
Quando uma criança levanta as duas mãos com as palmas para cima, fazendo um movimento de quem pesa objetos imaginários no ar, provavelmente não chama a atenção. Mas esse é o "six seven", ou "seis-sete": a gíria mais recente saída das entranhas da internet anglófona, e que chegou ao Brasil sem tradução possível.
O termo tem duas origens que se consolidaram em paralelo. O rapper Skrilla lançou, em dezembro de 2024, a música Doot Doot (6 7), na qual canta sobre acelerar na estrada.
A letra ganhou tração quando fãs passaram a usá-la em vídeo-montagens com LaMelo Ball, armador do Charlotte Hornets que mede 6 pés e 7 polegadas (cerca de 2,01 metros) — uma altura intermediária para os padrões da NBA.
A combinação virou código: "six-seven” passou a significar qualquer coisa mediana, respostas vagas ou situações que não exigem elaboração. Hoje, a gíria é usada para descrever o tempo, o dia, o humor, o almoço. Ou nada disso. Porque, como toda gíria brain rot, seu significado importa menos do que sua capacidade de circular.
O "six-seven" veio depois de "farmar aura", "tung tung sahur” e "tralalero tralala" — expressões e personagens que se espalharam globalmente em vídeos, muitos deles gerados por inteligência artificial (IA), em ciclos curtos. Cada um domina a atenção por algumas semanas antes de ser substituído pelo próximo.
Parte desse ecossistema é alimentado por ferramentas de inteligência artificial generativa, capazes de produzir conteúdos em escala e a baixo custo. Esse fenômeno tem nome entre pesquisadores e desenvolvedores: AI slop, ou “desleixo de IA”, em tradução aproximada.
São vídeos de personagens absurdos com vozes sintéticas, falsos telejornais com apresentadores inexistentes, imagens de gatos musculosos, versões minimamente alteradas do mesmo meme reproduzidas aos milhares.
A produção é automatizada, o custo é próximo de zero e a finalidade é uma: atrair cliques e monetizar visualizações.
O que facilita a proliferação não é só a facilidade de criar. É o fato de que os algoritmos das plataformas não medem autenticidade, mas performance: tempo de visualização, compartilhamentos, reações.
Conteúdo que provoca resposta suficiente para manter o usuário na tela recebe distribuição igual ou maior do que qualquer outro. O resultado é um ciclo em que mais conteúdo gera mais cliques, mais cliques sinalizam relevância e mais distribuição gera demanda pelo mesmo tipo de material.
Plataformas como TikTok, Instagram, YouTube e X estão sendo ocupadas por esse fluxo em escala industrial.
"Deterioração intelectual"

O termo brain rot, eleito em 2024 palavra do ano pela Oxford University Press, descreve a suposta deterioração do estado mental ou intelectual associada ao consumo excessivo de conteúdo trivial ou pouco desafiador.
Não é um diagnóstico médico, mas o comportamento que ele resume já pode ser observado pela ciência. Um estudo publicado em 2025 na revista Psychological Bulletin, da American Psychological Association (Associação Americana de Psicologia), reúne até agora o conjunto mais amplo de evidências sobre o tema.
Pesquisadores da Universidade Griffith, na Austrália, analisaram dezenas de estudos com quase cem mil participantes para entender como o consumo de vídeos curtos afeta cognição e saúde mental.
O resultado principal é simples. Quanto mais tempo as pessoas passam consumindo esse tipo de conteúdo, pior tende a ser o desempenho em testes de atenção e autocontrole. Esse padrão aparece tanto em adolescentes quanto em adultos e se repete em diferentes plataformas, como TikTok, Instagram Reels e YouTube Shorts.
Na saúde mental, a relação é discreta, mas existe. O uso mais intenso de vídeos curtos está associado a níveis mais altos de estresse e ansiedade.
Por outro lado, o estudo não encontrou relação com problemas de imagem corporal ou autoestima, algo comum em redes sociais baseadas em fotos. A explicação pode estar na maior diversidade de conteúdos e criadores nessas plataformas.
Como o design das plataformas condiciona o cérebro
O estudo australiano aponta o próprio desenho das plataformas como fator central. A rolagem infinita, a reprodução automática e o ritmo acelerado dos vídeos maximizam o engajamento ao custo de fragmentar a atenção.
Os pesquisadores recorrem à teoria da habituação e sensibilização, formulada pelo psicólogo e neurocientista americano Richard Thompson nos anos 1970, para explicar o mecanismo.
A exposição repetida a estímulos altamente estimulantes dessensibiliza o cérebro para tarefas mais lentas e exigentes, como leitura ou resolução de problemas.
Ao mesmo tempo, a recompensa imediata de um novo vídeo reforça o comportamento impulsivo de trocar de conteúdo assim que o atual perde a novidade.
Estudos de neuroimagem citados na pesquisa mostram que usuários intensivos de redes sociais apresentam diferenças estruturais e funcionais em regiões do cérebro ligadas ao controle cognitivo, incluindo o córtex pré-frontal — responsável pela tomada de decisões, planejamento e regulação emocional.
