
Se você já ouviu um adolescente dizer que alguém "jantou" alguém em uma discussão, que a amiga está delulu ou que determinado comportamento é uma red flag e ficou sem entender o significado, saiba que não está sozinho.
As gírias da geração Z se espalham pelas redes sociais em velocidade recorde, atravessam salas de aula, grupos de amigos e conversas de família e, muitas vezes, desaparecem tão rápido quanto surgem.
Grande parte dessas expressões surge em plataformas como TikTok, Instagram e YouTube, geralmente em inglês, e depois ganha adaptações, traduções e novos significados entre os jovens brasileiros.
Para ajudar a decifrar esse vocabulário em constante transformação, Zero Hora reuniu os principais termos – como "gag", "farmar aura" e "delulu", usados atualmente pela geração Z e pela geração Alfa, explicando seus significados, origens e contextos de uso (acesse aqui).
Antes de mergulhar no glossário, porém, vale entender de onde vem o próprio nome da geração Z e como surgiu essa classificação.
O que é geração Z (e por que o nome vem dos Estados Unidos)

A geração Z reúne, segundo a divisão mais utilizada, quem nasceu entre 1997 e 2012. São jovens que cresceram com internet rápida, smartphone nas mãos desde cedo e redes sociais como ambiente natural de socialização.
Não conheceram um mundo sem Google, o que ajuda a explicar por que boa parte de sua linguagem brota de plataformas digitais.
O sistema de nomes por letras é uma herança da demografia e do marketing dos Estados Unidos. Depois dos baby boomers (1946 a 1964), veio a geração X, expressão popularizada pelo escritor canadense Douglas Coupland em um romance publicado em 1991.
Como X, Y e Z são letras em sequência, a geração seguinte virou Y (os millennials, nascidos entre 1981 e 1996) e a outra, naturalmente, Z.
Esgotado o alfabeto latino, os pesquisadores recorreram ao grego: a geração Alfa, termo cunhado pelo demógrafo australiano Mark McCrindle em 2008, abrange quem nasceu a partir de 2010.
Essas faixas etárias foram definidas com base na história americana e não correspondem com exatidão à realidade brasileira, marcada por outros marcos sociais e políticos.
Ainda assim, tornaram-se uma referência prática para falar de comportamento, consumo e linguagem.
Um detalhe importante antes de seguir: parte das expressões abaixo já pertence à geração Alfa, mais jovem, e não à geração Z. O caso mais claro é o six-seven, fenômeno típico entre crianças e pré-adolescentes.
Na prática da internet, a fronteira entre as duas gerações é tênue, e as gírias atravessam essa divisão o tempo todo.
Por que tantas gírias vêm do inglês e do TikTok

A explicação é estrutural. TikTok, Instagram e YouTube têm alcance global, mas grande parte do conteúdo viral nasce nos Estados Unidos e se espalha em inglês.
Uma trend criada em uma escola americana pode chegar a Porto Alegre no mesmo dia, ainda sem tradução.
Os jovens brasileiros incorporam o termo original, às vezes adaptam a grafia ou a pronúncia, e o resultado é um vocabulário híbrido, em que palavras em inglês convivem com gírias locais como "jantou" e "serviu".
Há ainda uma camada mais recente, ligada ao que se convencionou chamar de brain rot. O termo, eleito palavra do ano de 2024 pelo Dicionário Oxford, descreve tanto o conteúdo de baixa qualidade consumido em rolagem infinita quanto o efeito de embotamento mental atribuído a ele.
Boa parte das expressões da geração Alfa nasce justamente desse ambiente de humor absurdo e sem sentido aparente, em que a graça está exatamente em não significar nada.
A seguir, o glossário em ordem alfabética:
Aesthetic
A palavra inglesa para "estética" virou sinônimo de uma identidade visual coerente e bem definida, geralmente aplicada a ambientes, roupas ou perfis na internet. Ter uma aesthetic é ter um estilo reconhecível, com paleta de cores, referências e clima próprios.
O conceito está na origem das microtendências batizadas com o sufixo "-core" (veja adiante).
Como em: "O quarto dela tem um aesthetic bem minimalista."
Aura farming (farmar aura)
Expressão usada para descrever alguém que faz algo para parecer espontaneamente carismático e descolado. A palavra "aura" funciona como sinônimo de magnetismo pessoal. O verbo "farmar", vindo dos videogames, significa acumular algo repetidamente. Na gíria, o que se acumula é carisma.
O termo se popularizou em 2024 e explodiu em 2025 com um vídeo do indonésio Rayyan Arkan Dikha, então com 11 anos, dançando de óculos escuros na proa de um barco durante uma corrida tradicional no país.
A imagem virou o exemplo definitivo de alguém "farmando aura".
Como em: "Ele entrou na sala em silêncio, de óculos escuros, só farmando aura."
