Quando conseguiu retornar à Colônia de Pescadores Z3, em Pelotas, depois da enchente de maio de 2024, Gisele Gimenes encontrou apenas destruição. A área onde funcionava o seu restaurante, o Cantinho da Gi, havia sido arrastada pela força da água. O imóvel estava destruído, os banheiros haviam desaparecido e boa parte da estrutura construída poucos meses antes já não existia mais.
Naquele momento, a empreendedora não tinha certeza se conseguiria reabrir o restaurante.
— Eu não imaginava que o restaurante ia existir novamente. Eu me lembro de entrar na Z3 e ver tudo destruído — recorda.
Reconstruído às margens da Lagoa dos Patos, o restaurante voltou a receber clientes. Com cardápio focado em frutos do mar e uma vista privilegiada da lagoa, o Cantinho da Gi se consolidou como um dos restaurantes mais conhecidos de Pelotas, atraindo visitantes que percorrem quilômetros para conhecer a comunidade pesqueira localizada a cerca de 30 minutos da região central do município.

A reconstrução do restaurante, porém, é apenas um dos capítulos da trajetória de Gisele. Antes de comandar uma cozinha que recebe centenas de pessoas durante a temporada de verão, ela vendia pão de bicicleta pelas ruas da comunidade.
Da bicicleta à primeira padaria da Z3
Filha de uma moradora da Ilha da Feitoria e neta de uma das primeiras habitantes da Colônia Z3, Gisele chegou à comunidade há 17 anos. Na época, tinha uma filha pequena para criar e enfrentava dificuldades para conseguir emprego.
Sem ter com quem deixar a menina, então com cerca de um ano e meio, encontrou uma alternativa dentro da própria casa. Começou a produzir pães caseiros e vendê-los pelas ruas da comunidade.
— Eu botava minha filha no bagageiro da bicicleta e saía vendendo pão de casa em casa — conta.
A atividade se transformou em negócio. Com o dinheiro economizado, Gisele abriu uma padaria que, segundo ela, foi a primeira da comunidade. O estabelecimento funcionou durante seis anos. Foi nesse período que surgiu a ideia de trocar os pães pelos pratos à base de peixe e camarão.
Durante a safra do camarão, pescadores e trabalhadores vindos de cidades como Rio Grande, São José do Norte e até de Santa Catarina costumavam parar na padaria para tomar café. Aos poucos, começaram a pedir refeições.
O movimento despertou o interesse pela gastronomia e abriu caminho para uma mudança de rumo profissional.
A decisão, no entanto, foi recebida com desconfiança por familiares e amigos.
— Todo mundo dizia que eu estava trocando o certo pelo duvidoso. Falavam que ninguém iria vir comer nos fundos de casa — lembra.

Mesmo assim, ela seguiu em frente. A primeira estrutura do restaurante foi construída de forma simples, com ajuda do padrasto. Os clientes eram atendidos na parte da frente do imóvel e caminhavam até os fundos do terreno para fazer as refeições.
Formação em Gastronomia
Antes mesmo de inaugurar o restaurante, Gisele decidiu investir em qualificação profissional.
Ingressou no curso de Gastronomia do Senac, em Pelotas, e concluiu a formação pouco antes da abertura do negócio.
— Eu me formei em dezembro e abri o restaurante em janeiro. Já fiz o curso pensando no restaurante — afirma.
A formação durou cerca de um ano e dois meses e ajudou a moldar a identidade do empreendimento. Durante o período, ela estudou técnicas culinárias, confeitaria, gestão de cozinha e apresentação de pratos.
O trabalho de conclusão foi dedicado à culinária afro-brasileira e às influências culturais presentes na formação da gastronomia nacional.
A experiência também ampliou a criatividade na cozinha. Algumas das combinações que hoje aparecem no cardápio nasceram durante esse período. Entre elas está o risoto de camarão com abacaxi, atualmente um dos pratos mais pedidos pelos clientes.
A relação com a cozinha, porém, começou muito antes da faculdade. A mãe administrou por anos um restaurante em Santa Catarina. Já o pai construiu a vida no comércio e em atividades ligadas ao meio rural.
Segundo Gisele, a cozinha veio da mãe. O espírito empreendedor, do pai.
Duas enchentes em menos de um ano
O Cantinho da Gi abriu oficialmente em janeiro de 2023.
Poucos meses depois, no segundo semestre daquele ano, a primeira cheia atingiu a região. A água não chegou a invadir o restaurante, mas provocou danos na estrutura externa recém-construída.
Com ajuda de um cliente, a área foi reconstruída. O novo espaço ficou pronto em dezembro daquele ano, a tempo da temporada de verão.
Gisele trabalhou durante dezembro, janeiro, fevereiro, março e abril. O movimento crescia e o restaurante começava a ganhar visibilidade fora da comunidade. Então veio a enchente de maio de 2024.

