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Intoxicação por metanol em SP: tudo o que se sabe e o que falta esclarecer

Cinco mortes estão sob investigação. Polícia Federal apura a origem da substância, e Ministério da Saúde prepara nota técnica para orientar casos suspeitos

Murilo Rodrigues

Murilo Rodrigues

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Caso levantou dúvidas sobre como a substância foi parar em bebidas comercializadas em bares e adegas.

Os casos de intoxicação por metanol após o consumo de bebidas alcoólicas em São Paulo, revelados no último fim de semana, acenderam o alerta de autoridades de saúde e segurança. Até agora, cinco mortes estão sob investigação, além de uma outra já confirmada como ligada ao consumo das bebidas adulteradas. Até o momento, não há nenhuma notificação no RS.

Além disso, há pelo menos dez casos confirmados e outros 36 em análise, segundo dados da Secretaria Estadual da Saúde de SP. Um dos internados, desde quinta-feira (2), em Brasília, foi o rapper Hungria. No Brasil todo, são 60 notificações suspeitas.

O episódio levou o governo paulista a montar um gabinete de crise, interditar estabelecimentos suspeitos e intensificar a fiscalização. Em paralelo, o Ministério da Justiça determinou a abertura de inquérito pela Polícia Federal (PF) para rastrear a origem do metanol e apurar a possível participação de facções criminosas

O Ministério da Saúde, por sua vez, prepara uma nota técnica para padronizar a conduta médica e a definição de casos suspeitos.

A tragédia trouxe dúvidas sobre como a substância foi parar em bebidas comercializadas em bares e adegas, quais são os sintomas que diferenciam a intoxicação por metanol da ressaca comum, como funciona o tratamento e quais medidas estão sendo tomadas para evitar novos casos. 

A seguir, Zero Hora reúne as principais perguntas e respostas sobre o que já se sabe, e o que ainda precisa ser esclarecido (clique abaixo para ir até o tópico).

Intoxicação por metanol em SP:

Perguntas e respostas

1. Quantas mortes já foram registradas?

Até esta sexta-feira (3), o governo de São Paulo contabilizava seis mortes suspeitas relacionadas ao consumo de bebidas adulteradas com metanol. Apenas uma delas foi confirmada como oriunda da intoxicação.

São 60 notificações no Brasil até o momento. Em São Paulo, 42 casos são tratados com suspeitos, enquanto 11 são confirmados; uma morte também foi confirmada e cinco estão em investigação.

Pernambuco conta com cinco casos suspeitos e duas mortes em investigação. Distrito Federal e Bahia, ambos contam com um caso suspeito de intoxicação.

2. Como as intoxicações aconteceram?

As investigações apontam que falsificadores adulteravam garrafas de marcas conhecidas de gin, vodca e até uísque com metanol, substância altamente tóxica usada em solventes e combustíveis. Essas bebidas eram então revendidas em adegas e bares da capital paulista.

O grande risco é que o metanol não altera cor, cheiro ou sabor da bebida, o que impossibilita identificar a fraude de forma caseira. Muitas vítimas relataram acreditar que estavam apenas com sintomas de ressaca antes de perceberem sinais graves de intoxicação, como dor abdominal intensa e perda repentina da visão.

Na última segunda-feira (29), uma força-tarefa da Polícia Civil, da Polícia Federal e da Vigilância Sanitária realizou fiscalizações em bares da capital paulista onde havia relatos de consumo de bebidas contaminadas.

3. O que já foi apreendido até agora?

As operações de fiscalização realizadas em São Paulo desde o fim de semana resultaram em apreensões de grande volume de bebidas e materiais usados na falsificação. Segundo o governo estadual e o Ministério da Justiça:

  • 117 garrafas sem rótulo foram recolhidas em três bares da capital paulista na segunda-feira, durante ação conjunta da Polícia Civil, Polícia Federal e Vigilância Sanitária;
  • 50 mil garrafas de bebidas alcoólicas com suspeita de adulteração já tinham sido apreendidas em fiscalizações anteriores;
  • 15 milhões de selos fiscais falsificados também foram encontrados, reforçando a dimensão do esquema de adulteração e fraude.

