Em Pelotas, uma escola voltada ao público 50+ vem atraindo cada vez mais alunos interessados em aprender a usar melhor celular, aplicativos, redes sociais e ferramentas de inteligência artificial.
Criada em 2019, a Conecta Senior surgiu da percepção de que havia um público cada vez mais conectado, mas ainda pouco acolhido pelo mercado de tecnologia.
O fundador, Alexander Carvalho, conta que a ideia nasceu quando ainda trabalhava com assistência técnica e venda de computadores.
— Começou a aparecer um público que não queria só arrumar o computador. Eles queriam entender como usar. Queriam aprender a não estragar, a mexer no celular, a configurar as coisas de novo. E eu percebi que quase ninguém olhava para isso — afirma.

A escola já realizou mais de 10 mil aulas e atendeu cerca de 1,8 mil alunos em Pelotas. O público inclui desde aposentados que querem aprender a usar aplicativos até profissionais que precisam lidar melhor com ferramentas digitais no trabalho.
Segundo Carvalho, o avanço acelerado da tecnologia ampliou a procura pelos cursos.
— Antes o foco era mais computador e celular. Hoje chegam muitas dúvidas sobre inteligência artificial, golpes, clonagem de voz, vídeos falsos e aplicativos bancários — diz.
“A gente custa a se adaptar”
Entre os alunos está o aposentado Celso Rodrigues Salaberry, de 78 anos. Ex-servidor público e ainda ligado à agropecuária, ele acompanhou as mudanças tecnológicas ao longo da trajetória profissional.
Celso lembra que começou a trabalhar utilizando máquinas manuais de cálculo.
— Eu trabalhava com aquelas máquinas de braço. Fazia centenas de contas por dia manualmente. Depois veio a calculadora elétrica e, mais tarde, o computador. A gente custa a se adaptar — conta.
Ele também recorda as dificuldades ao começar a usar computador no trabalho.
— Eu fazia um relatório inteiro e não sabia que precisava salvar. Perdi muita coisa até aprender.
Hoje, utiliza WhatsApp, Instagram, aplicativos bancários e realiza movimentações financeiras pelo celular. Mesmo assim, afirma que os golpes digitais se tornaram uma preocupação constante.
— Já tive tentativa de golpe de tudo quanto é jeito. Falso advogado, falso sequestro de filho, compra no cartão. Acho que já foram mais de dez tentativas — relata.
Segundo ele, parte da busca por atualização está ligada justamente à necessidade de proteção.
— Hoje em dia é muito fácil cair em golpe. A gente precisa aprender para não ser enganado.
Inteligência artificial já faz parte da rotina
A professora aposentada Zinei Corrêa Mirapalhão, de 74 anos, também procurou a escola em busca de atualização tecnológica, mas diz ter encontrado mais do que aulas.
— Aqui a gente encontra pessoas na mesma fase da vida, conversa, troca experiências. Não é só aprender celular — afirma.
Ela conta que passou a usar ferramentas de inteligência artificial no cotidiano.
— O ChatGPT virou meu amigo. Eu converso com ele. Pergunto receita, viagem, produto, contrato, fogão. Ele ajuda muito — brinca.
Segundo Zinei, continuar aprendendo se tornou uma forma de manter vínculos com filhos, amigos e pessoas mais jovens.
— Se eu quero participar da vida deles, preciso me manter atualizada. Senão a gente vai ficando para trás nas conversas e nas informações.
Medo da tecnologia ainda existe
Carvalho afirma que muitos alunos chegam inseguros, acreditando que não conseguem aprender.
— Muita gente chega derrotada. Alguns acham que tecnologia não é para eles. Às vezes, a própria família acaba infantilizando ou fazendo tudo pela pessoa — relata.
Por isso, a metodologia busca aproximar o conteúdo da realidade dos alunos, com aulas práticas e situações do cotidiano.
As turmas costumam ter no máximo oito pessoas, justamente para manter atendimento individualizado.
— A gente pratica muito. Faz story errado para aprender a apagar, aprende a mexer no banco, no GPS, nas redes sociais. Quando eles percebem que conseguem, a confiança muda completamente.
Público 50+ movimenta mercado
Apesar da percepção de que pessoas mais velhas resistem à tecnologia, Carvalho afirma que o comportamento de consumo mostra o contrário.
— Quem compra muito celular top de linha, Alexa, carro com multimídia e aparelhos eletrônicos são os sêniores. Eles já estão usando tecnologia. O problema é que quase ninguém traduz isso para eles — afirma.
A escola evita utilizar termos como “idoso” ou “melhor idade”, por entender que muitos alunos não se identificam com essas expressões.
— A gente usa mais sênior ou 50+. O foco não é tratar como alguém incapaz, mas como pessoas que seguem aprendendo e querem autonomia.
Inclusão digital além do celular
Além das aulas presenciais, a Conecta Senior promove oficinas, palestras e atividades em parceria com grupos e instituições.
Entre os temas mais procurados estão segurança digital, uso consciente das redes sociais, aplicativos bancários, inteligência artificial e golpes virtuais.
Segundo Carvalho, o objetivo vai além do ensino tecnológico.
— No fundo, a tecnologia é só a ferramenta. O que as pessoas buscam aqui é independência, autonomia e continuar participando do mundo.




