
O doomscrolling, termo que descreve o hábito de rolar a tela sem parar em busca de notícias negativas, tornou-se um dos comportamentos mais comuns na era dos feeds infinitos. A lógica das redes sociais favorece esse movimento automático: um post leva a outro e, quando o usuário percebe, passou um tempo imerso em um fluxo de informações que só reforçam o mal-estar.
Embora pareça uma maneira de “se manter informado”, esse hábito acaba intensificando emoções negativas, como explica a psicóloga Monique Machado. Segundo ela, a pessoa tende a procurar conteúdos que confirmem a sensação de mal-estar, criando um ciclo difícil de romper. Em alguns casos, o comportamento pode aparecer como manifestação de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
O consumo contínuo de posts negativos afeta diretamente a saúde mental e alimenta uma visão pessimista da realidade. Entre os efeitos mais relatados estão aumento da ansiedade, estresse, tristeza, risco de depressão e noites mal dormidas.
Quais são os principais sintomas?
Monique avalia que esse hábito se intensificou ainda mais depois da pandemia de covid-19, em função da maior conectividade e do anseio na busca por segurança na informação.
— No contexto do Rio Grande do Sul, especialmente após as enchentes e a sensação coletiva de vulnerabilidade, muitos gaúchos passaram a monitorar notícias com ainda mais intensidade. É como se o cérebro dissesse: "se eu me manter informada, eu me protejo". Só que isso não se sustenta a longo prazo — avalia a especialista.
A psicóloga ressalta que mesmo quando o conteúdo é negativo, o doomscrolling ativa pequenos picos de dopamina. Segundo ela, isso acontece porque, a cada rolagem, o cérebro espera encontrar algo que ofereça alívio, sensação de controle ou resposta para inquietações do momento.
— Como vivemos cada vez mais sozinhos, muitas vezes confundindo solidão com liberdade, os aplicativos acabam ocupando esse espaço emocional. Eles oferecem companhia imediata, mesmo que seja uma companhia que nos angustie — ressalta a psicóloga.
A especialista alerta que o ciclo se torna preocupante quando:
- a pessoa percebe que o humor piora depois de usar as redes;
- passa a dormir mal;
- perde tempo sem perceber;
- começa e termina o dia rolando a timeline;
- sente que está sempre esgotada.
Como controlar o "doomscrolling"?
O hábito de rolar o celular sem parar, passando por uma sequência infinita de publicações, já faz parte da rotina de grande parte dos usuários das redes sociais. Mas romper com o doomscrolling não significa desaparecer das redes, conforme explica Monique.
Na avaliação dela, o caminho mais eficaz envolve pequenas mudanças, como reduzir o tempo de tela, tirar aplicativos da página inicial e desativar notificações que não são essenciais. Estabelecer horários curtos e definidos para checar notícias também pode ajudar.
— Outra estratégia importante é criar substituições rápidas. Em vez de abrir o celular para preencher o vazio, vale levantar, beber água, praticar atividade física, mandar mensagem para alguém, ou até ter um ritual de fechar o dia — sugere a profissional.
A exposição constante a estímulos também mantém o cérebro sob doses elevadas de cortisol, hormônio diretamente ligado ao estresse. Quando presente em excesso, ele desgasta o organismo, provoca inflamações e interfere no bem-estar físico e emocional.
O tempo gasto na rolagem interminável também reduz a produtividade e compromete a atenção, estudos e relações pessoais — mesmo quando o conteúdo consumido não é necessariamente negativo. Apesar disso, sinais de mudança começam a surgir: parte da geração Z tem buscado ferramentas tecnológicas para monitorar hábitos e conter o comportamento, o que pode indicar um movimento crescente de uso mais consciente nas redes sociais.
*Produção: Ana Júlia Santos
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