Uma gíria de internet está tirando crianças e adolescentes de casa. Os campeonatos de "farmar aura", disputas em que vence quem demonstrar mais carisma, criatividade e presença de palco, se espalharam por praças e parques públicos do Brasil nas últimas semanas.
Em Suzano, na Grande São Paulo, uma edição realizada em julho reuniu mais de 200 competidores.
Sem bola, tabuleiro ou cronômetro, os participantes fazem apresentações rápidas com poses, danças, caretas ou gestos inspirados em memes, animes e videogames.
Quem conquista mais aplausos avança de fase. Os prêmios costumam ser simbólicos, e a organização geralmente parte de adolescentes ou criadores de conteúdo locais.
O que significa farmar aura?
A expressão reúne dois vocabulários. O verbo "farmar" comum nos jogos eletrônicos como Minecraft, Fortnite e World of Warcraft, significa repetir tarefas para acumular recursos, pontos ou experiências.
Já "aura", na linguagem das redes sociais, virou sinônimo de magnetismo pessoal: a combinação de carisma, estilo e presença que faz alguém parecer mais interessante.
Farmar aura, portanto, é acumular pontos de estilo. Fazer algo que pareça espontaneamente descolado, mesmo que exista esforço por trás. A contradição faz parte da piada.
O termo começou a circular em 2024 e ganhou força no ano seguine, com um vídeo do indonésio Rayyan Arkan Dikha, então com 11 anos, filmado de óculos escuros dançando na proa de um barco durante uma corrida tradicional no país. A cena viralizou e passou a ser usada como exemplo de alguém "farmando aura".
Muitas apresentações incluem o gesto conhecido como "six-seven", outro meme associado ao universo de "farmar aura", incorporado pelos participantes como uma espécie de nota máxima informal.
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Como saber que alguém "farmou aura"?
Os jurados avaliam criatividade, presença de palco, interação com o público e a quantidade de "aura" demonstrada por cada competidor. As notas costumam ir de 1 a 10, mas apresentações consideradas excepcionais recebem a nota máxima da brincadeira: o "six".
Em muitas edições, porém, não há jurados. O vencedor é definido pelo volume dos gritos da plateia, em disputas mata-mata de poucos segundos até restar apenas um competidor.
Da tela para a praça
A dinâmica inverte a lógica das redes sociais. O carisma que os aplicativos ensinaram a performar diante da câmera do celular passou a ser demonstrado ao vivo, sem edição nem filtros.
A circulação nas redes faz a brincadeira saltar de cidade em cidade, mas o evento acontece fora da tela. O resultado é uma cena rara na última década: dezenas de crianças e adolescentes ocupando parques e praças nos fins de semana, muitas vezes acompanhados por pais e irmãos.
Por que a brincadeira faz sentido para as crianças
As crianças de hoje incorporam expressões, memes e tendências da internet às interações presenciais, transformando referências do ambiente digital em formas de brincar, experimentar papéis e fortalecer o sentimento de pertencimento ao grupo.
— As brincadeiras refletem o contexto cultural da infância. Isso faz parte do desenvolvimento infantil, que utiliza o brincar para compreender e elaborar a realidade em que está inserido — afirma a psicóloga Denise Milk.
A vontade de conquistar reconhecimento entre os colegas, porém, não é novidade para a geração alfa (nome dado para quem nasceu a partir de 2010). Buscar aprovação faz parte do desenvolvimento e ajuda na construção de identidade e do sentimento de pertencimento.
— A necessidade de reconhecimento faz parte do desenvolvimento humano e sempre esteve presente na infância e na adolescência, pois contribui para a construção da identidade e do sentimento de pertencimento ao grupo — explica Denise.
O que mudou, segundo ela, foram as referências culturais. Hoje, essa busca é influenciada pela linguagem das redes sociais, em que visibilidade e popularidade ganham destaque.
Antes da aura, outras modas já viralizavam
Como outras modas juvenis, o "farmar aura" também tem antecessores. O free step, dança de música eletrônica popularizada no Brasil no fim dos anos 2000, e o Harlem Shake, meme que dominou a internet em 2013 com vídeos coletivos de poucos segundos, seguem uma lógica parecida: jovens reproduzindo movimentos, criando versões próprias e buscando reconhecimento do grupo.
O campeonato de farmar aura atualiza essa dinâmica para a linguagem dos memes. A diferença é que, em vez de apenas render vídeos, a brincadeira ganhou regras, plateia e disputas presenciais.
Denise avalia que brincadeiras presenciais favorecem habilidades essenciais para o desenvolvimento infantil, como comunicação, cooperação, empatia, resolução de conflitos e construção de vínculos. A origem digital da brincadeira, nesse cálculo, importa menos do que o fato de ela acontecer em uma praça, com gente em volta.
— O contato direto continua sendo muito mais rico para o desenvolvimento — diz a psicóloga.
Há ainda uma diferença concreta entre o aplauso da praça e a curtida do aplicativo. Uma plateia responde com rosto, voz e corpo, em tempo real, e a reação não pode ser desfeita nem editada depois:
— O reconhecimento presencial envolve contato humano, linguagem corporal, expressões e interação afetiva, proporcionando uma experiência emocional muito mais completa.
Por que os adultos estranham
Nem todo mundo achou graça. O anúncio do campeonato rendeu críticas de adultos nas redes sociais, com comentários que iam do deboche à sugestão de que os participantes procurassem atendimento psiquiátrico.
Denise não vê apenas incompreensão. A criança vive a experiência de maneira espontânea, sem enxergar nada além do jogo. O adulto que assiste de fora identifica influências mais amplas da cultura e do ambiente digital e reage ao que enxerga.
— É natural que adultos e crianças percebam uma mesma brincadeira de formas diferentes — pondera a psicóloga.
