
A queda no consumo de arroz no Brasil tem impulsionado pesquisas acadêmicas voltadas à diversificação do uso do grão como forma de ajudar a escoar a produção no sul do Estado e reduzir os estoques acumulados nas últimas safras.
Estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) analisam o aproveitamento do arroz e de seus subprodutos em setores como energia, indústria química, bebidas e cosméticos.
Dados da Embrapa indicam que o consumo per capita de arroz no país caiu cerca de 27% nos últimos 30 anos. No maior índice já registrado, o brasileiro consumia em média 47 quilos por ano. No levantamento mais recente, esse número caiu para 34 quilos, refletindo mudanças nos hábitos alimentares.
A contadora Aline Santiago afirma que reduziu o consumo do grão no dia a dia.
— É um hábito que eu estou tendo de não comer arroz. Prefiro proteína e salada. Vou diminuindo aos poucos. Arroz branco puro eu não como — relatou.
Nos restaurantes, a mudança também é perceptível. O proprietário Marcelo Bandeira diz que a sobra de arroz aumentou.
— Antigamente o pessoal consumia bem mais arroz. Hoje, o que a gente prepara acaba sobrando mais do que outros alimentos — afirmou.
Para evitar desperdício, estabelecimentos buscam alternativas.
— A gente coloca mais arroz nas marmitas que o pessoal leva para casa, justamente para não botar fora o alimento — explicou.
Pesquisas em andamento
Diante do cenário de queda no consumo e aumento dos estoques, pesquisadores das universidades federais da região passaram a estudar novas cadeias produtivas a partir do arroz, com foco no aproveitamento integral do grão e da casca. Os estudos envolvem desde processos laboratoriais até análises de viabilidade econômica.
Na Furg, estudos avaliam a transformação do arroz em álcool neutro e ultrapurificado, produto usado na fabricação de bebidas especiais, cosméticos e perfumaria. Também são analisadas formas de captura e reaproveitamento do gás carbônico gerado no processo industrial, destinado à produção de água gaseificada e refrigerantes.
— A partir do arroz, é possível produzir álcool em gel, álcool neutro e outros insumos de alto valor agregado. Além disso, o gás carbônico pode ser captado, liquefeito e reutilizado, o que amplia ainda mais o potencial econômico — explica o professor de Ecologia da Furg Marcelo Dutra.
Na UFPel, os estudos se concentram na valorização dos subprodutos do arroz, como a casca, que pode ser utilizada como fonte de energia, matéria-prima industrial e insumo para processos sustentáveis.
Impacto no campo
Para os produtores, a diversificação é vista como alternativa para frear a redução da área plantada no Estado. O produtor rural Fernando Rechsteiner afirma que a falta de mercado levou à diminuição das lavouras.
— O Rio Grande do Sul planta hoje cerca de 250 mil hectares a menos de arroz do que em outras épocas. Para pensar em retomar parte dessa área, precisamos criar novas demandas e novos usos para o grão — disse.
Segundo especialistas, a ampliação das aplicações do arroz pode reduzir a dependência do consumo tradicional e tornar a cadeia produtiva mais resistente às mudanças de comportamento do consumidor.
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