
A foto de uma brasileira foi parar no centro de uma denúncia de fraude eleitoral na Índia. A imagem da cabeleireira Larissa Nery, 29 anos, foi apresentada nesta semana pelo líder da oposição no país, Rahul Gandhi, durante entrevista coletiva.
— As pessoas começaram a me marcar, algumas a me chamar no direct do Instagram (área de mensagens). Eu falei: "Gente, que loucura é essa? Estão me confundindo com alguém". Mas aí pesquisei no Google e percebi que não era pegadinha — relatou Larissa à BBC News Brasil.
Na Índia, a oposição acusa o partido do primeiro-ministro, o BJP, e a Comissão Eleitoral de fraude nas eleições do ano passado no Estado de Haryana. BJP e Comissão Eleitoral negam as acusações.
Entenda a denúncia política
Na entrevista coletiva desta semana, Rahul Gandhi disse que sua equipe analisou dados da lista de eleitores da Comissão Eleitoral e encontrou irregularidades em 2,5 milhões de eleitores do total aproximado de 20 milhões. Seriam registros duplicados, múltiplos votos de mesmos eleitores e endereços inválidos.
Para Gandhi, a derrota de seu partido se deve a essa suposta manipulação da lista de eleitores.
Em um telão, ele mostrou diversos slides. Em um deles, havia uma compilação com 22 eleitores com nomes e endereços distintos, mas com a mesma foto. A imagem era da cabeleireira Larissa Nery.
— Quem é essa senhora? Quantos anos ela tem? Ela votou 22 vezes em Haryana — questionou Gandhi.
Uma única foto de banco de imagens de uma mulher, tirada pelo fotógrafo brasileiro Matheus Ferrero, foi usada repetidamente em várias inscrições de eleitores sob nomes diferentes.
Como a brasileira descobriu
Larissa contou à BBC News Brasil que, na quarta-feira (5), começou a receber notificações e marcações, em todas as redes sociais, com um vídeo em que ela aparecia em um telão. Em um primeiro momento, desconfiou que fosse alguma brincadeira com inteligência artificial. Até descobrir que era algo maior.
Ela usou o Google Tradutor para entender mensagens e menções que recebia. E, na sequência, sentiu medo.
— Parece algo com uma grande dimensão fora do Brasil. Não sei se era perigoso para mim ou não. Não sei se falar sobre o assunto pode prejudicar alguém lá, não sei quem está certo ou errado, porque não conheço os partidos. Para ser sincera eu não fico por dentro das eleições nem no Brasil, quem dirá fora — afirmou à BBC.
Larissa trabalha em um salão na região de Belo Horizonte (MG). E disse ter tido problemas até mesmo profissionalmente. A enxurrada de mensagens fez com que não conseguisse localizar as das suas clientes. Segundo ela, também teve de retirar o nome do salão do perfil, porque "estavam importunando" seu trabalho.
Ela pontuou que a situação como um todo a fez refletir sobre os riscos de publicar imagens pessoais online:
— Tomem cuidado com as fotos que vocês postam. A gente é a primeira geração que está lidando com isso. Fiz uma foto em 2017, jovem, no muro da frente da minha casa. Achei que nunca ia dar em nada. E olha onde fui parar. Minha cara está nos telões da Índia, do outro lado do mundo.
De onde veio a foto
A BBC News Brasil verificou uma série de detalhes que levam à conclusão de que o publicitário Matheus Ferrero, 33 anos, é o autor da foto. Ele é amigo de Larissa.
A imagem foi feita em 2017, quando Matheus queria começar a atuar profissionalmente na fotografia e convidou Larissa para um ensaio. Ela não era modelo e chegou a recusar o convite, mas depois aceitou.
O ensaio agradou aos dois e Matheus enviou uma das imagens para dois sites de fotografias. À BBC, ele relatou que não estava em busca de pagamento, mas de visibilidade para o seu trabalho. Disse também que a foto "bombou muito", mas que, como não ganhava dinheiro, aquilo parou de fazer sentido em certo momento. Os nomes das plataformas não foram mencionados pela reportagem da BBC. A mesma imagem foi encontrada sendo usada em anúncios no Mercado Livre e hospedada em outros bancos de imagem.
O susto após a repercussão recente fez Matheus remover o material da internet e bloquear as próprias redes sociais.
— Apaguei por receio, já que a foto foi usada de forma indevida. Não é algo que me representa mais. E fiquei com medo de usarem fotos de outras pessoas que fotografei. Me senti invadido. Do nada aparecem pessoas de lugares aleatórios. Fiquei pensando se eu tinha feito algo errado, mas não fiz — justificou.
Ele criticou plataformas de hospedagem que, em sua avaliação, não protegeram nem o trabalho autoral nem a modelo contra usos indevidos.
À BBC, também destacou que nunca esteve na Índia e que o mais próximo do país foi ter assistido à novela brasileira Caminho das Índias, da TV Globo.