Gaúchos passaram as últimas semanas empilhando erva-mate muito acima da borda da cuia para ver quem monta o maior "chimarrão topetudo".
A brincadeira surgiu de um concurso lançado em Chapecó, no oeste catarinense, no fim de julho, e ganhou o Rio Grande do Sul pelas mãos de João Oscar Nascimento, morador de Bom Retiro do Sul, no Vale do Taquari. O vídeo dele já passa de 1,4 milhão de visualizações no Instagram.
O mate topetudo é preparado com um volume exagerado de erva, acima da boca da cuia, modelado em um topo alto que lembra um topete.
A ideia não é estranha ao ritual: na montagem tradicional, a erva ocupa cerca de dois terços do recipiente e é inclinada para um dos lados, abrindo o vão por onde entra a água e onde a bomba é encaixada. O desafio das redes mantém a lógica e leva a altura ao absurdo.
Conhecido nas redes como Bruto do Sul, Nascimento vinha acompanhando publicações de outras pessoas com topetes maiores do que o comum quando decidiu exagerar na dose. No vídeo, ele encosta a ponta de uma trena na cuia e puxa a fita até o alto da montanha de erva, que marca 1m1cm.
— Eu vi o pessoal montando uns topetes um pouco maiores do que o normal e pensei em levar ao extremo. Era para dar uma brincada, uma zoada. Onde já se viu um topete bagual daquele jeito? — conta.
Brincadeira começou dentro de casa, com a família
A montagem não foi um projeto solitário nem planejado. A cena que culminou no vídeo começou quando a esposa dele chegou em casa e o encontrou mexendo na erva, sem entender o que estava em curso. O preparo virou uma brincadeira coletiva, e a cuia acabou passando de mão em mão depois da gravação.
— As crianças ajudaram, demos risada na hora de montar. Depois ficamos passando a cuia e brincando um com o outro. Foi um momento de pura diversão — relembra.
A repercussão começou enquanto Nascimento estava longe do celular. No sábado seguinte à publicação, ele saiu para gravar outro conteúdo e deixou o telefone com a filha. Quando conseguia conferir as notificações, o número de curtidas e comentários não parava de crescer.
— De vez em quando eu olhava e era 10 mil curtidas, 10 mil comentários. Quando cheguei em casa, à noite, 23 horas depois de postar, já tinha batido 1 milhão de visualizações — descreve.
O segredo é molhar a erva antes
A pergunta que apareceu nos comentários tem uma resposta simples e explica por que a maioria das tentativas caseiras desaba antes da primeira água.
Para construir o "mate topetudo", ele conta que umedeceu a erva e modelou a estrutura com as mãos diretamente sobre a cuia, e só depois cobriu o conjunto com erva fina e seca, o que deu o acabamento e a firmeza aparente.
Mesmo assim, a estrutura tem prazo de validade curto. Segundo ele, a torre se sustenta por poucos minutos, e qualquer esbarrão põe tudo abaixo.
— Só com erva seca não tem como, ela desmancha. Fica em pé uns cinco minutos e basta esbarrar para cair. Acima de um metro começa a desabar, então tem que ter todo um cuidado — pondera.
Mate com seis metros de altura?
A publicação puxou uma fila de imitadores pelo Estado. Em Passo Fundo, Francine Dal Castel Ferreira, conhecida nas redes como Fran, montou um topete de 1m56cm que também viralizou e procurou Nascimento depois para agradecer.
— A parte que mais me deixa feliz é que serviu de inspiração. A Fran montou o dela, viralizou também e me mandou mensagem agradecendo — comenta.
O teto da disputa foi elevado — e muito — por Taillefer Lacowictz, que publicou o preparo de um impressionante topete de cerca de seis metros de altura. A dimensão da estrutura chamou atenção nas redes, e o vídeo já soma mais de 500 mil visualizações.
Da brincadeira caseira, Nascimento passou a defender uma versão organizada da disputa, com regras, público e, quem sabe, até uma competição oficial.
— Seria legal ter uma competição de verdade, em um evento como a Expointer, para ver quem monta o topete mais alto ou em menos tempo. É uma tradição do nosso Estado, do nosso povo. Seria mais uma atração — sugere.
Nascimento posta vídeos há bastante tempo e nunca tinha visto nada repercutir daquela forma. Para ele, o momento ajuda a explicar parte do fenômeno.
— O Rio Grande do Sul vem sofrendo faz tempo, com seca, enchente e agora essas tempestades. Essa trend do chimarrão serviu para dar uma descontraída, para trazer um pouco de diversão. Hoje o cara abre o Instagram e só aparece chimarrão — avalia.
A leitura vale também para o próprio canal. Entre vídeos de trabalho, pescaria e paisagens de estrada, foi a brincadeira com a cuia que rendeu o maior alcance dele nas redes.
— Faz tempo que eu posto vídeos e nada tinha repercutido desse jeito. O pessoal gosta mais do conteúdo divertido, descontraído. Cada conteúdo tem o seu público — observa.
Bebida-símbolo do Rio Grande do Sul

A brincadeira mexe com um dos símbolos mais fortes da identidade gaúcha. O chimarrão é bebida-símbolo do Rio Grande do Sul por força da Lei 11.929, de 2003, a mesma que instituiu o churrasco como prato típico e criou o Dia do Chimarrão, celebrado em 24 de abril.
A erva-mate é árvore-símbolo do Estado desde 1980, pela Lei 7.439, e o ramo aparece na bandeira gaúcha, adotada oficialmente pela Constituição de 1891.
O hábito é bem mais antigo que a legislação. A erva-mate era consumida pelos guaranis muito antes da chegada dos europeus, quando era chamada de caá, e teve o cultivo sistematizado nas reduções jesuíticas da região das Missões, de onde se espalhou pelo território que hoje corresponde a Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.
Em 2023, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae) reconheceu a erva-mate como patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Sul, incluindo as formas de cultivo e de comercialização.
