
O looksmaxxing, termo que se refere ao processo de maximizar a própria atratividade física, vem ganhando espaço entre os jovens. Desde a Grécia Antiga, o ideal de beleza baseia-se na harmonia, proporção e simetria. Os gregos chamavam isso de kaloskagathos: o "belo e bom" ou "belo e virtuoso".
É comum falar sobre a pressão estética no corpo feminino, mas desta vez o fenômeno em questão envolve homens jovens em busca do que consideram ser o "alfa", uma figura fortemente inspirada nos deuses da mitologia grega.

Na tentativa de se tornar Apolo, Adônis ou Narciso — referências mitológicas associadas ao ideal de beleza e harmonia —, adolescentes e jovens adultos adentram uma comunidade com implicações que preocupam especialistas: a "machosfera", também conhecida como o universo dos red pills.
Mais do que uma tendência estética, esse movimento revela uma mudança na forma como homens jovens constroem sua identidade e percebem o próprio valor.
A aparência deixa de ser apenas um atributo e passa a ocupar um papel central na definição de sucesso, pertencimento e reconhecimento social, especialmente em ambientes digitais.
A psicóloga e sexóloga Alessandra Araújo, especializada no atendimento de adolescentes, afirma que o fenômeno vai além da vaidade. Segundo ela, o looksmaxxing transforma a aparência em um jogo de alto risco, em que o próprio corpo vira um "personagem" a ser constantemente otimizado.
O que é a "machosfera"
O termo "machosfera", do inglês manosphere, designa uma rede de comunidades online que, sob o pretexto de tratar das dificuldades masculinas, promovem visões cada vez mais hostis sobre relações de gênero. O nome surgiu em blogs em 2009 e ganhou tração ao longo da década seguinte.
Pesquisadores identificam 2010 como um ponto de inflexão, quando essas comunidades deixaram a periferia da internet e começaram a migrar para o mainstream, impulsionadas pela ascensão das redes sociais.
Como essas comunidades funcionam
Nesse ambiente, jovens em formação passam a encontrar respostas simplificadas para frustrações complexas, especialmente relacionadas a rejeição, autoestima e pertencimento. Em vez de abordagens multifatoriais, essas comunidades oferecem uma lógica rígida, baseada em aparência e hierarquia.
Alessandra explica que adolescentes vivem uma fase de "vulnerabilidade identitária" e acabam encontrando nessas comunidades uma explicação pseudocientífica para frustrações sociais.
— A autoimagem deixa de ser subjetiva e passa a ser quantificada, com medidas de ângulos faciais e características como se houvesse uma nota matemática para a dignidade humana — afirma.
O que é "red pill"
A expressão redpill é uma referência ao filme Matrix (1999): quem "toma a pílula vermelha" estaria enxergando uma suposta verdade oculta, a ideia de que a sociedade favorece as mulheres e oprime os homens.
No livro Nem todos os homens brancos mortos: clássicos e misoginia na era digital, a pesquisadora americana Donna Zuckerberg define a virada ideológica do movimento: seus membros não apenas menosprezam as mulheres, mas também acreditam que os homens são oprimidos por elas.
Efeito de câmara de eco
Esse tipo de narrativa tende a se fortalecer em ambientes fechados, onde há pouca contestação e alta validação entre pares, criando uma percepção distorcida do que é aceitável ou realista nas relações sociais.
Trata-se do chamado efeito de "câmara de eco", em que opiniões e crenças são constantemente reforçadas dentro de um grupo homogêneo, sem exposição a pontos de vista divergentes.
— Quando todos ao redor validam a ideia de que só há valor em um tipo específico de aparência, a percepção de normalidade é distorcida — explica Alessandra.
Em 2018, o Southern Poverty Law Center, organização americana de combate ao extremismo, passou a monitorar a "supremacia masculina" como categoria formal em sua lista de grupos de ódio, ao lado de movimentos como supremacistas brancos e milícias armadas.
