
Em um estúdio iluminado por refletores, 20 pessoas cercam um debatedor posicionado no centro do círculo. Cada participante segura uma bandeira vermelha. O cronômetro dispara e os argumentos precisam ser rápidos. Se a maioria levanta a bandeira, o orador é substituído.
A cena até lembra o clima do Roda Viva, mas é, na verdade, um dos fenômenos audiovisuais mais populares do YouTube brasileiro em 2025: os canais de debate. Neles, discussões sobre política, comportamento, religião, sexualidade e até futebol seguem um mesmo roteiro, pensado para maximizar tensão, ritmo e engajamento.
O formato nasceu inspirado em produções estrangeiras, como o Jubilee, dos Estados Unidos, e o Le Crayon, da França, que colocam pessoas comuns com opiniões opostas para discutir temas sensíveis. No Brasil, porém, o modelo ganhou contornos próprios, alimentado por disputas políticas recentes, pela lógica das redes e pela "demanda" por debates.
"1 contra 20"
Entre os canais que ajudaram a popularizar o fenômeno no país está o Spectrum, criado pelos gaúchos Bruno Costa, 30 anos, e Tomás Herrmann, 31. O projeto nasceu com o casal em Rolante, no Vale do Paranhana, e cresceu com a produção feita em São Paulo.
Em pouco mais de um ano, o canal acumulou milhões de visualizações e se tornou referência do formato "1 contra 20", em que um debatedor encara um grupo de 20 adversários. São mais de 320 mil inscritos.
A ideia surgiu em 2023, quando Bruno, que é administrador de empresas, passou a assistir a canais estrangeiros que apostavam nesses formatos.
— Esses canais traziam dois lados com pensamentos muito diferentes. E em diversas temáticas que, às vezes, você não via debatendo, você não conhecia. Não eram coisas que a gente estava acostumado a ver — contou o criador, em entrevista à Zero Hora.
Ele mostrou os vídeos a Tomás, que é coordenador pedagógico de uma escola em Igrejinha. Foi então que os dois começaram a imaginar como o formato poderia funcionar no Brasil.
— Chamei o Tomás e falei: "cara, e se a gente fizesse uma coisa assim aqui? Seria diferente, acho que as pessoas iam gostar". O Brasil estava vivendo uma polarização muito grande, ia ser interessante ter esse diálogo e ele adorou a ideia — lembra Bruno.
Início do canal
Sem experiência no audiovisual, eles buscaram o diretor criativo Pedro Panz, que já havia trabalhado com outros canais de entretenimento. Em julho de 2024, gravaram os pilotos. A gravação do episódio de estreia, Umbandistas vs Cristãos, surpreendeu até os criadores.
— A gente se apaixonou logo de cara. O clima no estúdio foi muito gostoso, e os participantes adoraram. Falaram: "tem que fazer mais disso", que ia dar certo e após esse piloto, resolvemos gravar mais alguns para ficar de gaveta — contou Bruno.
O canal foi lançado em janeiro de 2025 e, em menos de um mês, já tinha atingido as métricas necessárias para ser monetizado, um feito raro no YouTube. O crescimento foi todo orgânico, sem investimento em impulsionamento, mostrando que, de fato, os debates atraiam a atenção do público.
— Com o tempo, a gente começou a receber comentários e seguidores nas redes sociais, as pessoas mandavam mensagem falando: "eu sentia falta disso", porque a gente não começou tão óbvio. Eram temas que não estavam saturados na internet — relatou Bruno.
Formato "viralizou"
O Spectrum organiza os programas em dois quadros principais: o Zona Neutra, em que três pessoas de cada lado discutem um tema, e o Zona de Fogo, no formato "1 contra 20". Foi esse último que viralizou mais.
Entre os vídeos, debates como "1 comunista vs 20 conservadores", com o historiador Jones Manoel, e "1 conservador vs 20 progressistas", com o vereador Lucas Pavanato (PL-SP), ultrapassaram 5 milhões de visualizações e renderam cortes que se espalharam pelas redes.