As autoridades afirmam que as bebidas recolhidas passam por perícia para identificar em quais etapas da cadeia ocorreu a adulteração e de onde veio o metanol usado para o "batismo".

Vale ressaltar que, até o momento, as autoridades não divulgaram lista de bares ou estabelecimentos ligados às investigações.

4. O que é o metanol?

O metanol (CH₃OH) é um tipo de álcool simples, incolor, inflamável e de odor semelhante ao do etanol, mas altamente tóxico para o consumo humano. Também chamado de "álcool da madeira", porque no passado era obtido pela destilação de toras, hoje é produzido industrialmente, principalmente a partir do gás natural.

A substância tem uso legítimo em diversos setores:

  • fabricação de formaldeído (formol), tintas, solventes e plásticos;
  • presença em produtos de limpeza, como limpa-vidros e removedores de tinta;
  • matéria-prima para a produção de biodiesel, em processo conhecido como transesterificação;
  • já foi utilizado como combustível em carros de corrida e pequenos motores, em condições controladas.

Apesar dessas aplicações industriais, o metanol não deve ser ingerido nem usado em bebidas, pois pequenas quantidades já podem causar intoxicações graves, cegueira ou até a morte.

5. Qual a diferença entre etanol e metanol?

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Na prática, enquanto o etanol gera efeitos conhecidos da embriaguez, o metanol envenena as células.

Embora quimicamente parecidos, etanol e metanol têm efeitos completamente distintos no organismo humano. Ambos são álcoois incolores, inflamáveis e de odor semelhante, mas a diferença de apenas um átomo de carbono transforma o metanol em uma substância imprópria para consumo.

  • Etanol (C₂H₆O): é o álcool presente em bebidas como cerveja, vinho e destilados. Também é usado em antissépticos e como combustível. No organismo, é metabolizado em acetaldeído, que depois se converte em ácido acético (o mesmo do vinagre), substância que o corpo consegue processar. Em excesso, causa embriaguez, dependência e pode provocar doenças hepáticas e cardíacas;
  • Metanol (CH₃OH): é utilizado na indústria como solvente, em tintas, plásticos, combustíveis e na produção de biodiesel. No corpo, se transforma em formaldeído e depois em ácido fórmico, compostos que atacam o sistema nervoso, principalmente o nervo óptico, podendo causar cegueira, falência múltipla de órgãos e morte.

Na prática, enquanto o etanol gera efeitos conhecidos da embriaguez, o metanol envenena as células. Por não alterar o sabor, a cor ou o cheiro da bebida, sua presença é impossível de ser detectada por métodos caseiros.

Produtores clandestinos adicionam metanol para deixar as bebidas mais fortes e aumentar o rendimento a baixo custo. Um dos perigos é que os dois tipos de álcool apresentam gostos parecidos, e os sintomas de envenenamento podem demorar de 12 horas a 24 horas para se manifestarem. Ou seja, é difícil saber, no ato, que a contaminação está acontecendo.

6. O que o metanol causa no corpo humano?

O metanol é altamente tóxico porque, ao ser metabolizado, se transforma em formaldeído e ácido fórmico, substâncias que envenenam as células. Esses compostos atacam as mitocôndrias, responsáveis por gerar energia, e sobrecarregam especialmente o sistema nervoso central e o nervo óptico.

Os efeitos começam, em média, entre 12 e 24 horas após a ingestão, o que dificulta o diagnóstico precoce. Milhares de casos de intoxicação por metanol são registrados todo ano, conforme levantamento da instituição Médicos sem Fronteiras

A taxa de mortalidade é de 20% a 40%, dependendo da quantidade ingerida, do tempo de resposta e do tratamento administrado.

