
Já dizia Pedro Bial: use filtro solar. O conselho virou meme, poesia e, para muitos, quase mantra. Mas, além do tom pop, há uma base científica sólida (e urgente) por trás dele.
Em um país de radiação intensa, verões cada vez mais quentes e índices recordes de câncer de pele, o protetor solar deixou de ser um item sazonal para se tornar parte da rotina de saúde pública.
Ainda assim, saber qual produto escolher continua sendo um desafio para grande parte dos consumidores, que se veem diante de prateleiras lotadas de FPS (Fator de Proteção Solar), texturas, siglas e promessas.
O produto não só evita queimaduras e reduz risco de câncer de pele, como controla manchas, adia o envelhecimento precoce, protege cicatrizes e influencia no resultado de tratamentos estéticos.
Para entender o que realmente importa na hora de comprar, comparar e aplicar um protetor solar, Zero Hora conversou com especialistas e reuniu tudo o que você precisa saber antes da escolha e depois de adquirir o produto.
Leia nesta reportagem
- Qual o FPS ideal?
- Importância da proteção UVA
- PPD: o que significa e por que ele muda tudo
- Protetor caro protege mais que protetor barato?
- Escolha por tipo de pele
- Gel, sérum, creme, mousse, bastão ou spray
- Perguntas frequentes, dicas e proteção para crianças
- Quantidade ideal
- Devo usar protetor todos os dias?
ZH Indica: guia de compras
Como escolher o melhor protetor solar
Ao iniciar a busca por um protetor solar, seja na farmácia, na internet ou no consultório, o consumidor costuma ser atraído primeiro pelo FPS e pelo preço.
Mas, segundo especialistas, antes da numeração na embalagem, é a experiência de uso que determina se aquele produto realmente fará parte da rotina.
Textura desconfortável, toque pegajoso ou sensação de peso no rosto são alguns dos principais motivos que fazem brasileiros abandonarem o uso diário, reduzindo drasticamente a proteção ao longo dos dias.
É exatamente por isso que, antes de se fixar apenas no FPS, vale observar como o produto se comporta na pele, especialmente no verão, quando o calor combinado com a transpiração pode dificultar a adesão.

O dermatologista Alessandro Alarcão, presidente do Congresso Brasileiro de Cirurgia Dermatológica 2026, explica que textura, FPS adequado e proteção UVA (Ultravioleta A) formam o trio básico da escolha.
— O primeiro ponto é unir proteção adequada e textura confortável. Um produto pesado afasta o uso diário. Três fatores orientam essa escolha: FPS adequado, proteção UVA e textura que favoreça a rotina — detalha.
FPS: quando subir o nível?
A pergunta é comum: qual FPS realmente basta? Embora FPS 30 continue sendo o mínimo recomendado por entidades como a Sociedade Brasileira de Dermatologia, a elevação dos índices ultravioleta no país nos últimos anos exige atenção.
Em dias muito ensolarados, o UV chega ao extremo logo pela manhã, e isso impacta diretamente a quantidade de radiação acumulada na pele, independentemente da cor ou do histórico individual.
Para o dermatologista, FPS mais altos são mais do que válidos, são necessários para determinados perfis.
Ele acrescenta que trabalhadores expostos ao sol contínuo, como agricultores e profissionais da construção civil, devem sempre optar por FPS elevado.
- FPS 30: continua sendo o mínimo recomendado
- FPS 50: tende a atender melhor a maior parte das pessoas
- FPS 70 a 100 é indicado para: pele muito clara; histórico de câncer de pele; melasma; rosácea; pele sensível; longos períodos ao ar livre
Importância da proteção UVA

Grande parte dos consumidores observa apenas o FPS, sem perceber que a radiação UVA — invisível, constante o ano todo e capaz de atravessar janelas — é a mais associada ao envelhecimento, ao melasma e ao agravamento de condições inflamatórias da pele.
Alarcão enfatiza que, para quem tem manchas, histórico familiar de câncer de pele ou faz procedimentos estéticos, avaliar a proteção UVA é decisivo.
— A radiação UVA causa manchas, envelhecimento e participa da formação de câncer de pele. Para avaliar essa proteção, busque o símbolo UVA dentro de um círculo, o PPD (Escurecimento Persistente do Pigmento) ou a classificação PA+. Um protetor FPS 50 pode ter UVA fraco, o que não atende quem trata melasma — ressalta o dermatologista.
Entenda a classificação PA+:
- PA+: proteção UVA leve; PPD entre dois e quatro
- PA++: proteção UVA moderada; PPD entre quatro e oito
- PA+++: alta proteção UVA;PPD entre oito e 16
- PA++++: proteção UVA muito alta; PPD acima de 16
PPD: o que significa e por que ele muda tudo
Mesmo presente em rótulos, o PPD (Escurecimento Persistente do Pigmento) ainda é pouco entendido pelo público. Ele mede quanto o protetor impede o escurecimento da pele induzido por UVA, um parâmetro importante para quem convive com manchas, pele sensível ou tratamentos recentes.
Protetores com FPS alto, mas PPD baixo, são comuns e geram frustração entre pessoas com melasma que, apesar do cuidado, veem a mancha retornar. Alarcão reforça que o PPD elevado faz diferença direta e perceptível.
— Ele ajuda a evitar novas manchas, controlar melasma, proteger cicatrizes recentes e reduzir fotoenvelhecimento precoce — afirma.
Protetor caro protege mais que protetor barato?
O preço é um dos pontos mais sensíveis para quem precisa usar protetor todos os dias e, muitas vezes, reaplicar. A boa notícia é que filtros solares acessíveis protegem tão bem quanto versões premium quando falamos de proteção UV.
O que costuma mudar é a experiência de uso: textura mais seca, fórmulas mais estáveis, menor risco de acne cosmética e resistência ao suor.
Alarcão observa que investimento não é, necessariamente, sinônimo de maior proteção. O desafio, muitas vezes, é encontrar um produto que combine eficácia e conforto.
Escolha por tipo de pele

