
O combate ao câncer colorretal, popularmente conhecido como câncer de intestino grosso, atravessa um momento de transição marcado por diagnósticos mais precoces e pela chegada de terapias genéticas direcionadas. Embora a doença ainda figure entre as de maior ocorrência, avanços no rastreamento e na identificação de alvos moleculares têm aberto novas perspectivas de tratamento no Brasil.
Uma das principais frentes de evolução está na oncologia de precisão. O aprimoramento do sequenciamento genético permitiu o desenvolvimento de fármacos desenhados para agir sobre mutações específicas. É o caso das pesquisas voltadas ao gene KRAS, uma das alterações celulares mais complexas de serem combatidas em tumores do aparelho digestivo.
— A gente está caminhando. Hoje já existem fármacos com ação específica contra a mutação no gene KRAS, algo que antes não imaginávamos ser possível. Isso representa uma diferença significativa no tratamento, embora o desafio agora seja a viabilidade e o custo de acesso a essas tecnologias — explica a doutora Simone Guaraldi, cirurgiã e endoscopista do Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Rastreamento ganha novo exame no SUS
Além das novas opções farmacológicas, a resposta ao avanço da doença passa pelo fortalecimento do diagnóstico em fase inicial. O Ministério da Saúde formalizou nesta segunda-feira (10) a implementação do teste imunoquímico fecal (FIT) no Sistema Único de Saúde (SUS).
O exame é destinado a pessoas entre 50 e 75 anos, de ambos os sexos, que não apresentam sintomas, e deve ser realizado a cada dois anos. A medida foi oficializada por meio de portaria publicada no Diário Oficial da União (DOU), com vigência imediata. O registro do novo procedimento nos sistemas do SUS começa a partir do próximo mês.
A estratégia pode beneficiar mais de 40 milhões de brasileiros na prevenção e na detecção inicial do câncer colorretal.
O FIT identifica pequenas quantidades de sangue oculto nas fezes por meio de anticorpos específicos para a hemoglobina humana. Segundo o Ministério da Saúde, a sensibilidade do teste varia entre 85% e 92%.
A coleta pode ser realizada em casa, com um kit que exige apenas uma amostra. Não é necessário fazer preparo intestinal nem seguir restrições alimentares.
O novo protocolo é destinado ao rastreamento de pessoas assintomáticas e não substitui a investigação diagnóstica quando há sinais ou sintomas suspeitos. A norma também altera a descrição do procedimento já existente de pesquisa de sangue oculto nas fezes, que passará a abranger diferentes métodos e técnicas.
Para a faixa etária de 50 a 75 anos e perfil assintomático, o registro deverá ser feito especificamente como o novo Teste Imunoquímico Fecal.
Exames ajudam a identificar lesões antes do tumor
Outro fator de impacto foi a ampliação da infraestrutura de diagnóstico por imagem e de endoscopia nos hospitais, acelerada nos últimos anos. Com equipamentos mais precisos, os médicos conseguem identificar, classificar e ressecar lesões precursoras diretamente durante a colonoscopia, evitando que o tumor se desenvolva.
— A gente tem hoje mais capacidade de enxergar lesões precursoras do câncer de colo, ressecar, por quê? Porque a gente aprimorou a endoscopia, aprimorou o método de ressecção, aprimorou a forma de cuidar, melhorou o aparelho, melhorou a forma de ver, de classificar e de caracterizar a doença — afirma.
Apesar da melhoria nos recursos tecnológicos, a especialista do INCA adverte que o país ainda enfrenta marcadas desigualdades regionais de acesso aos serviços de saúde e falta de informação na população.
— O câncer é uma doença evitável. Quando conseguimos identificar uma lesão no início, a chance de resolução é altíssima. Mas ainda temos um gargalo de acesso, com pessoas que chegam ao tratamento em estágios avançados por desconhecimento ou por dificuldades de deslocamento até os centros especializados — ressalta a pesquisadora.
Câncer de intestino também avança entre pessoas mais jovens
Enquanto novas estratégias ampliam as possibilidades de prevenção e tratamento, pesquisadores tentam entender outro fenômeno que preocupa especialistas: o aumento dos casos de câncer colorretal entre adultos com menos de 50 anos.
Em Pelotas, um estudo internacional conduzido em parceria entre a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a Universidade Católica de Pelotas (UCPel) e o Instituto Nacional de Câncer (Inca) busca identificar alterações genéticas relacionadas ao desenvolvimento precoce da doença.
A investigação integra o projeto Prominent, parceria da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), com o Inca e as instituições locais.
O estudo analisa a presença de assinaturas mutacionais no DNA dos tecidos de pacientes, especialmente alterações associadas à colibactina, uma toxina produzida por determinadas cepas da bactéria Escherichia coli. A hipótese é de que essas alterações possam estar relacionadas ao desenvolvimento de tumores antes da faixa etária tradicionalmente associada à doença.

Pelotas foi escolhida como centro de coleta do grupo controle por causa das coortes de nascimento da UFPel. A pesquisa utiliza dados de participantes acompanhados desde o nascimento, o que permite aos investigadores relacionar informações epidemiológicas acumuladas ao longo de décadas com alterações identificadas nos tecidos.
A investigação envolve cerca de 160 voluntários assintomáticos da Coorte de 1982, que completam 44 anos em 2026 — faixa etária considerada estratégica diante da redução da idade recomendada para o início do rastreamento.
Os exames realizados no Hospital Universitário São Francisco de Paula (Husfp), da UCPel, também já identificaram lesões em participantes que não apresentavam sintomas, incluindo pólipos que foram removidos durante as colonoscopias.
O material coletado em Pelotas é encaminhado ao Inca e, posteriormente, para instituições internacionais responsáveis pelo sequenciamento genômico. Os resultados serão cruzados com informações epidemiológicas para tentar identificar fatores associados ao desenvolvimento precoce da doença.
Rastreamento depende de idade e histórico familiar
A recomendação atual das sociedades médicas para a população em geral, sem sintomas e sem histórico familiar, é a realização da primeira colonoscopia de rotina aos 45 anos.
A exceção aplica-se aos indivíduos com casos de câncer de intestino na família de primeiro grau ou com síndromes hereditárias, como a polipose familiar. Nesses grupos de maior risco, o rastreamento deve ser antecipado para idades mais jovens — em geral, cerca de 10 anos antes da idade em que o parente mais próximo desenvolveu a doença.
A estratégia de rastreamento varia conforme a faixa etária e o risco individual. No SUS, o novo FIT passa a integrar a estratégia para pessoas assintomáticas de 50 a 75 anos, enquanto a avaliação médica e a investigação por colonoscopia continuam sendo fundamentais diante de sintomas ou de fatores que indiquem maior risco.
Os especialistas reforçam ainda a importância de procurar atendimento médico caso surjam sinais de alerta, como alterações persistentes no hábito intestinal, alternando diarreia e prisão de ventre, dor abdominal contínua, perda de peso sem causa aparente ou presença de sangue nas fezes.
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