Baddie
Pessoa muito estilosa, atraente e segura de si. O termo nasce do vocabulário do hip-hop e da cultura negra americana, em que bad passou a significar o oposto do sentido literal, algo como "impecável" ou "impressionante".
Ganhou força com a cultura de beleza do Instagram, associada à maquiagem marcante, ao corpo trabalhado e à atitude confiante.
Como em: "Ela chegou toda produzida, maior baddie."
Bed rot
Tradução literal: "apodrecer na cama". Descreve passar horas, ou até um dia inteiro, deitado, sem energia nem produtividade, geralmente diante de telas. Surgiu no TikTok dentro da conversa sobre descanso e esgotamento, ora tratado como autocuidado após uma rotina pesada, ora como sinal de exaustão.
Como em: "Depois da semana puxada, ele ficou no bed rot o domingo inteiro."
Brain rot
Eleita a palavra do ano de 2024 pelo Dicionário Oxford, designa o conteúdo digital raso e viciante consumido sem parar e o suposto efeito de entorpecimento que ele provoca.
O uso não é apenas pejorativo: muitos jovens chamam de brain rot, com bom humor, o próprio tipo de humor absurdo que produzem e consomem nas redes.
Como em: "Passei a tarde vendo vídeo sem sentido, puro brain rot."
Clean girl
Estilo de beleza minimalista e sofisticado, marcado por pele iluminada, cabelo preso e maquiagem leve. Virou febre no TikTok por volta de 2022.
O visual também recebeu críticas por ser apresentado como novidade, embora elementos como o coque puxado e os brincos de argola sejam usados há décadas por mulheres negras e latinas.
Como em: "Ela adotou o visual clean girl, com maquiagem leve."
Core (sufixo "-core")
Acrescentado ao fim de uma palavra, o sufixo "-core" (de hardcore) batiza estéticas e microtendências específicas.
Daí vêm termos como cottagecore (vida bucólica e romantizada no campo), cleancore (limpeza e organização) e dezenas de outros. É a forma de etiquetar e agrupar visuais dentro da lógica da aesthetic.
Como em: "O feed dela é todo cottagecore, cheio de campo e pão caseiro."
Crash out
Perder o controle emocional, surtar ou reagir de forma exagerada a uma situação. Com raízes no inglês falado pela comunidade negra americana, o termo ganhou popularidade global em 2024 e 2025.
"Crashei" é o equivalente a dizer que alguém passou dos limites diante de uma frustração.
Como em: "Ela viu a nota da prova e 'crashou' na hora."
Delulu
Encurtamento de delusional, "delirante" em inglês. Descreve quem está iludido ou cria fantasias irreais, especialmente em relação a paqueras e ídolos.
O termo nasceu em comunidades de fãs de K-pop, que se diziam delulu por alimentar sonhos de namorar artistas, e se popularizou de vez em 2023, inclusive na versão bem-humorada "delulu is the solulu" (a ilusão é a solução).
Como em: "Ele acha que vai namorar a cantora famosa? Tá muito delulu."
Divou
Verbo derivado de "diva", a estrela aclamada do mundo da ópera e, depois, da música pop. Significa brilhar, arrasar, entregar uma performance ou um visual impecável.
Nasceu na cultura pop e na comunidade LGBTQ+ brasileira, onde chamar alguém de "diva" é o elogio máximo, e se espalhou como sinônimo nacional de slay e "serviu" (veja a seguir).
Pode valer para um show, uma roupa ou qualquer momento de destaque.
Como em: "Ela cantou demais na formatura, divou total."
Dump (photo dump)
Sequência de fotos variadas e pouco editadas publicada de uma só vez nas redes sociais, em geral no Instagram.
A graça está justamente na informalidade, na contramão do feed perfeitamente curado. É o registro do "despejo" de imagens de um período ou de um evento.
Como em: "Ela fez um dump com fotos da viagem."
Era
Inspirado na ideia de "fase" ou "período", o termo descreve um momento da vida marcado por determinado comportamento, hábito ou estilo.
Dizer que se está "na sua era de" algo virou uma forma de anunciar uma mudança ou um novo foco. O uso ganhou tração com a turnê The Eras Tour, da cantora Taylor Swift.
Como em: "Estou na minha era de cuidar da saúde."
Fanfic (ou fic)
Vem de fan fiction, as histórias que fãs escrevem reaproveitando personagens de obras que admiram.
Na fala cotidiana, ganhou o sentido de história inventada, exagerada ou pouco crível.
Como em: "Essa história parece muito fanfic de internet."
FOMO
Sigla de Fear of Missing Out, ou "medo de ficar de fora". Descreve a ansiedade de perder algo importante ou divertido que os outros estão vivendo.