A escolha do protetor solar precisa considerar as características de cada pele. Texturas incompatíveis podem aumentar o brilho, causar irritação, deixar a superfície mais pesada ou até desencadear espinhas.
Por outro lado, quando o produto combina com as necessidades da pele, a adesão diária melhora e o uso se torna mais confortável, especialmente em dias quentes.
Além disso, essa escolha muda conforme a estação: no inverno, peles mais ressecadas costumam buscar fórmulas cremosas; no verão, até quem tem pele seca tende a preferir versões mais leves.
A seguir, o que funciona melhor para cada perfil:
Pele oleosa
Prefira gel-cream, gel, sérum ou fórmulas de toque seco. Texturas leves diminuem brilho e reduzem risco de acne cosmética.
Pele acneica
Busque protetores oil free e comedogênicos negativos. Séruns e gel-creams são os que mais evitam obstrução dos poros.
Pele seca
Loções cremosas, fórmulas hidratantes e opções com ácido hialurônico ajudam a manter o conforto ao longo do dia. No inverno, versões mais densas podem ser ainda mais adequadas.
Pele sensível
Filtros minerais (óxido de zinco e dióxido de titânio) reduzem risco de irritação. Fórmulas com menos fragrância e álcool tendem a funcionar melhor.
Pele madura
Exige boa proteção UVA, já que essa radiação acelera rugas, manchas e perda de colágeno. Versões com antioxidantes podem complementar o cuidado diário.
Peles negras também precisam de proteção alta
Ainda persiste a ideia equivocada de que peles escuras são naturalmente mais protegidas do sol. Embora a melanina ofereça alguma defesa, ela não impede queimaduras, não barra o UVA profundo e não elimina o risco de câncer de pele.
Além disso, peles negras também podem desenvolver melasma, especialmente em áreas de maior exposição. A observação clínica reforça isso.
— A melanina oferece proteção parcial, mas não impede manchas, queimaduras ou câncer de pele. No litoral gaúcho, é comum observar queimaduras inclusive em pessoas de fototipo alto que acreditam não precisar de FPS elevado — afirma Alarcão.
Texturas: gel, sérum, creme, mousse, bastão ou spray

