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Por que o surto de ebola impediu o torcedor mais famoso do Congo de ir à Copa do Mundo

Michel Kuka Mboladinga virou símbolo nacional ao acompanhar partidas imóvel, com o braço erguido em homenagem a Patrice Lumumba, símbolo da independência do país africano

Leonardo Martins

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AFP

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Gabriel Bouys/AFP
Michel Kuka Mboladinga durante partida entre RD Congo e Argélia na Copa Africana de Nações, em 2025.

O torcedor mais famoso da República Democrática do Congo ficou fora da estreia do país na Copa do Mundo. Michel Kuka Mboladinga, de 49 anos — que acompanha os jogos imóvel, em pé e com o braço direito erguido —, não chegou aos Estados Unidos a tempo de cumprir os protocolos sanitários contra o vírus ebola. Ele então não viu de perto a partida contra Portugal, nesta quarta-feira (17), em Houston.

A ausência tem relação direta com a epidemia de ebola que atinge o Congo. Diante do risco de contágio, autoridades americanas impuseram restrições à entrada de congoleses no país. 

Mesmo torcedores que já haviam comprado ingressos foram impedidos de viajar para acompanhar os jogos, segundo a AFP.

No caso da seleção e da comissão técnica, a exigência foi mais rígida: um isolamento de 21 dias em uma "bolha sanitária" na Bélgica antes do torneio.

A possibilidade de jogar diante de arquibancadas vazias preocupou o elenco, que pressionou para incluir o torcedor na delegação oficial do país. A delegação dos Leopardos, como é conhecida a equipe, desembarcou em Houston no dia 11, mas Mboladinga se juntou ao grupo tarde demais para cumprir o protocolo de prevenção.

A expectativa, segundo o portal congolês Actualité, é que ele consiga se juntar à equipe a tempo do próximo compromisso da seleção, contra a Colômbia, na terça-feira (23), em Guadalajara, no México.

Uma homenagem que exige treino

Mboladinga ganhou projeção mundial na Copa Africana de Nações (CAN) de 2025, disputada no Marrocos. Vestido com as cores da bandeira congolesa, ele passava os 90 minutos de cada partida imóvel, reproduzindo a postura da estátua erguida em Kinshasa, capital do país, em homenagem a Patrice Lumumba, símbolo da independência da República Democrática do Congo.

A imagem viralizou e o transformou em um dos rostos da torcida congolesa.

Para sustentar a pose ao longo de uma partida inteira, ele treina diariamente. Segundo relatou ao jornal norte-americano The Wall Street Journal, são até 40 minutos por dia mantendo o braço erguido.

— Permaneço imóvel porque acredito que isso dá à equipe resistência emocional. Assim como Lumumba sacrificou a vida pelo país, a minha é um preço pequeno a pagar pela preocupação que tenho com esta seleção — explicou Mboladinga em entrevista.

O reconhecimento veio acompanhado do apoio da seleção, que defendeu abertamente a presença dele no Mundial.

— Os jogadores o adoram. Ele é um símbolo nacional de resiliência e orgulho — afirmou Véron Mosengo-Omba, presidente da Federação Congolesa de Futebol, também ao The Wall Street Journal.

A fama rendeu contratos. Animador do AS Vita, clube da primeira divisão congolesa, Mboladinga passou a fechar publicidade com marcas como a chinesa Tecno Mobile, de celulares, e a francesa Orange, de telecomunicações.

Quem foi Patrice Lumumba

Divulgação/Institute of the Black World 21st Century
Lumumba foi executado em 17 de janeiro de 1961 e se tornou mártir.

A figura homenageada por Mboladinga é o maior símbolo da independência da República Democrática do Congo. Patrice Emery Lumumba (1925-1961) liderou o movimento que tirou o país do domínio da Bélgica em 1960 e se tornou referência da luta anticolonial em toda a África.

Antes disso, o território viveu um dos períodos coloniais mais violentos da história moderna. Sob controle inicial do rei Leopoldo II, o chamado Estado Livre do Congo foi marcado por trabalho forçado, mutilações e massacres ligados à exploração de recursos naturais. Historiadores estimam que até 10 milhões de congoleses morreram entre o fim do século 19 e o início do século 20.

Foi nesse cenário que Lumumba fundou o Movimento Nacional Congolês (MNC) e se tornou a principal voz da independência. Em junho de 1960, assumiu como primeiro-ministro, aos 35 anos. O governo durou poucos meses.

Em plena Guerra Fria, ele passou a ser visto com desconfiança por potências ocidentais, sob a suspeita de aproximação com a União Soviética. Foi deposto em um golpe liderado pelo coronel Joseph Mobutu, que governaria o país como ditador por mais de três décadas. Preso por adversários, Lumumba foi executado em 17 de janeiro de 1961.

Investigações feitas décadas depois apontaram o envolvimento de autoridades belgas e da CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos, na conspiração que levou à sua morte. O corpo nunca foi encontrado: foi dissolvido em ácido para evitar que o túmulo se tornasse um ponto de peregrinação política.

Restou apenas uma coroa dentária de ouro, devolvida à família somente em 2022, mais de 60 anos depois. O assassinato o transformou em mártir da independência congolesa.

O que se sabe sobre o surto de ebola

O retorno da RD Congo ao mundial coincide com uma epidemia de ebola no leste do país, na África Central. Até 10 de junho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) contabilizava 676 casos confirmados, com a província de Ituri concentrando 93% deles. 

No vizinho Uganda, eram 19 casos confirmados e duas mortes até 11 de junho. Em maio, a OMS classificou o surto como emergência de saúde pública de importância internacional.

Como ocorre a transmissão do vírus

A transmissão ocorre pelo contato com sangue, tecidos ou fluidos corporais de pessoas infectadas, vivas ou mortas, e por objetos contaminados, como roupas.

Uma pessoa só transmite o vírus quando já apresenta sintomas, e a doença não se espalha pelo ar. Por isso, o risco de uma pandemia é considerado baixo, ao contrário do que ocorre com vírus respiratórios, como os da covid-19 e da influenza.

Os primeiros sinais surgem de dois a 21 dias após a infecção. Entre os sintomas iniciais estão febre, fadiga, mal-estar, dores musculares, dor de cabeça e dor de garganta, segundo a OMS.

A letalidade do ebola varia bastante conforme a cepa, entre 25% e 90% dos infectados. O surto atual é provocado pela variante Bundibugyo, para a qual não existe vacina nem tratamento específico aprovados.

Sem imunizante para o tipo em circulação, o cuidado médico se limita ao alívio dos sintomas.

Estreia na Copa

ALEX SLITZ/GETTY IMAGES NORTH AMERICA VIA AFP
Seleção congolesa empatou em 1 a 1 com Portugal.

Mesmo sem seu torcedor mais famoso nas arquibancadas, a RD Congo fez bonito na volta a uma Copa do Mundo depois de 52 anos.

A seleção empatou em 1 a 1 com Portugal, no NRG Stadium, em Houston, e somou o primeiro ponto no Grupo K, que tem ainda Colômbia e Uzbequistão como adversários.

Os gols foram de João Neves, para os portugueses, e Yoane Wissa, para os congoleses.

A única participação anterior do país no Mundial havia sido em 1974, quando competia sob o nome de Zaire.

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