O conceito foi cunhado por volta de 2004 e se tornou onipresente na era das redes sociais, em que se acompanha em tempo real o que todo mundo está fazendo.
Como em: "Ele saiu mesmo cansado porque bateu o FOMO de ver os amigos no rolê."
Gag (gag de la gag)
Algo extremamente chocante, surpreendente ou impressionante. O termo vem da cultura ballroom — cena artística criada por comunidades negras e latinas LGBTQ+ nos Estados Unidos, conhecida por competições de dança, moda e performance — e do universo das drag queens, artistas que se apresentam com personagens de gênero exageradas e performáticas.
Popularizada por programas como RuPaul's Drag Race, a expressão deriva de gagged, palavra que literalmente significa "amordaçado", mas que nesse contexto passou a representar alguém tão impressionado que fica sem palavras, boquiaberto diante de algo espetacular.
A variação "gag de la gag" é uma forma brasileira e bem-humorada de intensificar a expressão.
Como em: "Quando ela apareceu com aquela roupa na festa, todo mundo ficou gag."
Ghosting
Sumir de uma conversa ou de um relacionamento sem qualquer explicação, como um fantasma (ghost).
É um dos termos centrais do vocabulário afetivo da geração e costuma aparecer ao lado de red flag e situationship (veja a seguir).
Como em: "Estavam se falando todos os dias e, do nada, ele deu ghosting nela."
Glow up
Transformação positiva e marcante, em geral na aparência, mas também na confiança ou no estilo de vida, ao longo do tempo.
É a versão moderna do "patinho feio que virou cisne", frequentemente documentada em fotos de antes e depois.
Como em: "O glow up dele do ensino médio para a faculdade foi absurdo."
Hablar
Verbo espanhol para "falar", adotado de forma lúdica para indicar quem fala verdades, se posiciona com firmeza ou expõe um assunto sem rodeios. O uso de uma palavra em espanhol como gíria faz parte do espírito brincalhão da internet brasileira.
Como em: "Ela resolveu hablar sobre o assunto."
Jantou
Gíria nacional para quem vence uma discussão de forma esmagadora, com argumentos fortes.
A imagem por trás da expressão é a de "comer" o adversário, deixá-lo sem resposta. Aparece muito em comentários de redes sociais depois de uma resposta certeira.
Como em: "Ela respondeu tão bem que simplesmente jantou o oponente."
JOMO
Contraponto direto ao FOMO. A sigla de Joy of Missing Out, ou "a alegria de ficar de fora", descreve o prazer de não participar de eventos e aproveitar o descanso em casa, sem culpa.
Como em: "Todo mundo foi para a festa, mas ela preferiu descansar. Puro JOMO."
Juro
Expressão usada para reforçar sinceridade, dar ênfase a uma afirmação ou demonstrar surpresa.
Funciona como uma espécie de marcador de fala, semelhante a "sério", "verdade" ou "né?", aparecendo mesmo quando a pessoa não está literalmente fazendo um juramento.
Também pode surgir sozinha como forma de confirmar, validar ou reagir ao que acabou de ser dito.
Como em:
— Ele chegou atrasado de novo.
— Juro, eu já esperava.
Mid
Do inglês "meio" ou "mediano". Qualifica algo comum, que não impressiona nem decepciona.
É um veredito de indiferença: nem bom, nem ruim, apenas esquecível.
Como em: "O filme era muito esperado, mas achei bem mid."
Moggar
Superar alguém visualmente ou em presença, ofuscar outra pessoa em uma comparação.
O termo vem do acrônimo inglês AMOG (Alpha Male of the Group, "macho alfa do grupo") e nasceu em fóruns ligados à chamada "machosfera" (manosphere) e ao looksmaxxing, comunidades focadas em hierarquizar a aparência masculina e frequentemente associadas a discursos problemáticos.
Na internet, passou a ser usado de forma leve, muitas vezes apenas como brincadeira, para dizer que alguém "apagou" os demais.
Como em: "Ele chegou tão arrumado que moggou todo mundo."
Mood
Literalmente "humor" ou "estado de espírito". Usa-se para marcar algo com que a pessoa se identifica totalmente, uma situação ou imagem que resume um sentimento.
Dizer que algo "é um mood" significa dizer que aquilo a representa.
Como em: "Foto de gato dormindo o dia inteiro? Mood."
Pick me
Descreve quem busca aprovação e atenção o tempo todo, muitas vezes se diminuindo ou se diferenciando das outras pessoas para agradar.
A expressão vem do "pick me, choose me, love me" ("me escolha, me ame"), fala marcante da série Grey's Anatomy, e se firmou nas redes sociais para criticar esse tipo de comportamento.
Como em: "Ficar se diminuindo para ganhar elogios é muito pick me."