Inicialmente, os sintomas podem se confundir com os de uma ressaca comum, mas logo evoluem para sinais graves:

  • dor de cabeça intensa, náuseas e vômitos;
  • dor abdominal e cólicas fortes;
  • visão turva, manchas visuais e até cegueira irreversível;
  • confusão mental e convulsões;
  • dificuldade para respirar;
  • coma e falência múltipla de órgãos em casos severos.

Apenas 10 ml de metanol podem provocar cegueira permanente, enquanto doses maiores podem ser fatais. Quanto mais lento for o atendimento, maior o risco de sequelas irreversíveis.

7. Existe tratamento ou antídoto?

A eficácia depende da rapidez no atendimento médico. O metanol é metabolizado lentamente, o que permite que as toxinas se acumulem no organismo. 

Por isso, a recomendação é procurar emergência imediatamente ao primeiro sinal de intoxicação. Entre as opções de tratamento mais conhecidas estão:

  • Uso de etanol venoso ou fomepizol: ambos atuam como antídotos porque competem com o metanol no fígado, impedindo sua transformação em formaldeído e ácido fórmico;
  • Corretores de acidez, como bicarbonato, para reduzir os efeitos da acidose metabólica (excesso de ácido no sangue);
  • Vitaminas, como o ácido fólico, que ajudam a metabolizar o ácido fórmico;
  • Hemodiálise, em casos graves, para remover o metanol e seus metabólitos diretamente do sangue.

Não existem soluções caseiras eficazes. Por isso, atrasar o socorro aumenta significativamente o risco de cegueira permanente e morte.

8. O que diz o Ministério da Saúde?

Rafael Nascimento/Ministério da Saúde/Divulgação
Ministro da Saúde, Alexandre Padilha classificou a situação envolvendo bebidas adulteradas em São Paulo como "anormal".

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, classificou a situação em São Paulo como "anormal". Segundo ele, o Brasil costuma registrar cerca de 20 casos de intoxicação por metanol ao longo de um ano, geralmente ligados a situações de vulnerabilidade social ou ingestão acidental de combustíveis. 

Só em setembro, porém, o número foi quase alcançado apenas no Estado de São Paulo, e em circunstâncias diferentes: em bares, restaurantes e encontros sociais comuns.

— O país costuma ter 20 casos por ano de intoxicação por metanol. A partir de setembro, foi quase metade das notificações que costumam ter no ano e concentrado apenas em São Paulo, o que chama a atenção — destacou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Para orientar a rede de atendimento, o ministério prepara a publicação de uma nota técnica que vai padronizar o que deve ser considerado caso suspeito, os sintomas que merecem atenção e os protocolos de diagnóstico e tratamento. A ideia é agilizar a identificação em todo o país, sem esperar a confirmação laboratorial, para que médicos possam agir.

O Brasil conta hoje com 32 Centros de Informação e Assistência Toxicológica do SUS, distribuídos por todos os Estados, aptos a receber notificações e a apoiar profissionais de saúde. A pasta também emitiu um alerta nacional para reforçar a vigilância sobre intoxicações de origem desconhecida.

9. O que investiga a Polícia Federal?

A Polícia Federal (PF) abriu um inquérito para apurar a origem do metanol usado na adulteração de bebidas alcoólicas e verificar uma possível ligação com o crime organizado

— Na segunda-feira, determinamos ao doutor Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, que abrisse um inquérito policial para verificar a procedência dessa droga e a rede possível de distribuição que, ao tudo indica, transcende o limite de um único Estado. Tudo indica que há distribuição para além do Estado de São Paulo — afirmou o ministro da Justiça Ricardo Lewandowski.

Isaac Amorim/MJSP
Ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski exigiu abertura de inquérito policial.

Segundo o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, há indícios de conexão com investigações anteriores sobre a importação irregular de metanol pelo porto de Paranaguá (PR), que já haviam revelado esquemas de adulteração de combustíveis. 

A hipótese é de que parte dessa substância possa ter sido desviada para destilarias clandestinas e quadrilhas que falsificam bebidas.

