre e Rio Grande, cidade que serve de cenário para a história.
— A ideia é levar o lançamento para os lugares que fazem parte dessa narrativa — afirma.
A obra marca mais um projeto de Cordenonsi, que pretende seguir explorando histórias que conectam ficção e acontecimentos históricos.

