
Uma batata capaz de resistir à geada, plantas naturalmente adaptadas à seca e espécies que podem tornar alimentos mais produtivos e resistentes às mudanças climáticas. Esses "superpoderes" já existem na natureza e estão presentes no bioma Pampa, no sul do Estado.
Um levantamento realizado por pesquisadores da Embrapa Clima Temperado, em Pelotas, identificou 199 parentes silvestres nativos de cultivos agrícolas presentes no Pampa. O estudo, considerado inédito, mostra que espécies aparentadas a alimentos como batata, tomate, berinjela, mandioca, pêssego e milheto podem ser fundamentais para o desenvolvimento da agricultura nas próximas décadas.
A pesquisa teve como base 64 cultivos considerados essenciais para a segurança alimentar mundial e busca ampliar o conhecimento sobre espécies nativas que podem contribuir para o melhoramento genético de plantas cultivadas.
— Essa lista tem como base 64 cultivos de importância para a segurança alimentar global. A gente tem, então, no Pampa, parentes silvestres da batata, do tomate, da berinjela, do pêssego, da mandioca, do milheto, entre outros — explica a doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Fisiologia Vegetal da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Daiane Rodeghero Vahl.
Espécies desenvolvem resistência naturalmente
Ao contrário das variedades cultivadas, essas plantas crescem espontaneamente em campos, matas e margens de estradas, sem intervenção humana. Ao longo de milhares de anos, adaptaram-se naturalmente às condições do ambiente onde vivem.

Segundo os pesquisadores, é justamente essa capacidade de adaptação que desperta o interesse da ciência.
— Essas plantas estão ocorrendo no habitat natural delas e se adaptando a uma série de mudanças ambientais. Isso faz com que desenvolvam características importantes que podem ser utilizadas no melhoramento de cultivos agrícolas — afirma Daiane.
Entre essas características estão a resistência à seca, às geadas, a pragas, doenças e outras condições climáticas extremas, cada vez mais frequentes em razão das mudanças do clima.
Batata do Pampa já ajudou agricultores em outro continente
Um dos exemplos mais emblemáticos encontrados pelos pesquisadores é uma espécie silvestre de batata que cresce naturalmente no Pampa.
Enquanto muitas variedades cultivadas sofrem com temperaturas muito baixas, essa planta produz substâncias que funcionam como um "anticongelante" natural, protegendo as folhas durante as geadas.
Segundo o pesquisador da Embrapa Clima Temperado, Gustavo Heiden, essa característica já ultrapassou as fronteiras brasileiras.
— Recentemente essa espécie do Pampa foi utilizada para criar novas variedades adaptadas à região norte dos Andes, considerada o berço de origem das batatas, mas onde essa característica de resistência ao frio não existia — explica.
Descobertas já estão presentes nos supermercados
O trabalho com os parentes silvestres não fica restrito aos laboratórios.
Diversas características identificadas nessas espécies já foram incorporadas a variedades comerciais encontradas nos supermercados.
Um dos casos é o desenvolvimento de batatas destinadas ao processamento industrial, que apresentam maior teor de amido e escurecem menos depois de cortadas, características importantes para a fabricação de produtos congelados.
— Hoje temos no mercado uma ampla variedade de batatas pré-fritas congeladas porque essa característica foi descoberta em uma espécie silvestre. Como ela interessava ao processamento, ao armazenamento e também ao consumidor, acabou sendo incorporada à batata cultivada — destaca Heiden.
Conservar o Pampa é preservar o futuro da agricultura
Além de reunir uma rica biodiversidade, o Pampa funciona como um verdadeiro banco genético para a agricultura.
O problema é que o bioma está entre os mais ameaçados do Brasil, principalmente pela substituição da vegetação nativa por atividades agropecuárias e florestais.
Para o professor de Botânica da UFPel, João Iganci, preservar esses ambientes significa garantir que futuras gerações possam continuar utilizando esse patrimônio genético para desenvolver alimentos mais adaptados às mudanças climáticas.
— Muitas vezes, quando falamos da conservação do Pampa, outros ecossistemas do bioma acabam ficando em segundo plano. E é justamente nessas áreas que encontramos muitos desses parentes silvestres. Quando falamos em conservar essas espécies, estamos falando também sobre o futuro da agricultura e da produção sustentável de alimentos — afirma.
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