No Brasil, o alcance dessa ideologia ganhou um episódio concreto em março deste ano, quando um dos acusados pelo estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana, no Rio de Janeiro, se apresentou à delegacia usando uma camiseta com a frase em inglês "Regret nothing", que pode ser traduzida como "não me arrependo de nada".
A expressão circula nas comunidades redpill associada ao coach britânico-americano Andrew Tate, uma das figuras centrais do movimento e autodeclarado misógino, que acumula milhões de seguidores nas redes sociais e responde a acusações criminais de tráfico humano e estupro na Romênia e no Reino Unido.
Dentro do looksmaxxing: da academia à cirurgia
Dentro da machosfera, o looksmaxxing ocupa um espaço peculiar. O termo surgiu em fóruns ligados aos chamados incels, homens que se identificam como "celibatários involuntários", na década de 2010.
Por anos, circulou em cantos obscuros da internet. Entre 2022 e 2023, chegou ao TikTok e se tornou tendência, especialmente entre adolescentes do sexo masculino.
A popularização do tema nas redes sociais não ocorreu de forma espontânea. Plataformas digitais operam com sistemas de recomendação que amplificam conteúdos com alto engajamento, criando uma escalada progressiva de exposição a padrões cada vez mais extremos de comportamento e estética.
A psicóloga Alessandra chama atenção para o papel dos algoritmos nesse processo.
— O algoritmo funciona como uma lente de aumento. O jovem passa a ser exposto repetidamente a padrões extremos, o que normaliza o irreal — diz.
A lógica da prática parte de uma premissa: a aparência física determina o valor de um homem. A partir daí, divide-se em dois caminhos.
O primeiro, chamado de softmaxxing, abrange rotinas mais comuns como cuidados com a pele, corte de cabelo e academia.
O segundo, o hardmaxxing, envolve práticas extremas: jejum extenso, uso de esteroides anabolizantes, implantes e cirurgias na mandíbula.
Por trás dessas práticas, há uma promessa implícita de controle sobre a própria vida, baseada na ideia de que, ao atingir um determinado padrão físico, o indivíduo conquistará automaticamente reconhecimento, desejo e sucesso social.
O fascínio pelo conceito de "homem Alpha" também aparece como fator central.
— Em um mundo complexo, a ideia de que a aparência garante sucesso e aceitação funciona como um mapa simplificado — afirma Alessandra.
Há ainda práticas que transitam entre o absurdo e o perigoso:
O mewing consiste em pressionar a língua contra o céu da boca para tentar remodelar a mandíbula.
O bonesmashing vai além: a proposta é bater o próprio rosto contra objetos duros para obter uma "aparência esculpida". Embora circule frequentemente como uma espécie de piada ou exagero dentro dessas comunidades, sem registros concretos de adoção em larga escala, especialistas alertam que a prática é potencialmente perigosa.
Médicos classificam ambas as técnicas como desinformação, sem respaldo científico.
Para a psicóloga, esse comportamento se conecta a uma crise contemporânea da masculinidade.
— Muitos jovens não encontram hoje um rito de passagem claro. O looksmaxxing surge como um rito artificial, centrado no corpo — avalia Alessandra.
Glossário da cultura red pill
Para entender essa subcultura, é preciso conhecer o vocabulário que a sustenta. As comunidades de looksmaxxing e redpill desenvolveram um glossário próprio, que circula largamente em fóruns e redes sociais. Confira alguns termos a seguir:
- Chad: é o termo para o homem considerado no topo da hierarquia física e social, com mandíbula definida, olhos de "predador" (hunter eyes, no inglês), bochechas fundas e postura dominante. É o ideal a ser alcançado.
