
Antes de virar assunto nas redes sociais por protestos virtuais organizados por crianças e adolescentes, o Roblox já era um dos ambientes digitais mais frequentados por jovens no mundo, ainda que pouco conhecido por parte do público adulto.
Criado em 2006, vale ressaltar que o Roblox não é um jogo único, mas uma plataforma online que reúne milhões de jogos e experiências criadas pelos próprios usuários.
Nela, crianças e adolescentes controlam avatares, circulam por cidades virtuais, conversam por chat de texto e voz e participam de atividades que simulam situações do cotidiano, como ir à escola, trabalhar, dirigir ou simplesmente socializar.
É justamente essa "dimensão social" que ajuda a explicar por que, nos últimos dias, o Roblox se transformou em palco de uma onda de protestos virtuais após mudanças nas regras de segurança da plataforma, com restrição do chat de voz para menores de idade.
Febre entre crianças e adolescentes
Segundo Lucas Goulart, psicólogo com pós-doutorado em Comunicação pela Universidade Paulista (Unip) e especialista em games, em entrevista à Zero Hora em 2023, o Roblox se consolidou como um fenômeno em uma faixa etária bastante específica, que vai da infância ao início da adolescência.
— É um jogo mais flexível, com mecânicas simples e gráficos pensados para crianças. Além disso, há uma abertura muito grande para produções criadas pelos próprios usuários, o que amplia a diversidade de conteúdos disponíveis — explica.
Outro fator decisivo, segundo o pesquisador, é a presença constante da plataforma em vídeos de criadores de conteúdo. A facilidade de gameplay para youtubers e streamers, com quem as crianças mantêm uma relação de proximidade, também ajudou a impulsionar ainda mais o alcance do jogo, segundo Goulart.
O que mudou no Roblox?
Na última semana, a empresa anunciou novas restrições ao uso do chat de texto e voz por crianças. A partir da atualização, jogadores menores de nove anos passaram a ter o chat bloqueado por padrão. Para liberar a comunicação, é necessário passar por um sistema de verificação de idade, com autorização de responsáveis.
Além disso, conversas ficaram limitadas a usuários de faixas etárias próximas. Segundo o Roblox, a medida busca impedir o contato entre adultos e crianças e reduzir riscos de assédio e aliciamento, um tema que vem colocando a plataforma sob pressão internacional nos últimos anos.
Em 2025, a empresa enfrentou processos nos Estados Unidos sob acusação de falhas na prevenção de crimes contra menores no ambiente virtual. A companhia afirma que as novas regras fazem parte de um pacote mais amplo, que inclui filtros automáticos, moderação mais rígida e monitoramento contínuo.
As mudanças foram testadas em dezembro de 2025 em alguns países e implantadas globalmente em janeiro. A decisão, porém, provocou reação entre parte dos usuários mais jovens.
Protestos tomam "cidades" do jogo
Após o anúncio, crianças e adolescentes passaram a organizar protestos dentro do próprio Roblox, especialmente em jogos de simulação urbana, como Brookhaven, que reproduzem bairros, ruas, prédios e avenidas.
Imagens e vídeos mostram avatares reunidos em grupos, segurando cartazes, fechando vias, bloqueando cruzamentos com caminhões e usando efeitos visuais do jogo para simular incêndios e barricadas.
Em alguns servidores, personagens ficaram parados em fileiras, impedindo a circulação de veículos e outros jogadores.
Cartazes, xingamentos e ataques pessoais
Além das manifestações contra a empresa, os protestos passaram a incorporar mensagens agressivas e ataques direcionados a pessoas específicas. Entre os nomes mais citados está o do influenciador Felca, que virou alvo recorrente nos cartazes exibidos pelos avatares.
As imagens mostram placas com xingamentos, acusações e frases ofensivas atribuídas a ele. Algumas mensagens chegaram a simular pedidos de punição ou violência, sempre dentro do ambiente virtual do jogo.
Felca, que não tem relação com as decisões do Roblox, relatou nas redes sociais que passou a receber ataques diretos em mensagens privadas, principalmente de crianças, após seu nome começar a circular nos protestos.
Em uma das mensagens, um usuário afirma: "Felca, eu vou te matar". Em outra, a acusação é de que ele "não teria direito de proibir nada das crianças".
A associação ocorre porque Felca ganhou projeção nacional em 2025 ao publicar conteúdos sobre segurança infantil na internet, denunciando práticas de exploração e defendendo maior responsabilidade das plataformas digitais. Para parte dos jogadores, porém, ele acabou sendo identificado como alguém "ligado" às restrições impostas pelo Roblox.
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