
Desenvolver sementes brasileiras de cannabis medicinal e reduzir o custo dos medicamentos à base da planta estão no centro da nova pesquisa que será conduzida pela Embrapa Clima Temperado, em Pelotas, no sul do Estado. A unidade será uma das principais responsáveis pelos estudos no país, autorizados de forma excepcional pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O trabalho terá como foco o melhoramento genético da cannabis e o desenvolvimento de sistemas de produção em ambiente controlado, com a meta de criar materiais genéticos próprios, adaptados às condições brasileiras, e diminuir a dependência da importação de insumos farmacêuticos utilizados atualmente nos tratamentos.
Em novembro de 2025, a Anvisa autorizou, de forma excepcional, a realização das pesquisas, ao considerar o potencial da planta nas áreas da saúde, da agricultura e da indústria. No mesmo período, foi aprovado um investimento de R$ 13 milhões junto à Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) para estruturar a unidade gaúcha e outras três da Embrapa envolvidas no projeto.
Apesar da liberação, os trabalhos em Pelotas ainda não começaram. No momento, a Embrapa realiza as adequações exigidas pela Anvisa, incluindo a instalação de sistemas de monitoramento, controle de acesso biométrico e protocolos de rastreabilidade.
— Nós ainda não iniciamos. É um longo processo nesse contexto. Só para conseguir a autorização da Anvisa, levamos mais de um ano, desde que foram protocolados os projetos até que a autorização saísse — explica a pesquisadora Beatriz Emygdio, responsável pelo estudo.
Cultivo em ambiente controlado
A unidade em Pelotas atuará com cultivo de cannabis em ambiente controlado, por meio de casas de vegetação específicas. Os materiais a serem pesquisados virão tanto de importação quanto de coletas já existentes no Brasil.
— Aqui vamos trabalhar com material genético. Já temos interesse em alguns materiais específicos, com foco para o objeto de desenvolvimento de cultivares — afirma a pesquisadora.
Redução de custos e acesso ao tratamento
Atualmente, o Brasil depende totalmente da importação do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) utilizado na produção de medicamentos à base de cannabis. Esse cenário encarece os tratamentos, dificulta o acesso e gera um volume crescente de ações judiciais para fornecimento via Sistema Único de Saúde (SUS).
A proposta da Embrapa é desenvolver sementes e materiais genéticos nacionais, reduzindo a dependência externa e, consequentemente, o custo dos medicamentos de cannabis medicinal.
— Hoje o Brasil tem em torno de 900 mil pessoas fazendo uso regular de cannabis medicinal, com expectativa de que até cerca de 7 milhões de pessoas possam se beneficiar — destaca Beatriz.
Além do uso medicinal, a autorização também permite a realização de pesquisas em outras unidades da empresa voltadas à produção de fibras e sementes, no contexto do cânhamo industrial. A estratégia da Embrapa é inserir a cannabis no portfólio institucional de pesquisa, com foco medicinal e industrial.
Projeto ganhou força a partir de 2023
O Brasil regulamentou o uso medicinal da cannabis em 2015, mas a iniciativa ganhou força dentro da Embrapa a partir de 2023, impulsionada por demandas de empresas internacionais e do Ministério da Agricultura e Pecuária, que buscavam suporte técnico para projetos relacionados ao tema.
Diante desse cenário, a empresa criou um grupo de trabalho para analisar o contexto e definir uma estratégia institucional. O processo resultou na criação do Comitê Permanente de Assessoramento Estratégico da Diretoria Executiva no Tema da Cannabis, responsável por orientar e consolidar as pesquisas no âmbito da Embrapa.
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