Enquanto a Polícia Civil de São Paulo investiga bares e distribuidores locais, a PF trabalha de forma integrada com os órgãos estaduais e federais para rastrear a cadeia de fornecimento. A meta é identificar quem trouxe o produto ao país, como ele chegou às bebidas e se há participação de facções criminosas, como o PCC.

O Ministério da Justiça reforçou ainda que a apuração é prioridade e que os estabelecimentos flagrados com bebidas adulteradas serão notificados para informar fornecedores e rotas de distribuição.

Em entrevista ao programa Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, nesta quarta-feira (1º), o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, reforçou que ainda não descarta nenhuma linha de investigação no inquérito aberto há dois dias. O órgão analisará se houve erro na manipulação ou contaminação de forma proposital.

Instauramos esse inquérito considerando, em primeiro lugar, a possível conexão com investigações nossas recentes, em relação à cadeia de combustível e com o possível desvio de metanol, que é um produto lícito para o sistema de combustíveis. E também em razão da interestadualidade. Já falamos na possível ocorrência no Estado de Pernambuco. Não podemos descartar nenhuma hipótese — explicou Rodrigues.

10. Há relação com o crime organizado?

A possível participação de facções criminosas na adulteração de bebidas alcoólicas com metanol é um dos principais pontos em apuração. A suspeita ganhou força após a Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF) afirmar que o metanol usado nas bebidas pode ser o mesmo que vinha sendo importado ilegalmente pelo PCC para adulterar combustíveis

Segundo a entidade, o fechamento recente de distribuidoras e formuladoras ligadas ao crime organizado, que operavam com tanques cheios de metanol, pode ter levado o produto a ser desviado para destilarias clandestinas.

"Ao ficar com tanques repletos de metanol lacrados e distribuidoras e formuladoras proibidas de operar, a facção e seus parceiros podem eventualmente ter revendido tal metanol a destilarias clandestinas e quadrilhas de falsificadores de bebidas, auferindo lucros milionários em detrimento da saúde dos consumidores", disse a associação em nota ao g1.

Andrei Rodrigues, confirmou que há indícios de ligação com a cadeia de importação de combustíveis e que a investigação vai verificar se há conexão direta com facções. 

— Dentre as razões, a possível conexão com investigações recentes que fizemos agora, especialmente no Paraná que se conectou com outras duas em São Paulo em razão de toda a cadeia de combustível, uma parte disso passa pela importação de metanol pelo Paranaguá. Portanto, a necessidade de entrarmos nesse caso por essas razões. A investigação dirá se há conexão com o crime organizado — disse Andrei.

— Não posso dizer se essa investigação vai vincular a determinada organização criminosa. Nós vamos com muita parcimônia, muita responsabilidade, mas muito vigor também e firmeza para identificar os autores desse crime.

Carlos Macedo/Agencia RBS
Segundo o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, há indícios de conexão com investigações anteriores sobre a importação irregular de metanol.

A fala contrasta com a do secretário da Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite (PL), que chegou a descartar a participação do PCC.

Também em entrevista à Rádio Gaúcha, a diretora da Divisão Farmacêutica da Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), Andréia Kohout, relacionou os casos de intoxicação com bebidas alcoólicas com as operações de combate à fraude nos combustíveis.

— Existe um volume excedente de metanol recluso por conta dessas operações. E o número de intoxicações especificamente por metanol nesses últimos 15 dias aumentou de maneira alarmante — salientou Kohout, mencionando as ocorrências em São Paulo e Pernambuco.

A Receita Federal, porém, divulgou nota classificando como falsa essa correlação entre a adição criminosa de metanol em destilados e o desligamento do sistema de monitoramento SICOBE. O órgão esclareceu que o controle de bebidas como vodca, gin e uísque é feito por meio de selos fiscais, sem relação com o SICOBE, que monitorava principalmente refrigerantes e cervejas.

O religamento do sistema está sob análise do Supremo Tribunal Federal (STF), que concedeu liminar em mandado de segurança. A decisão citou parecer do Tribunal de Contas da União (TCU), que concluiu pela ausência de ilegalidade no ato da Receita e pela necessidade de descontinuação do SICOBE.

