
Evitar sair de casa com medo de trair (ou ser traído), manter vigilância constante nas redes sociais do parceiro e uma busca incessante por evidências de que algo está errado: esta é a realidade de pessoas que convivem com TOC de Relacionamento (TOCR).
Pacientes com este distúrbio são afetados constantemente por pensamentos intrusivos que surgem sem motivo algum. É o que acontece com a escritora Adríssia Di Paula, 34 anos, diagnosticada há cerca de um ano com TOCR.
— Eu tinha certeza de que tinha sido traída, mas não tinha provas, não tinha nada acontecendo. Tinha certeza de que seria traída a qualquer momento, ou que já estava sendo, e eu ficava naquela obsessão de procurar por respostas, evidências, procurar indícios de que isso estava acontecendo — afirma a escritora.
O Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) é conhecido como transtorno da dúvida, e é o resultado da combinação entre pensamentos obsessivos e comportamentos compulsivos. No TOC de Relacionamento, as dúvidas são direcionadas à relação.
Os questionamentos são tanto sobre os próprios sentimentos em relação ao outro, quanto ao contrário, e por isso, precisam se reassegurar o tempo todo. Além disso, há um medo constante de trair ou ser traído, a ponto de, muitas vezes, evitar sair de casa.
— Aquilo me consumia de uma forma que eu não conseguia sair de casa, quando eu saia eu achava que alguma coisa errada ia acontecer, tanto com ele quanto comigo. Eu achava que ou ele ia me trair ou eu ia trair ele. Imagens gráficas daquilo acontecendo passavam na minha cabeça — relata.
A realidade, no entanto, era completamente diferente:
— Nada aconteceu, mas a sensação é de que eu já estava lidando com aquilo. Como se eu realmente tivesse traído ou fosse traída. Só que isso não aconteceu, então eu tinha que lidar com problemas que não existiam, e era muito frustrante.
Não há justificativa para o sentimento
De acordo com a psicóloga Tainara Alves, pacientes com TOCR conseguem compreender que não há uma justificativa para tais questionamentos, mas não conseguem controlar a enxurrada de pensamentos.
— São pensamentos intrusivos, aqueles pensamentos chatos que a pessoa não tem controle. Quando vê, está pensando naquilo, ouvindo, até vendo aquela imagem de novo em relação ao relacionamento. Muitas vezes, a pessoa consegue compreender que não há uma justificativa para tais questionamentos, mas não consegue controlar — explica Tainara
Além disso, a especialista explica que pessoas com TOCR ficam alertas a qualquer mudança comportamental, interpretando tudo como um sinal, e estendendo os questionamentos da sua cabeça ao parceiro. Era o que acontecia com Adríssia:
— Era muito irritante para o meu parceiro, imagina, a pessoa não está fazendo nada, mas na minha cabeça ela está e eu fico obcecada com isso. Toda hora eu queria saber de alguma coisa. Eu "o stalkeava", queria saber por que seguiu, por que clicou em determinada coisa, sabe. Buscava significado em cada respiração do parceiro. Qualquer coisa que o parceiro fizesse, eu ficava desesperada e eu queria saber o que que aquilo significava.
Segundo a psicóloga Tainara Alves, a origem do TOC é genética, mas o transtorno pode ser desencadeado por outros fatores, como situações de violências e abusos, por exemplo.
— Se a pessoa tem uma propensão a desenvolver o TOC, mas não é exposta a situações que possam acordar dentro dela, não vai aparecer o sintoma, vai ficar lá guardadinho. Então o ambiente pode sim propiciar um maior acesso a este transtorno.
A condição, porém, tem tratamento. É preciso ficar atento aos sintomas e procurar ajuda, que pode ser via terapia, em casos leves a moderados, ou em situações mais complexas, uma avaliação psiquiátrica.
Com a Adríssia, o tratamento multidisciplinar tem se mostrado eficaz. Segundo ela, os questionamentos voltados ao relacionamento diminuíram consideravelmente e hoje já é possível ter controle sobre eles.
— Eu tenho aprendido várias técnicas nesse ano de tratamento e tem ajudado muito. Meu relacionamento hoje é muito melhor, eu não tenho tantas essas questões "ah, ele vai me trair". Foi uma revolução de um ano pra cá. Não tem constantemente aquela obsessão, mas quando tem eu consigo lidar melhor, me acalmar, conversar com ele e explicar o que se passou na minha cabeça — conta.