As gravações acontecem em São Paulo, com estúdio, equipe técnica e elenco fixo. A seleção dos participantes envolve reuniões semanais e, muitas vezes, a contribuição do público.
— A gente vai uma vez por mês e grava quatro episódios em um fim de semana. São Paulo concentra tudo: as pessoas, os contatos, o audiovisual Alguns convidados montam seus próprios times e propõem os debates. Às vezes, o pessoal chega com a ideia pronta — contou Tomás.
O canal também incorporou a função de checagem de fatos em seus vídeos, uma iniciativa que partiu dos próprios espectadores.
— As checagens têm muito acesso. As pessoas estão querendo entender, estudar, saber de onde vem a informação — afirmou Bruno. Cada episódio exibe QR codes com links para as fontes citadas pelos debatedores.
Economia da atenção
Para os criadores, o principal desafio é equilibrar audiência e responsabilidade editorial. Bruno reconhece que o formato é movido por emoção e engajamento, mas tenta fugir da superficialidade. Para isso, ele explica que, com o tempo, o foco passou a ser qualificar o debate, trazendo convidados experientes e temas mais densos.
— É claro que sempre tem um grupo de um lado e o grupo de outro berrando muito, mas também tem gente muito afim de estudar e de ouvir os lados e de se entender. A gente percebe isso muito nos comentários — diz.
Segundo o professor Willian Fernandes Araújo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), especialista em plataformas digitais e algoritmos, esse tipo de conteúdo é parte direta da chamada economia da atenção, em que o engajamento é a moeda mais valiosa.
— Conteúdos de debates, divididos em cortes, costumam ter boa performance em serviços como TikTok e YouTube Shorts. A lógica de confronto entre visões de mundo, mediada por uma dinâmica de jogo ao estilo de reality show, garante um produto de entretenimento que explora e potencializa a participação — explicou.
Para o pesquisador, o formato recoloca o debate no centro da conversa pública, mas em moldes que priorizam o embate.
— Esses debates replicam uma lógica gamificada, que coloca debatedores em posição de combate e pouco dispostos à escuta. Para quem está genuinamente interessado em compreender o outro lado, pode ser um recurso valioso. Mas, em geral, reforça o confronto e a superioridade moral — avaliou.
A "era do confronto"
Para muitos espectadores, os debates funcionam como um espaço de reconhecimento, um lugar onde é possível ver suas próprias opiniões defendidas, contestadas ou submetidas ao teste do embate público.
— As pessoas estão querendo estudar. Estão querendo entender. Quando viraliza um corte de alguém que fala uma coisa "errada", o tipo de movimentação que isso gera é muito interessante — observa Tomás.
A dinâmica, porém, não se explica somente pela maior disposição em discutir política. Segundo Willian, o formato opera numa lógica onde o entretenimento molda o próprio discurso.
— O relativo sucesso do formato está diretamente ligado ao confronto de opiniões e, em muitos casos, à produção de cortes que demonstram como minha visão de mundo é superior e como o outro lado é incapaz de debater — explicou.
A gente quer qualificar o debate. Não queremos fazer algo só para gerar cortes e viralização a qualquer custo
BRUNO COSTA
Administrador de empresas
Eleições e o que vem por aí
Com a aproximação das eleições gerais de 2026, o formato deve ganhar ainda mais visibilidade. Para Willian, esses canais passaram a integrar o ecossistema político, mas em uma posição específica, mais voltada a projetar personagens do que a moldar o debate nacional.
— Eles notabilizam personalidades de campos específicos do espectro político, que buscam notoriedade para viabilizar candidaturas. Mas não acredito que eles condicionem o debate público como um todo — ponderou.
Pensando no próximo ano, os criadores do Spectrum já planejam expandir o projeto, com novos formatos e episódios semanais. Parte da estratégia é conseguir aprofundar os temas sem perder a conexão com o público.
— A gente tenta sincronizar o que é o entretenimento com essas pitadas de política. Queremos desenvolver algo próprio, específico, que vai ter a pegada do entretenimento com o debate. O grande desafio para 2026 é qualificar mais. A gente não quer que vire uma "zoeira recreativa" — diz Bruno.