A força da água destruiu o deck, os banheiros e a área de atendimento. Segundo a proprietária, o prejuízo ultrapassou R$ 90 mil.
— Eu me lembro de um dos dias em que consegui entrar na Z3. Tinha um cerro de areia aqui e eu vi o deck todo destruído. Naquele momento eu só pedi para a casa ficar. O resto eu lutava para conseguir de volta — recorda.
Sem restaurante e ainda pagando dívidas contraídas na reconstrução anterior, ela precisou buscar alternativas para manter a renda da família. Alugou um espaço na Praia do Laranjal e tentou continuar trabalhando enquanto administrava os prejuízos acumulados.
A situação financeira se agravou.
— Teve dias de contar moeda no caixa para colocar gasolina no carro e voltar para casa — relata.
Além das dificuldades econômicas, havia a incerteza sobre a possibilidade de reconstruir novamente o restaurante.

A ajuda que permitiu recomeçar
A recuperação começou a partir da mobilização de clientes.
Entre eles estava o narrador de luta livre Roberto Figueiroa, pelotense e frequentador do restaurante que se tornou amigo da proprietária. Com apoio de Matheus e de um casal de São Paulo, Denis e Cristina, ele ajudou a organizar uma campanha de arrecadação para reconstruir o empreendimento.
A iniciativa arrecadou cerca de R$ 63 mil.
— O Roberto deixou de ser cliente. Virou amigo. Se não fosse ele, o restaurante não estaria de pé — agradece.
Com os recursos arrecadados, a estrutura foi reconstruída.
O novo deck manteve características semelhantes ao anterior, mas foi erguido em uma altura maior e recebeu reforços estruturais. Pedras foram colocadas na base para reduzir o impacto das ondas em caso de novos episódios de inundação.
Mesmo com as melhorias, o receio permanece.
— A gente sempre fica com medo. Em 2024 foram poucas horas de vento sul e aconteceu toda aquela destruição — afirma.
Referência gastronômica na comunidade
Hoje, o Cantinho da Gi voltou a receber clientes de diferentes partes do país.
Além de moradores da região, o restaurante já recebeu visitantes de vários Estados, além de turistas da França e da Alemanha. Muitos chegaram por curiosidade para conhecer o local reconstruído após a enchente. Outros descobriram o espaço por indicação de amigos ou pelas redes sociais — e acabaram voltando.

Durante o verão, o movimento costuma lotar as mesas. Em um dos dias de maior procura, segundo a proprietária, quase 400 pessoas foram atendidas.
O cardápio tem como base peixes e camarões adquiridos de pescadores da própria comunidade, reforçando a ligação do restaurante com a atividade que sustenta a Colônia Z3 há gerações.
Enquanto observa os clientes ocuparem novamente o deck voltado para a Lagoa dos Patos, Gisele admite que ainda enfrenta dificuldades financeiras decorrentes das enchentes. Mas a sensação hoje é diferente daquela encontrada ao voltar para a Z3 em 2024.
— Hoje eu vejo tudo no lugar de novo. Melhor do que antes. Isso me dá tranquilidade e esperança para continuar — diz.
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