
Um homem judeu ajoelhado de terno diante de uma vala. Atrás dele, um soldado nazista aponta uma arma para a sua cabeça enquanto tropas alemãs cercam os dois e os observam. A cena, registrada em uma das fotos mais impactantes do Holocausto, ficou conhecida como “O Último Judeu de Vinítsia” e permaneceu envolta em mistério por décadas. O contexto da imagem e a identidade dos homens eram, até então, desconhecidos.
Isso mudou há menos de um mês. O historiador alemão Jürgen Matthäus, que vinha reunindo as peças desse quebra-cabeça há anos, afirma ter identificado o atirador com a ajuda da inteligência artificial.
Matthäus descreveu a investigação como um “processo incremental”, combinando pesquisa em arquivos antigos, golpes de sorte, colaboração de colegas e a participação pioneira de voluntários do grupo de jornalismo Bellingcat, organização holandesa de investigação que atua em verificação de fatos e inteligência de código aberto. O grupo foi essencial para a identificação do soldado.
As primeiras descobertas
Os resultados, divulgados em setembro de 2025, são um desdobramento da pesquisa preliminar publicada no ano anterior, quando Matthäus revelou a data, o local e a unidade envolvida no tiroteio em massa, gerando grande repercussão na mídia alemã. A cidade ucraniana de Vinítsia apareceu no nome da foto por se acreditar que teria sido o cenário do crime, mas o pesquisador desmentiu essa informação.
De acordo com as descobertas, publicadas na revista acadêmica Zeitschrift für Geschichtswissenschaft (Jornal de Estudos Históricos, na tradução do alemão), o massacre perpetrado pela Schutzstaffel, a SS, ocorreu em 28 de julho de 1941, provavelmente no início da tarde, na cidadela de Berdychiv, localizada cerca de 90 quilômetros ao norte do que hoje se conhece como Vinítsia.
A fotografia foi tirada dias antes de uma visita de Adolf Hitler à cidade, que por séculos foi um importante centro da vida judaica. Para receber o líder, o Einsatzgruppe C, uma das unidades móveis enviadas às áreas recém-ocupadas da União Soviética, ficou responsável por eliminar judeus e combatentes locais, para "limpeza da região".
— Essas execuções em massa continuaram até o fim da ocupação alemã no Leste — afirma o pesquisador.

Família do atirador ajudou a identificá-lo
Após a divulgação da pesquisa do ano passado, um leitor entrou em contato afirmando acreditar, com base em correspondências antigas da família, que o atirador poderia ser o tio de sua esposa: Jakobus Onnen, nascido em 1906 na vila alemã de Tichelwarf, próxima à fronteira com a Holanda. Além de professor de francês, inglês e educação física, Onnen integrava a unidade que realizou o massacre registrado na foto.
As cartas de Onnen enviadas da frente oriental foram destruídas na década de 1990, mas familiares ainda possuíam fotos dele, que foram usadas pelos voluntários do Bellingcat para análises de imagem com inteligência artificial.
— Os especialistas em IA me disseram que, por ser uma foto histórica, é mais difícil alcançar uma correspondência de 98 ou 99,9%, como em trabalhos forenses contemporâneos. Ainda assim, a correspondência, segundo os técnicos, é excepcionalmente alta para esse tipo de análise — explicou Matthäus ao The Guardian.
Foto tirada para impressionar, diz Matthäus
O pesquisador considera quase certo que a foto do massacre em Berdychiv tenha sido tirada por outro soldado com o objetivo de impressionar, servindo como uma espécie de “troféu”. Onnen nunca ocupou cargos de destaque e morreu durante combate em agosto de 1943. Segundo o pesquisador, matar não conferia status especial dentro das unidades de extermínio.
A destruição das cartas pelo atirador impede compreender melhor a mentalidade de Onnen, mas familiares descrevem os textos como “banais”.
— Motivação é uma das perguntas mais difíceis de responder. Acho que a razão pela qual ele se retrata assim é para impressionar — afirma o pesquisador.
Onnen, que se filiou ao partido nazista antes de Hitler assumir o poder em 1933, vinha de uma família educada e, na juventude, gostava de “viajar e estudar idiomas”, disse Matthäus.
Memória e mais investigação
Atualmente, o historiador busca identificar a vítima ajoelhada. A inteligência artificial deve auxiliar caso surjam novas imagens do homem retratado.
— Esta claramente não é uma solução mágica, é apenas uma ferramenta entre muitas. O fator humano continua fundamental — afirma Matthäus.
Com apoio do pesquisador ucraniano Andrii Mahaletskyi, Matthäus utilizará arquivos soviéticos de comunidades locais. Em 1941, a cidade tinha cerca de 20 mil judeus; em 1944, eram apenas 15.
— Houve mais de um milhão de vítimas na União Soviética ocupada, e a maioria permanece sem nome, exatamente como os assassinos desejavam — concluiu.
O pesquisador defende que a foto é uma das mais interessantes do período, "porque mostra o assassinato direto, o confronto entre assassino e vítima".
Ele também afirma que fotos como essa e cartas como as do atirador enfraquecem a ideia de que a população alemã desconhecia os crimes cometidos:
— A enorme quantidade de fotos e cartas enviadas para casa desmonta o mito de que ninguém sabia do genocídio.
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