Na mesma nota, a Receita reforçou que vem atuando contra organizações criminosas que se valem de estruturas empresariais, destacando as operações Carbono Oculto e Cadeia de Carbono, que desarticularam esquemas envolvendo o desvio de metanol e outros combustíveis.

11. O que fez o governo de São Paulo?

Diante do avanço dos casos, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) anunciou a criação de um gabinete de crise para coordenar as ações de enfrentamento. O Estado também determinou a interdição cautelar de todos os estabelecimentos onde foram consumidas bebidas adulteradas com metanol.

— Há de fato um problema estrutural que não é só do Estado de SP, é do Brasil. Temos que pensar como fazer a fiscalização e diminuir a incidência dessas bebidas adulteradas, clandestinas — disse o governador.

A Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo informou que acompanha de perto os municípios e reforçou a recomendação para que bares e comerciantes redobrem a atenção com a procedência dos produtos, verificando rótulos, selos fiscais e lacres de segurança.

Desde o início das fiscalizações, já foram apreendidas 50 mil garrafas de bebidas com suspeita de adulteração e cerca de 15 milhões de selos fiscais falsificados. Em ações mais recentes, fiscais do Centro de Vigilância Sanitária (CVS) e da prefeitura de São Paulo recolheram 117 garrafas sem rótulo em bares investigados.

Segundo o governador, as medidas visam impedir novos casos e desarticular a cadeia clandestina de adulteração. A recomendação à população é clara: consumir apenas bebidas de origem conhecida e adquiridas em estabelecimentos regulares.

12. É possível identificar o metanol na bebida antes do consumo?

O metanol não altera a cor, o cheiro ou o sabor da bebida, o que torna praticamente impossível identificar a fraude de forma caseira. Por isso, não existe método doméstico confiável para detectar a contaminação.

luchschenF/adobe.stock.com
Não existe método doméstico confiável para detectar a contaminação.

A única forma de prevenção é a atenção à procedência:

  • Comprar apenas bebidas de fabricantes legalizados.
  • Conferir se há rótulo, lacre de segurança e selo fiscal.
  • Evitar produtos com embalagem suspeita, sem identificação ou vendidos a preços muito abaixo do mercado.

O Ministério da Saúde e a Secretaria da Saúde de São Paulo reforçam que, ao apresentar sintomas como dor de cabeça intensa, visão turva, cólicas fortes ou mal-estar persistente, a recomendação é procurar imediatamente uma unidade de emergência.

A farmacêutica Andréia Kohout explica que o consumidor deve ficar atento para o risco por conta da dificuldade de identificar o metanol na bebida, já que é um solvente que pode se misturar bem ao produto. 

Ela sugere que as pessoas verifiquem se não há nenhum depósito no fundo na garrafa ou copo, além de alterações no cheiro ou no sabor. Outro ponto levantado é a embalagem, principalmente no lacre, que não pode estar rompido.

— Evite se tem cheiro forte e sabor amargo ou se tem algo depositado no fundo da garrafa. As pessoas têm que se conscientizar que existe risco e que não tem como olhar o estabelecimento e saber se compra bebida de origem duvidosa. Além disso, o metanol, por ser solvente, é fácil de passar imperceptível, pois é límpido. Então, também tem que ficar atento a qualquer sinal após consumir a bebida.

13. Quais cuidados bares e comerciantes devem ter?

O Centro de Vigilância Sanitária (CVS) de São Paulo orienta que bares, casas noturnas, distribuidoras e comerciantes adotem medidas extras de cuidado diante da suspeita de bebidas adulteradas. Entre as recomendações estão:

  • Verificar a procedência de todas as bebidas comercializadas, guardando notas fiscais para eventual rastreamento.
  • Conferir se garrafas têm rótulo original, selo fiscal e lacre de segurança intactos.
  • Evitar a compra de bebidas em distribuidores sem registro ou a preços muito abaixo do mercado.
  • Manter registro de fornecedores para colaborar com a investigação em caso de fiscalização.

