
As portas fechadas e o prédio lacrado do Hotel Manta encerraram nesta sexta-feira (15) uma trajetória que atravessou diferentes períodos da história de Pelotas. Fundado em 1957, o empreendimento acumulou histórias envolvendo artistas, presidentes da República, equipes de televisão, delegações esportivas, turistas estrangeiros e personagens tradicionais da cidade.
Durante décadas, o hotel localizado na região central funcionou como principal referência da hotelaria de luxo no sul do Estado. Em períodos de shows, gravações e grandes eventos, a entrada do prédio costumava reunir fãs, curiosos e moradores tentando acompanhar a chegada de celebridades.
Classificado como hotel quatro estrelas, o Manta reunia uma estrutura considerada avançada para a época. Restaurante, pub, pizzaria e restaurante panorâmico ajudaram a transformar o empreendimento em um dos pontos mais conhecidos da cidade.
Além de artistas e políticos, o hotel recebia empresários, turistas estrangeiros e famílias em deslocamento entre Brasil e Uruguai. Muitas pessoas que viajavam de carro rumo a Punta del Este costumavam fazer parada em Pelotas e pernoitar no Manta.
O ex-capitão porteiro Paulo Roberto Oliveira, 74 anos, lembra do movimento intenso de turistas estrangeiros principalmente entre os anos 1980 e 1990.
— Vinha muita gente da Argentina e do Uruguai. O hotel era muito conhecido no país todo — recorda.
Para trabalhar na recepção do empreendimento, Paulo chegou a estudar inglês durante três anos com incentivo do próprio hotel.
— O Manta pagou o curso. A gente precisava atender pessoas de vários lugares e todos os funcionários tinham que saber se comunicar — afirma.
Ele trabalhou no empreendimento em diferentes períodos até 2016 e mantém guardados três álbuns de fotografias ao lado de artistas e personalidades que passaram pelo hotel.
Ao longo das décadas, o Manta hospedou músicos como Roberto Carlos, Alceu Valença, Erasmo Carlos, Jair Rodrigues, Frejat, Alexandre Pires, Turma do Pagode, Caetano Veloso, Clara Nunes, Arlindo Cruz, Gilberto Gil e João Nogueira. Também passaram pelo empreendimento atores ligados a produções da TV Globo e presidentes da República como José Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.
Hotel foi segunda casa para estrelas em Pelotas
Além da hospedagem tradicional, o hotel ganhou ainda mais projeção durante gravações realizadas no Rio Grande do Sul. Na década de 1980, o elenco do filme Sonho sem Fim permaneceu hospedado durante meses no empreendimento. Entre os artistas estavam Fernanda Torres, Débora Bloch, Carlos Alberto Riccelli e Beth Mendes.
Anos depois, artistas ligados à minissérie A Casa das Sete Mulheres também circularam pelo hotel durante gravações no Estado. O grupo ficou cerca de três meses em Pelotas.
Segundo o garçom Loro Castro, os atores utilizavam normalmente os espaços do hotel.
— Eles tomavam café da manhã, iam ao restaurante, circulavam normalmente entre anônimos e sabiam até o meu nome — relembra.
Ultraje a Rigor e histórias de bastidores
O período de maior movimento do hotel também acumulou episódios que ficaram conhecidos entre antigos funcionários. Um deles envolveu integrantes da banda Ultraje a Rigor após um show em Pelotas na década de 1990.
— Eles estavam no quinto andar e abriram as mangueiras de bombeiro. Molhou tudo. O pessoal do hotel tentou resolver, mas precisaram chamar a polícia — relembra Loro.
Segundo ele, os proprietários precisaram intervir antes da chegada da Brigada Militar.
O hotel também ficou conhecido pelo esquema reservado montado durante a hospedagem de Roberto Carlos. Segundo ele, poucos empregados tiveram contato direto com o cantor.
— Era tudo muito rápido e reservado. Tinha muita gente esperando — lembra Paulo Roberto Oliveira.

O pub que virou ponto da elite local
Mais do que hospedagem, o Manta também se consolidou como espaço de convivência social em Pelotas. O pub instalado próximo à recepção virou ponto tradicional de encontro de empresários, comerciantes e grupos habituais da cidade, especialmente entre os anos 1980 e 1990.
Segundo antigos funcionários, alguns frequentadores mantinham mesas fixas no espaço.
— Tinha gente que chegava e dizia "essa mesa é minha". Mesmo chegando mais tarde, ninguém podia ocupar — relembra Loro Castro.
O complexo ainda reunia outros ambientes que marcaram época, como a Mamma Pizza, o restaurante do hotel e o chamado "Cantinho do Chopp", área frequentada por empresários e lideranças da cidade.
No topo do prédio, o restaurante panorâmico também se transformou em símbolo do empreendimento. Localizado no 17º andar, o espaço reunia eventos, jantares e encontros sociais.
— Dava pra enxergar até Rio Grande lá de cima — afirma.

Fim de um símbolo da cidade
A falência do hotel foi decretada pela Justiça após a rejeição do plano de recuperação judicial apresentado pela empresa. A decisão determinou o fechamento imediato do empreendimento, além do bloqueio de contas bancárias, levantamento patrimonial e avaliação dos bens.
Na manhã desta sexta-feira (15), os últimos hóspedes deixaram o prédio antes da lacração definitiva.
O mensageiro José Ubirajar Gonçalves Silveira, 63 anos, trabalhou por 36 anos no local e acompanhou o encerramento das atividades.
— É muito triste terminar uma empresa assim. Eu gostaria que um dia eu saísse e ela estivesse sempre no auge — afirmou.
O fechamento encerra um ciclo de quase sete décadas em que o Manta esteve ligado não apenas à hotelaria, mas também à vida cultural, social e econômica de Pelotas.