- Beta: ou sub-humano, está no extremo oposto. É a classificação dada a quem não atinge os padrões valorizados pelo grupo
- Mogging: derivado do acrônimo AMOG (Alpha Male of the Group — macho alfa do grupo, do inglês), é o ato de demonstrar superioridade física sobre outro homem pela comparação de aparência
- Incel: abreviação de involuntary celibate, do inglês ou celibatário involuntário — é aquele que acredita ser rejeitado por mulheres exclusivamente por fatores físicos ou genéticos, fora de seu controle
- Ser "redpillado": significa ter "acordado" para a suposta verdade de que o mundo favorece as mulheres
A criação dessas categorias não apenas organiza a percepção de mundo desses grupos, mas também estabelece uma lógica de comparação constante, em que indivíduos são reduzidos a métricas de aparência. A especialista alerta para os impactos emocionais desse tipo de classificação.
— O jovem passa a enxergar relações como transações e a reprimir vulnerabilidades, o que compromete empatia e resiliência — explica Alessandra.
Há, também, a escala PSL — sigla para Perfectish Scale ou Escala de Aparência Perfeita — é um sistema de pontuação de atratividade facial difundido em comunidades de looksmaxxing e popularizado em redes como o TikTok.
A proposta é atribuir uma nota, geralmente de 1 a 8, com base em critérios como harmonia facial, dimorfismo sexual, angularidade da face e características específicas, como pele, nariz e sobrancelhas, numa tentativa de transformar a beleza em uma métrica objetiva.
Criada em fóruns ligados a comunidades incel, a escala organiza os homens em categorias que vão do considerado "comum" até os chamados "Chads" ou "deuses PSL", descritos como exemplos quase inalcançáveis de perfeição estética.
É a partir dessas classificações que homens são avaliados e frequentemente expostos à comparação constante em fóruns anônimos, onde a aparência passa a ser tratada como um indicador de valor pessoal.
Nos casos mais graves, usuários que recebem pontuações mais baixas relatam episódios de humilhação, assédio sistemático e até incentivo ao suicídio por parte de outros membros.
De fórum obscuro a tendência nas escolas
O caminho do looksmaxxing das margens da internet para o cotidiano dos jovens não foi acidental. Os algoritmos das redes sociais funcionam como um funil: jovens que buscam dicas sobre boa forma ou cuidados pessoais podem ser gradualmente expostos a conteúdos cada vez mais radicais.
A pesquisadora australiana Jamilla Rosdahl, da Faculdade Australiana de Psicologia Aplicada, identificou um padrão: quando jovens sentem que não conseguem controlar o ambiente ao redor, em meio a uma economia instável e dificuldades para estabelecer relações, tendem a recorrer ao looksmaxxing como algo que podem, ao menos em tese, controlar.
Esse movimento de busca por controle individual, no entanto, pode evoluir para um foco obsessivo em aspectos específicos da aparência, reforçando inseguranças em vez de resolvê-las. Alessandra traça um paralelo com o transtorno dismórfico corporal.
— Em muitos casos, é o transtorno "gameficado", com hiperfixação em detalhes mínimos e busca incessante por um ideal inatingível — afirma.
O problema é que esse controle raramente chega. Os padrões são inatingíveis para a maioria e a comparação constante alimenta um ciclo de insatisfação.
Segundo uma reportagem da rede britânica BBC de 2024, o looksmaxxing tem sido associado ao aumento de casos de dismorfia corporal entre adolescentes do sexo masculino, transtorno em que a pessoa desenvolve uma percepção distorcida da própria aparência, com foco obsessivo em falhas reais ou imaginárias.
Com isso, especialistas avaliam que a competição pela aparência tenha migrado das telas para os pátios das escolas.
Sinais que devem ser observados
Além dos efeitos individuais, há também sinais comportamentais que podem ser observados no cotidiano de adolescentes que se envolvem profundamente com esse tipo de conteúdo.
Entre os sinais de alerta, a psicóloga Alessandra cita o uso constante de termos específicos dessas comunidades, comportamento obsessivo diante do espelho, adoção de práticas extremas e isolamento social.
Para pais e educadores, a orientação é evitar o confronto direto.
— Ridicularizar afasta o jovem. O caminho é ampliar a visão de masculinidade, investir em educação midiática e abrir espaço para diálogo — conclui.
