
Existe regra para namorar? Alguns anos atrás, os limites eram claros: namoro só aos sábados, domingos e quartas-feiras, ligações com hora marcada e encontros sob a vigilância de muitos olhares, além de uma série de outras convenções que orientavam a vida amorosa dos casais, especialmente os mais jovens.
Com o passar do tempo, muitas dessas normas se tornaram obsoletas, mas isso não significa que as relações ficaram livres de padrões. Hoje em dia, uma nova tendência se popularizou nas redes sociais e influencia a forma como novos relacionamentos surgem: a regra dos três meses.
A dinâmica costuma integrar o método ou regra 3-3-3 (três encontros, três semanas e três meses) que prevê que a cada três encontros, três semanas e três meses, o casal deve avaliar se vale a pena continuar se relacionando. O padrão, no entanto, não possui um embasamento científico que o justifique, segundo especialistas.
💔Amor em crise
Existem diferentes níveis de definições para explicar a regra dos três meses, desde as mais complexas até as mais simplificadas. O conceito foi exemplificado pela influenciadora Paulinha Saric, em vídeo publicado no Instagram:
— Se você tem um namorado que não é o seu namorado, ele tem três meses para fazer você virar namorada dele. Um mês para te chamar para um date, dois meses para vocês se tornarem exclusivos, três meses para te pedir em namoro.
Essa "regra" parte da ideia de estabelecer um marco temporal para medir o avanço de um relacionamento. A proposta é transformar o processo em algo mais previsível, definindo um prazo para avaliar o interesse mútuo entre o casal e a possibilidade de assumir um compromisso mais sério.
Para a psicóloga clínica Viviane Mendonça, especialista em Terapia Cognitiva Comportamental com foco em questões associadas a relacionamentos afetivos, a regra dos três meses é uma resposta ao atual cenário das relações, marcado por inseguranças, dificuldades para estabelecer vínculos e baixa tolerância.
— Mesmo entre quem não conhece a regra, as pessoas estão com baixo nível de tolerância quando elas começam a conhecer alguém. Aparece alguma coisa ali, um problema, algum conflito, e aquilo já é um ponto-chave pra já desistir, cortar a relação — explica Viviane.
"Protocolização dos relacionamentos"
Esse cenário levou a chamada "protocolização dos relacionamentos", segundo a também psicóloga Jaqueline Soccol, especialista em terapia de casal e de família. Para a profissional, a crescente dificuldade das pessoas em se "lançarem" em novos relacionamentos tem feito com que elas busquem seguir padrões para se sentirem seguras em meio a um território cheio de incertezas.
A questão é que, muitas vezes esses padrões acabam falhando, pois "a mesma regra que pode trazer uma certa segurança para as pessoas pode também se tornar um conceito muito rígido", complementa Viviane Mendonça.
— Tudo que traz uma rigidez para o processo de você estar se relacionando, estar conhecendo uma pessoa, pode ser problemático. Não existe um tempo — explica.
Na avaliação de Jaqueline, o risco é de que essas fórmulas levem as pessoas a terem conclusões precipitadas sobre o relacionamento ou sobre o interesse do outro.
— Existe o risco de as pessoas se precipitarem ao tomar decisões, porque às vezes o relacionamento ainda não amadureceu para isso. Também pode haver interpretações equivocadas. Se alguém não pediu em namoro até determinado período, isso não significa necessariamente que não esteja interessado. Isso pode significar muitas coisas — diz.
💘De casal para casal

Ambas as especialistas concordam que a aplicação da regra dos três meses pode ser possível, mas depende de casal para casal e de como a relação em questão é construída.
A história da social media Franciele Bastos, 22 anos (conhecida como Fran), e do desenvolvedor de software Gabriehl Clezar (Gabe), 28, ilustra bem essa ideia. Sem conhecer a regra dos três meses, os dois acabaram seguindo o cronograma por coincidência.
O casal se conheceu no dia 2 maio e exatamente três meses depois, no dia 2 de agosto, veio o pedido de namoro.
— (A gente se conheceu) numa festa. Ele estava dançando perto do nosso grupo de amigos e eu olhei. Aí uma hora eu fui andar sozinha, minhas amigas estavam já querendo ir embora, e eu querendo dançar. Quando eu voltei pra pista, ele estava dançando. E aí a gente se trombou e nunca mais se desgrudou — lembra Fran.
Apesar da conexão, o namoro não era um plano tão consolidado para Franciele. A solução para que o casal entrasse em sintonia foi o diálogo, segundo Gabriel:
— Desde quando a gente se conheceu, a Fran hesitava bastante em começar um relacionamento. Inicialmente, ela falava em um ano depois de se conhecer (para namorar). E claro que eu sabia que era muito tempo. Então, a gente conversou.
O caso de Fran e Gabe mostra justamente porque a regra dos três meses, e a definição geral de prazos em um relacionamento, ainda deve ser abordada com cautela.
— Essas regras gerais, elas não servem para todos os casos, elas não se aplicam em todas as circunstâncias. Depende de cada história de cada pessoa, de cada casal — reforça Jaqueline Soccol.
💞O momento certo
Mas como saber se ambos querem e quando é o momento certo de oficializar uma relação, seguindo ou não a regra dos três meses? As psicólogas Jaqueline Soccol e Viviane Mendonça citam uma série de dicas para os casais que buscam responder a dúvida. Entre elas, estão:
- Compartilhar vulnerabilidades e aspectos pessoais ao longo das conversas
- Avaliar se o interesse é recíproco e consistente entre as duas pessoas
- Observar como o parceiro ou parceira se relaciona com familiares, amigos e outras pessoas do convívio
- Entender se os hábitos, valores e estilo de vida são compatíveis com os seus
- Verificar se os projetos e expectativas para o futuro estão alinhados
- Identificar afinidades nas visões de mundo e a presença de respeito mútuo na relação
Ainda assim, Viviane Mendonça avisa que é normal "descartar a continuidade de um relacionamento" caso o casal perceba que não é compatível em longo prazo. O problema está em interromper o processo com base em uma norma imposta por opiniões alheias, segundo a especialista.
— Aquilo que as pessoas estão dizendo sobre o que deve ser um relacionamento, ou o que a pessoa deve fazer dentro de três meses... com base nesse olhar externo, você toma a sua decisão para um relacionamento que é seu e que é único? — questiona a psicóloga.
Para as especialistas, mais importante do que seguir cronogramas ou fórmulas prontas é construir relações a partir do diálogo, da compatibilidade e das expectativas reais de cada pessoa. No lugar de buscar respostas universais, o desafio está em compreender o que faz sentido para aquele relacionamento, segundo Jaqueline:
— É protocolizando menos e vivendo as coisas mais na sua realidade, com conversas mais sinceras para as pessoas poderem ser honestas. Hoje em dia a gente encontra pessoas dispostas a qualquer tipo de relação.
*Com supervisão da editora Estfany Soares