POV
Sigla de Point of View, ou "ponto de vista". Nas redes sociais, nomeia conteúdos apresentados a partir de uma perspectiva específica, colocando quem assiste dentro da cena, como se enxergasse a situação pelos olhos de outra pessoa.
Como em: "POV: você esqueceu o trabalho em casa no dia da entrega."
Red flag
"Bandeira vermelha", o sinal de alerta para um comportamento problemático, sobretudo em relacionamentos. A imagem vem do uso real de bandeiras vermelhas para indicar perigo.
Tem como oposto a green flag (bandeira verde), o sinal positivo de que alguém ou algo é confiável.
Como em: "Demorar dias para responder mensagem é red flag para muita gente."
Rizz
Encurtamento de charisma (carisma). Designa a habilidade de paquerar, conquistar ou encantar alguém. Eleita palavra do ano de 2023 pelo Dicionário Oxford, a gíria se espalhou a partir das transmissões do streamer americano Kai Cenat.
Quem tem muito rizz tem lábia, charme e poder de sedução.
Como em: "Ele puxou conversa e já marcou um encontro, puro rizz."
Serviu
Versão brasileira de to serve, expressão da cultura ballroom e drag. Significa entregar algo de altíssimo nível, impressionar ou caprichar.
Pode se referir a um visual, a uma apresentação ou a qualquer execução impecável.
Como em: "O cantor serviu vocais no show."
Situationship
Relação afetiva sem definição clara, em um limbo entre amizade e namoro.
A palavra mistura situation (situação) e relationship (relacionamento) e descreve justamente essa indefinição de status.
Como em: "Eles saem juntos há meses, mas seguem numa situationship."
Six seven (6-7)
A gíria mais enigmática da lista, além de ser a mais associada à geração Alfa, mais jovem que a Z. Não tem significado: crianças e pré-adolescentes simplesmente gritam six-seven, às vezes balançando as mãos para cima e para baixo, porque acham engraçado.
A expressão vem da música Doot Doot (6 7), do rapper americano Skrilla, usada em vídeos do jogador de basquete LaMelo Ball, que tem 6 pés e 7 polegadas de altura (cerca de 2,01 metros).
O fenômeno foi tão avassalador em salas de aula pelo mundo que a Dictionary.com elegeu "67" como palavra do ano de 2025, admitindo que o termo não significa nada, e que esse é justamente o ponto.
Como em: alguém pergunta qualquer coisa e a criança responde, aos risos, "six-seven".
Slay
Arrasar, se sair muito bem, brilhar. O termo também vem da cultura ballroom e LGBTQ+ americana, em que slay (literalmente "matar") significa mandar muito bem.
Aparece como verbo ("ela slayou") e também como elogio ("slay!").
Como em: "Ela slayou muito na apresentação."
Como cada geração fala

Cada geração foi moldada pela tecnologia de comunicação disponível durante sua juventude, e isso aparece na forma de falar.
Os traços abaixo são generalizações úteis para entender diferenças de comportamento linguístico, não regras fixas.
Baby boomers (1946-1964)
Cresceram com rádio e televisão e socializavam pessoalmente ou por telefone. As gírias vinham da música e da cultura jovem da época.
No Brasil, expressões como "broto", "barato" e "papo cabeça" marcaram o período.
A comunicação tende a ser mais formal e direta, com frases completas.
Geração X (1965-1980)
Geração da TV em cores, do videocassete e, mais tarde, dos primeiros e-mails. Absorveu o tom irônico e a estética da MTV.
Expressões como "da hora", "mané" e "mó legal" circulavam entre os jovens.
Foi a ponte entre o mundo analógico e o digital.
Millennials ou geração Y (1981-1996)
Chegaram à adolescência junto com a internet discada, o MSN e o Orkut e criaram o "internetês": "vc", "blz", "naum" e o riso em "kkkk".
Foram os primeiros a viver a cultura dos memes e a importar palavras como crush e "shippar".
Transitam entre o formal e o informal conforme a plataforma.
Geração Z (1997-2012)
Nativos das redes sociais e do smartphone. Falam um vocabulário híbrido, recheado de inglês e abreviações, com gírias que nascem e morrem no ritmo do TikTok.
É a geração de slay, delulu e situationship.
Geração Alfa (2010 em diante)
Criados inteiramente sob a influência dos algoritmos, têm um humor mais absurdo e autorreferente, ligado ao chamado brain rot.
Suas expressões, como six-seven, skibidi e chopped, muitas vezes não possuem significado fixo: a graça está justamente no nonsense compartilhado.
Importante: vale lembrar que esse vocabulário é movediço. Termos que dominam o feed hoje podem soar datados em poucos meses, e cada nova trend traz suas próprias palavras.
O glossário acima é, mais do que um dicionário fechado, uma fotografia do momento, útil para acompanhar uma conversa que muda na velocidade da rolagem.
