
Refrescante, versátil e cada vez mais presente na rotina dos brasileiros, o espumante deixou de ser uma bebida restrita a ocasiões formais para ocupar espaço no consumo cotidiano.
Ele aparece em almoços de verão, encontros informais, festas ao ar livre, celebrações familiares e também como base para drinks que se popularizaram nos últimos anos.
Com o crescimento do consumo e a ampliação da oferta, as prateleiras passaram a reunir uma variedade maior de espumantes, com rótulos que trazem termos técnicos nem sempre familiares ao consumidor iniciante.
Zero Hora consultou especialistas e preparou um guia completo com os principais conceitos sobre produção, classificação e estilo, fundamentais para alinhar paladar, ocasião de consumo e expectativa em relação ao produto.
ZH Indica: guia de compras
Como escolher o melhor espumante
O primeiro ponto, e talvez o mais importante, é compreender que a simples presença de borbulhas não é suficiente para definir um espumante.
A categoria envolve critérios técnicos e legais, que dizem respeito tanto à matéria-prima quanto ao processo de elaboração. Esse entendimento evita confusões comuns entre espumantes, frisantes e outras bebidas gaseificadas.
De forma geral, o espumante é um vinho elaborado exclusivamente a partir da uva e que passa por duas fermentações.
A primeira gera o vinho-base. A segunda é responsável pela formação do gás carbônico, que fica naturalmente dissolvido no líquido e se manifesta na taça na forma de borbulhas.

Essa fermentação adicional é o elemento central que diferencia o espumante de bebidas com gás adicionado artificialmente.
— É bem importante conhecer os diferentes produtos que existem no mercado. O espumante é um produto que tem como base a uva e que deve ser elaborado por duas fermentações, sendo que o gás carbônico presente na garrafa é fruto de uma fermentação natural — explica a presidente da Associação Brasileira de Sommeliers no Rio Grande do Sul (ABS-RS), Caroline Dani.
Além do método de elaboração, a legislação estabelece parâmetros objetivos para a classificação do produto. Um dos principais é a pressão interna da garrafa, medida em atmosferas (ATM), que indica a quantidade de gás carbônico dissolvido no líquido.
— Para ser classificado como espumante, o produto precisa ter mais de quatro atmosferas de pressão — detalha a especialista.
Na prática, quanto maior a pressão, mais intensa e persistente é a formação de borbulhas na taça. Espumantes apresentam um perlage mais fino e duradouro (termo usado para descrever o tamanho, a delicadeza e a persistência das bolhas no copo).
Frisante: o que muda em relação ao espumante?
Ao lado dos espumantes, o consumidor encontra com frequência os frisantes, que apresentam características distintas e cumprem outro papel no mercado.
O frisante é uma bebida à base de uva que possui gás, mas que não atende a todos os critérios exigidos para ser considerada espumante, seja pelo método de produção, seja pela pressão interna da garrafa.
Em muitos casos, o frisante recebe gás carbônico adicionado, o que torna o processo mais simples e rápido. Em outros, o gás é natural, mas em quantidade insuficiente para alcançar a classificação de espumante.
Essas diferenças fazem com que o frisante seja, em geral, mais leve, menos complexo e mais acessível.
— Nem todo frisante é carbonatado, mas todo produto que tem gás carbônico adicionado é um frisante. Conhecer essas diferenças é importante porque isso impacta diretamente no preço — explica Caroline.
Moscatel: por que ele é tão popular?

Entre os estilos mais conhecidos pelo público brasileiro está o espumante moscatel, que possui características próprias e costuma ser confundido com outras categorias.
Diferentemente dos espumantes tradicionais, ele é elaborado a partir de uvas da família Moscato, conhecidas pelo aroma intenso e pelo alto teor natural de açúcar.
O processo de produção também é diferente: passa por uma única fermentação, que é interrompida antes que todo o açúcar seja transformado em álcool. Isso explica tanto o perfil doce quanto o teor alcoólico mais baixo, além da sensação mais suave na boca.
— O moscatel é um produto doce, que tem o gás carbônico oriundo de uma única fermentação, partindo de um suco de uva Moscato — resume Caroline.
Essas características fazem do moscatel um espumante associado a sobremesas, celebrações e ao público que está começando a explorar o universo dos vinhos.
Método de produção
Depois de entender as categorias, o próximo passo para uma escolha mais consciente é observar o método de elaboração, que determina o estilo do espumante.
Basicamente, existem duas formas principais de realizar a segunda fermentação, e cada uma delas resulta em um perfil sensorial diferente.
No método tradicional (ou champenoise), a segunda fermentação acontece dentro da própria garrafa. Durante esse processo, o vinho permanece em contato com as leveduras, responsáveis por aromas mais complexos e textura mais cremosa.