A psicóloga Denise Milk, especialista em saúde mental, avalia que o risco está no padrão, não no conteúdo isolado.
— O problema não é o vídeo curto ou o meme isolado. É o padrão de consumo repetitivo, automático e de baixa exigência cognitiva — afirma.
Ela descreve o efeito sobre a atenção em termos funcionais:
— A literatura mostra associação entre uso intenso desse tipo de conteúdo e pior atenção sustentada, menor controle inibitório, mais fadiga cognitiva e maior dificuldade de engajamento em tarefas profundas — comenta.
Segundo ela, não se trata de perda de inteligência, mas de uma mudança no funcionamento mental.
— É um padrão mais reativo, mais orientado à recompensa imediata e menos tolerante à continuidade — completa.
Gírias, linguagem e pertencimento
O ciclo de expressões virais sem significado claro levanta outra questão: o que acontece com a linguagem quando o repertório dominante é gerado por algoritmos e descartado em poucas semanas?
Para a psicóloga Denise Milk, o fenômeno não é totalmente novo, mas ganha escala e velocidade no ambiente digital. Ela afirma que expressões virais e memes sempre fizeram parte da construção de linguagem e pertencimento.
— Isso não é novo nem necessariamente negativo. O ponto de atenção é quando o repertório fica restrito, pouco transferível e empobrecido em nuance — explica.
A especialista também relativiza o uso de termos mais fortes para descrever o fenômeno. Segundo ela, brain rot funciona como uma expressão cultural que traduz um mal-estar contemporâneo, mas não corresponde a um diagnóstico.
— O mesmo vale para "atrofia cognitiva", que é mais forte do que a evidência permite afirmar hoje. O que a ciência sustenta com mais precisão é uma tendência à superficialização do processamento e redução da autorregulação quando esse padrão de consumo se torna dominante — detalha.
Uso compulsivo e os sinais de alerta
Um dado do estudo australiano merece atenção. A associação com pior saúde mental é mais fraca quando se considera apenas o tempo de tela e mais forte quando a análise leva em conta o comportamento compulsivo.
O dado reforça o que a literatura sobre vícios comportamentais já indica: o problema não está só em usar muito, mas em perder o controle sobre o uso. Para a psicóloga Denise Milk, conteúdos de vídeos curtos, com rolagem infinita e estímulos rápidos, favorecem esse padrão.
— Pode, sim, estimular o uso compulsivo, pela combinação de novidade constante, recompensa rápida e baixo esforço — ressalta.
Na prática, explica a especialista, os sinais adversos aparecem no dia a dia, como:
- dificuldade de concentração
- uso automático (quando a pessoa acessa e consome conteúdo sem perceber ou sem intenção clara)
- perda de controle do tempo
- irritação diante do tédio
- queda de rendimento
- sensação de mente fragmentada
Denise também chama atenção para um risco específico relacionado ao conteúdo de saúde mental nas redes. Em plataformas de vídeos curtos, usuários são frequentemente expostos a relatos pessoais de sintomas e diagnósticos, o que pode influenciar comportamentos.
— Há estudos que mostram aumento de comportamentos semelhantes aos do Tourette (distúrbio neuropsiquiátrico crônico) em adolescentes após exposição a vídeos sobre a síndrome no TikTok, um exemplo de contágio social mediado por algoritmo — cita a psicóloga.
O que a ciência ainda não sabe
Apesar dos avanços, os próprios autores do estudo apontam limites importantes no que é possível concluir hoje. A maior parte das pesquisas analisadas observa o comportamento em um único momento, sem acompanhar os participantes ao longo do tempo.
Isso impede afirmar com certeza o que vem primeiro: se o consumo frequente de vídeos curtos prejudica a atenção ou se pessoas com mais dificuldade de concentração tendem a consumir mais esse tipo de conteúdo. As evidências indicam que as duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo.
Também há lacunas no que exatamente está sendo medido. A maior parte dos estudos se concentra em atenção e controle do impulso, enquanto áreas como memória e raciocínio ainda são pouco exploradas.
Além disso, boa parte das pesquisas se limita a plataformas específicas, como o TikTok, o que reduz a capacidade de generalizar os resultados.
Outro ponto ainda em aberto é o impacto do chamado AI slop. Embora o volume desse tipo de conteúdo esteja crescendo rapidamente, ainda não há estudos que consigam isolar seu efeito sobre a cognição em comparação com conteúdos humanos de baixa qualidade.
O que fazer diante da questão do consumo online
Os dados disponíveis não apontam para a necessidade de abandonar as plataformas, mas sugerem que o cérebro responde diretamente ao padrão de uso.
Em um experimento citado na pesquisa, participantes que limitaram o uso de redes sociais a uma hora por dia e reduziram interações menos relevantes relataram, após poucas semanas, menos sintomas depressivos e menor comparação social.
Para a psicóloga Denise Milk, o ajuste mais eficaz não é eliminar o consumo, mas mudar a forma como ele acontece.
— Menos uso automático, mais intencionalidade e presença em atividades que exigem profundidade. É isso que reequilibra o sistema — conclui.