A variedade de texturas disponíveis no mercado (gel, sérum, creme, mousse, bastão e spray) permite personalizar o uso do protetor solar conforme o clima, o tipo de pele e a rotina.
Embora a eficácia dependa da formulação, é a textura que costuma determinar se a pessoa sente conforto suficiente para reaplicar ao longo do dia, etapa fundamental para manter a proteção.
Em dias muito quentes, texturas leves evitam a sensação de peso e melhoram a adesão. No frio, opções mais densas ajudam a compensar o ressecamento natural da pele.
A seguir, como cada textura funciona na prática:
- Gel: leve, refrescante e ideal para temperaturas altas; indicado para peles oleosas ou para quem sente desconforto com produtos mais densos
- Sérum: textura fluida, rápida absorção e toque quase imperceptível; excelente para o verão e para quem quer evitar brilho ao longo do dia
- Creme: fórmulas mais densas, com maior poder hidratante; funcionam melhor em clima frio e seco ou para peles naturalmente ressecadas
- Mousse: textura intermediária, mais aerada e fácil de espalhar; versátil para quem busca leveza sem abrir mão de conforto
- Bastão (stick): prático para reforçar pontos específicos: nariz, maçãs do rosto, cicatrizes e áreas de maior exposição; facilita a reaplicação mesmo em ambientes externos
- Spray: rápido e conveniente, mas exige atenção para evitar falhas; sempre deve ser espalhado com as mãos após borrifar para garantir cobertura uniforme
Perguntas frequentes, dicas e proteção para crianças
Protetor com cor protege mais?
Os pigmentos presentes nos protetores com cor têm papel muito além da cobertura estética. Eles são fundamentais para bloquear luz visível, hoje reconhecida como uma das principais agravantes do melasma, inclusive em ambientes internos.
Pessoas que trabalham em frente ao computador relatam melhora significativa das manchas ao trocar o protetor sem cor por versões pigmentadas. Alarcão reforça o benefício:
— Os pigmentos bloqueiam luz visível, que escurece manchas e piora o melasma. Quem trabalha em ambiente fechado observa melhora quando substitui protetor sem cor por um com cor.
Protetor solar causa acne? Como evitar?
Muitos adultos que lidam com acne acreditam que ela se relaciona apenas a hormônios ou alimentação. Mas uma das causas mais frequentes é o uso de protetores inadequados para o tipo de pele, sobretudo os mais espessos, comedogênicos (que podem obstruir os poros da pele) ou brilhantes.
Alarcão orienta que pequenos ajustes na rotina podem evitar o problema.
— Escolha fórmulas oil free (livres de óleo), limpe o rosto à noite, evite produtos espessos e dê preferência a texturas modernas com sílica matificante — recomenda.
Protetor resistente à água dispensa reaplicação?
A indicação "water resistant" significa apenas que o produto mantém parte da eficácia por 40 a 80 minutos dentro d’água. Secar com toalha, suar ou repetir mergulhos reduz a proteção. Portanto, sim: é preciso reaplicar.
— Essa indicação significa que o produto mantém eficácia por 40 a 80 minutos. Após secar com toalha, a proteção diminui — explica o dermatologista.
Vitamina D: usar protetor impede a produção?
A dúvida é frequente, e o mito, persistente. Na prática, a aplicação real das pessoas e as falhas de cobertura permitem que parte do UVB chegue à pele.
Além disso, a deficiência de vitamina D deve ser tratada com suplementação, não com exposição desprotegida.
— O protetor solar não impede a produção de vitamina D. Parte da radiação UVB (ultravioleta B) alcança a pele mesmo com o produto. Quem tem deficiência deve repor com suplemento, não com exposição sem proteção — explica.
Cuidados especiais
Algumas condições exigem mais rigor. No melasma, o uso isolado pela manhã raramente sustenta resultados. Em casos de rosácea, fragrâncias podem irritar a pele.
Já quem tem histórico de câncer precisa de FPS alto e reaplicação mais frequente, independentemente da estação. O dermatologista é categórico:
— Melasma requer FPS 50+, PPD alto, protetor com cor e reaplicação rigorosa. Rosácea responde melhor a produtos com menos fragrância e filtros minerais. Quem tem histórico de câncer de pele precisa de FPS 50+, UVA alto e reaplicação frequente — alerta.
Crianças: quando usar?
Nos primeiros meses de vida, bebês não devem usar protetor. A proteção deve vir de sombra, roupa, chapéu e barreiras físicas.
Após os seis meses, o produto passa a ser recomendado, preferencialmente com filtros minerais, que têm menor risco de irritação. Alarcão reforça ainda a importância da reaplicação para crianças em ambientes de praia e piscina.
— Antes dos seis meses, evite sol direto e não use protetor. Depois dessa idade, o produto deve entrar na rotina, com preferência para filtros minerais — aponta.
Quantidade ideal: dois dedos ainda funcionam?

A maior falha no uso do protetor solar é simples: a maioria das pessoas aplica metade da quantidade necessária. Isso reduz drasticamente a proteção real, mesmo com FPS altos.
Para rosto e pescoço, o ideal é uma colher de chá. No corpo, cerca de 30ml. Alarcão lembra que um hábito simples pode ajudar.
— A regra dos dois dedos funciona bem, com duas linhas generosas nos dedos indicador e médio — explica.
Quando reaplicar?
Mesmo quem usa protetor diariamente esquece de reaplicar, e esse é o principal motivo de manchas que pioram ao longo do dia.
No sol direto, o intervalo seguro é de três horas. Em ambiente interno, quatro horas bastam para quem tem propensão a melasma.
— Reaplique a cada três horas se houver exposição direta ao sol. Dirigir com sol lateral sem reaplicar intensifica o melasma do lado exposto — define o dermatologista.
Regiões esquecidas
Mesmo quem usa protetor solar diariamente costuma esquecer áreas altamente expostas. Orelhas, pés, dorso das mãos, nuca e couro cabeludo em áreas de calvície são justamente onde surgem muitos carcinomas, especialmente em homens.
Por que usar todos os dias?

A radiação ultravioleta atravessa a cobertura do céu e alcança a pele mesmo em dias nublados — até 80% dos raios UVA e UVB consegue passar por essa barreira.
Por isso, especialistas reforçam que o filtro solar não é um item sazonal, mas parte do cuidado diário, como escovar os dentes.
Usar diariamente e reaplicar quando necessário reduz drasticamente riscos de:
- lesões pré-cancerígenas
- câncer de pele
- queimaduras solares
- manchas escuras
- envelhecimento precoce














