
O Hospital Universitário São Francisco de Paula (HUSFP), em Pelotas, realizou, semana passada, sua primeira arteriografia cerebral diagnóstica para confirmação de morte encefálica, um avanço que promete acelerar diagnósticos e ampliar as chances de aproveitamento de órgãos para transplantes no sul do Estado.
O procedimento passou a ser possível após a aquisição de um moderno aparelho de hemodinâmica e da implantação do serviço de neurocirurgia endovascular no hospital.
Até então, pacientes que necessitavam desse tipo de exame precisavam ser deslocados para clínicas conveniadas ou, em alguns casos, transferidos para Porto Alegre, o que aumentava os riscos clínicos e prolongava a espera por um diagnóstico definitivo.
— Tinha todo o inconveniente, a dificuldade do deslocamento do paciente, do custo que isso traz para o sistema e o atraso para fechar um diagnóstico que, às vezes, é um quadro que deixa toda a família ansiosa por uma definição — explica o médico e chefe do Serviço de Neurocirurgia do HUSFP, Rafael Sodré.
Atualmente, o HUSFP é o único hospital da Região Sul com serviço de neurocirurgia a utilizar essa tecnologia para o diagnóstico de morte encefálica.
Como funciona o exame
A arteriografia cerebral é um procedimento minimamente invasivo, semelhante a um cateterismo cardíaco, que dura cerca de 30 minutos.
Por meio de uma punção na virilha ou no pulso, um cateter é conduzido até as artérias que irrigam o cérebro. Em seguida, é injetado um contraste que permite visualizar a circulação sanguínea por meio de imagens obtidas por raio-X.

Em um cérebro com atividade normal, o contraste percorre os vasos sanguíneos e aparece nas imagens. Já nos casos de morte encefálica, não há fluxo sanguíneo cerebral.
— Como o cérebro está morto, infartado, ele não requer sangue. Consequentemente, o contraste que a gente administra na artéria não flui para o cérebro — explica a médica neurocirurgiã endovascular do HUSFP Rebeca Cabral, responsável técnica pelo exame em Pelotas.
O protocolo de confirmação
A legislação brasileira determina que a confirmação da morte encefálica ocorra por meio de um protocolo dividido em três etapas:
- Primeiro exame clínico: avaliação dos reflexos neurológicos realizada por um médico;
- Teste de apneia: o paciente é desconectado temporariamente do ventilador mecânico para verificar se há respiração espontânea;
- Exame complementar de imagem: etapa em que a arteriografia cerebral comprova a ausência de circulação sanguínea no cérebro.
Corrida contra o tempo
Segundo os especialistas, a principal vantagem da realização do exame em Pelotas é a redução do tempo necessário para concluir o protocolo.
Pacientes em investigação de morte encefálica geralmente apresentam quadro clínico instável, o que torna os deslocamentos especialmente arriscados.
— Isso aí, às vezes, tu pode até perder pacientes no processo — alerta Rebeca.
Além de reduzir a angústia das famílias, a agilidade no diagnóstico também aumenta as chances de sucesso nos transplantes de órgãos.
Quando a morte encefálica ocorre, o organismo passa por um processo progressivo de deterioração, comprometendo a viabilidade dos órgãos.
Se tu consegue concluir o protocolo em um, dois dias, tu tem a viabilidade dos órgãos maior do que se tu esperou dias para fazer esse exame. Quanto mais rápido a gente faz, mais rápido esses órgãos podem ser coletados, se a família aceitou a doação. Daqui a pouco, se tu espera dias, tu deixa de ter um coração viável, por exemplo, que é um órgão super requisitado no Estado
REBECA CABRAL
Neurocirurgiã endovascular do HUSFP
Avanço também no tratamento de AVC
A implantação da estrutura de hemodinâmica também abre caminho para outros procedimentos de alta complexidade na região.
Natural de Goiânia e formada no Rio Grande do Sul, Rebeca destaca que a nova estrutura beneficia pacientes de toda a metade sul do Estado, que antes precisavam buscar atendimento especializado em centros mais distantes.
Além do diagnóstico de morte encefálica, aneurismas cerebrais e malformações vasculares, a expectativa é que o hospital passe a realizar futuramente procedimentos de emergência para tratamento de Acidente Vascular Cerebral (AVC).
— No futuro a gente vai conseguir fazer a trombectomia no AVC também, que é mais uma etapa de avanço no tratamento do AVC — projeta a médica.
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