Já no método tanque (ou Charmat), a fermentação ocorre em grandes recipientes de aço inox, priorizando frescor, fruta e leveza.
— Quanto mais tempo o espumante fica em contato com a levedura, mais complexo ele se torna, tanto em aroma quanto em sabor, com mais camadas — explica Caroline.
Para quem está iniciando, a recomendação é começar pelos estilos mais simples, que ajudam a identificar diferenças de forma gradual.
Doçura e acidez
Um dos fatores mais decisivos na escolha do espumante é o nível de açúcar residual, que aparece claramente no rótulo.
Essa informação indica se o espumante será mais seco ou mais doce e influencia diretamente a percepção de acidez e frescor.
A classificação vai de nature e extra brut, os mais secos, até demi-sec, doce e moscatel.
— O consumidor precisa aprender a ler o rótulo. Ali estão as informações sobre a quantidade de açúcar: nature, extra brut, brut, demi-sec e doce — explica Caroline.
Ela reforça que o açúcar tem um papel funcional no espumante:
— O açúcar, em partes, vem para minimizar a acidez. E a acidez no espumante é um fator decisivo, tanto do ponto de vista palatável quanto de conservação — diz.
Espumante e ocasião
Nem todo espumante se comporta da mesma forma quando servido sozinho ou acompanhado de comida.
Estilos muito secos, como extra brut e nature, tendem a pedir harmonização, enquanto outros funcionam bem como aperitivo.
— Espumantes extra brut e nature pedem acompanhamento. Mas quando penso em festa, sempre coloco um brut. Ele funciona melhor sozinho e agrada mais pessoas — resume Caroline.
Essa versatilidade explica por que o brut é o estilo mais consumido no mundo.
Espumante no verão: frescor, acidez e leveza

No calor, o espumante se destaca por reunir frescor, acidez elevada e efervescência, características que tornam a bebida leve e fácil de beber. Para esse contexto, a escolha deve priorizar estilos mais diretos, com perfil jovem e menor complexidade aromática, que refrescam sem cansar o paladar ao longo do consumo.
— Espumantes mais frescos, com mais acidez, como os bruts elaborados pelo método de fermentação em tanque ou o prosecco, vão melhor em dias quentes. São produtos que, muitas vezes, nem precisam de acompanhamento — explica Caroline.
Originário da Itália, o prosecco é produzido majoritariamente com a uva glera e elaborado pelo método Charmat, no qual a segunda fermentação ocorre em grandes tanques de aço inox.
Esse processo preserva aromas mais frutados e florais, como maçã verde, pera e notas cítricas, além de resultar em uma bebida mais leve, refrescante e acessível, características que explicam sua popularidade no consumo de verão e como base para drinks.
— Espumantes mais leves e frutados combinam com tábua de frios, petiscos de praia, pastel e batata frita. Já os mais elaborados e encorpados vão muito bem com churrasco, risoto e até bacalhau com batatas — orienta a especialista.

Espumantes para drinks: por que funcionam tão bem
A expansão do consumo de espumantes também está ligada à coquetelaria. Sua acidez, frescor e borbulhas criam uma base equilibrada para drinks leves e refrescantes.
— Para drinks, o ideal é usar brut, especialmente em bebidas mais leves. O grande "boom" do prosecco no mundo aconteceu por causa do Aperol Spritz, porque ele é leve, fresco, frutado e acessível — diz Caroline.
Preço e qualidade
O preço de um espumante reflete uma combinação de fatores técnicos, agrícolas e logísticos. Matéria-prima, método de produção, tempo de elaboração e permanência na vinícola influenciam diretamente no custo final.
— O preço normalmente está muito pautado na matéria-prima e no tempo de elaboração. Quanto mais tempo o espumante fica na vinícola, mais caro ele se torna. Tempo é dinheiro. Mas isso não significa que o sabor vá agradar todo mundo — pondera.
Protagonismo do espumante gaúcho

O Rio Grande do Sul reúne condições naturais e tecnológicas ideais para a produção de espumantes. O clima favorece a manutenção da acidez da uva, elemento central para frescor, longevidade e equilíbrio.
— Temos um terroir (conjunto de fatores naturais e práticas de cultivo) que oferece uma das condições mais importantes para a elaboração de espumantes: a acidez da uva. Colhemos uvas que mantêm uma acidez essencial para esse tipo de vinho — destaca Caroline.
Ela reforça o momento positivo do setor:
— Hoje temos tecnologia de ponta, reconhecimento internacional e um consenso nacional sobre a qualidade do nosso espumante. Os frisantes são uma porta de entrada importante, inclusive os vendidos em lata, e depois o consumidor migra para o espumante. É um movimento de crescimento no Rio Grande do Sul, no Brasil e no mundo.