Estabelecimentos onde já foram identificadas bebidas suspeitas estão sendo interditados cautelarmente pelo governo paulista. A regra é clara: locais flagrados com irregularidades precisarão comprovar a origem dos produtos e poderão responder a processos criminais e administrativos.

14. Quais cuidados o consumidor deve ter?

As autoridades de saúde reforçam que a prevenção é a principal forma de proteção contra a intoxicação por metanol, já que não há como identificar a substância a olho nu ou pelo gosto da bebida. Para reduzir os riscos, a recomendação é:

  • Comprar apenas bebidas em estabelecimentos confiáveis e regularizados;
  • Conferir se garrafas possuem rótulo original, lacre de segurança e selo fiscal;
  • Desconfiar de produtos com preços muito abaixo do mercado ou embalagens adulteradas;
  • Evitar consumir bebidas servidas em locais sem licença ou de procedência duvidosa.

De acordo com o secretário Nacional do Consumidor, Paulo Henrique Rodrigues Pereira, até o momento, a contaminação com metanol foi registrada apenas em destilados.

— Nesta crise que nós estamos vivendo agora, que é a crise da contaminação do metanol, a gente não tem incidência ainda de que isso tenha acontecido com cervejas e vinhos — afirmou. Ele ainda aproveitou para reforçar que não há casos no Rio Grande do Sul.

Com isso, em caso de sintomas como visão turva, dor de cabeça intensa, cólicas fortes, confusão mental ou mal-estar persistente após a ingestão de álcool, a orientação é procurar imediatamente atendimento médico de urgência. Além disso, há canais de apoio que funcionam em todo o país:

  • Disque-Intoxicação da Anvisa: 0800 722 6001 (atendimento gratuito, 24 horas por dia);
  • Centros de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox): o Brasil conta com 32 unidades ligadas ao SUS, que podem orientar equipes médicas e atender diretamente a população;
  • Central de Informação Toxicológica do Rio Grande do Sul (CIT-RS): 0800.721.3000;
  • Centro de Controle de Intoxicações de São Paulo (CCI-SP): (11) 5012-5311 e 0800 771 3733;
  • 192 (SAMU): Para solicitar o atendimento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência;
  • Plataforma Busca Saúde, da Prefeitura de São Paulo, para localizar rapidamente a unidade de saúde mais próxima.

15. Por que os casos atuais preocupam tanto?

Segundo o Ministério da Saúde, a situação em São Paulo foge completamente do padrão. O Brasil registra, em média, 20 casos de intoxicação por metanol por ano, geralmente relacionados à ingestão acidental de combustíveis ou em populações em situação de vulnerabilidade.

Desta vez, no entanto, os episódios ocorreram em ambientes sociais comuns, como bares, restaurantes e encontros entre amigos. As bebidas adulteradas eram de marcas conhecidas, o que ampliou o risco para consumidores que não tinham motivos para desconfiar da procedência.

Além disso, o número de casos em apenas um mês já se aproxima da média anual nacional, o que levou o Ministério da Saúde a classificar o cenário como "anormal" e emitir um alerta nacional. A possibilidade de envolvimento do crime organizado e de distribuição em outros Estados aumenta a preocupação das autoridades.

16. Pode ocorrer em outros Estados?

As autoridades não descartam que a adulteração de bebidas com metanol vá além de São Paulo. Isso porque a PF acredita que há indícios de uma rede de distribuição interestadual, possivelmente ligada a esquemas ilegais de importação de metanol pelo porto de Paranaguá (PR). A instituição abriu um inquérito para investigar se a substância pode ter sido revendida para outros Estados, ampliando os riscos de novos casos. 

O Ministério da Saúde também emitiu um alerta nacional para reforçar a vigilância em todo o país e orientar profissionais de saúde a notificar imediatamente qualquer suspeita de intoxicação.

Por fim, o Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs) confirmou, nesta quarta-feira, que não há nenhuma notificação de intoxicação por metanol em bebidas alcoólicas no RS. Autoridades estão em alerta após confirmações de casos registados no país.

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