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Felca e "adultização": saiba o que aconteceu após a repercussão do caso levantado pelo youtuber

Influenciador provocou investigações, ações judiciais e discussões no Congresso e no Planalto sobre a regulação das redes sociais

Zero Hora

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Youtube/Reprodução
Influenciador fez denúncia sobre vídeos de Hytalo Santos no seu canal do YouTube.

Na última quarta-feira (6), o youtuber Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, publicou um vídeo de 50 minutos no YouTube, denunciando o que chama de "adultização" de crianças e adolescentes nas redes sociais. 

No material, que já supera 35 milhões de visualizações, ele aponta influenciadores que estariam expondo menores de idade em contextos sexualizados e detalha como, segundo ele, as plataformas digitais facilitam a circulação desse tipo de conteúdo.

A repercussão foi imediata. Em poucos dias, o caso virou assunto no país, gerando ações judiciais, investigações do Ministério Público da Paraíba (MPPB), debates no Congresso e declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a regulação das big techs. A seguir, veja tudo o que se sabe sobre o caso.

O caso Hytalo Santos e outros episódios 

O centro das acusações recai sobre o influenciador Hytalo Santos. De acordo com Felca, o paraibano teria retirado adolescentes da casa dos pais para viverem com ele e os exposto, frequentemente, em vídeos com roupas sensuais, consumo de bebidas alcoólicas e comportamentos de conotação sexual. Ele teve a conta no Instagram desativada na última sexta-feira (8).

Uma das adolescentes mencionadas teria iniciado a convivência com Hytalo aos 12 anos. Segundo as denúncias, ela passou a ser tratada como figura para gerar engajamento, chegando a fazer implante de silicone aos 17 anos e a aparecer em festas registradas nos conteúdos.

No vídeo, Felca também relembrou casos que marcaram debates sobre a exposição infantil na internet:

  • Bel para Meninas — canal que, em 2019, mostrava uma criança sendo constrangida pela própria mãe, situação que levou órgãos de proteção a intervirem por meio de uma ação judicial. A jovem defendeu os pais após a publicação do vídeo, chamando a história de fake news.
  • O de uma adolescente de 14 anos, cujas imagens sensuais eram publicadas e comercializadas em canal pago administrado pela mãe, com conteúdos posteriormente acessados por grupos de pedofilia.

Como funcionam as redes criminosas, segundo Felca

No vídeo, Felca também afirma que a exploração de menores na internet não acontece apenas por meio de perfis individuais, mas dentro de uma rede organizada que se aproveita das próprias ferramentas das plataformas para se expandir. 

Segundo ele, os chamados "algoritmos P", termo usado pelo influenciador para se referir aos algoritmos de recomendação, direcionam publicações com conotação sexual envolvendo crianças para usuários que já interagiram com esse tipo de material, criando um ciclo de exposição.

Felca também descreve códigos e sinais usados para facilitar a troca de imagens e vídeos ilegais:

— Você está vendo que eles estão falando trade? Essa palavra trade, em inglês, significa troca. Isso significa que estão procurando outros pedófilos para trocar conteúdo pornográfico de criança. O movimento que esses pedófilos fazem é abrir um desses perfis que estão pedindo troca, trades, seguir, enviar DM (mensagem direta) e compartilhar esses materiais.

Comentários com GIFs, menções a Telegram ou link in bio, segundo ele, indicam que criminosos mantém um perfil no aplicativo de mensagens para distribuição de material. O termo CP (sigla para Child Porn, pornografia infantil) também pode aparecer.

Ele aponta que, em alguns casos, os envolvidos utilizam combinações de símbolos, números ou emojis específicos para escapar de filtros automáticos de moderação.

Reações das autoridades

O Ministério Público da Paraíba (MPPB) já investigava Hytalo Santos desde 2024, após denúncia feita ao Disque 100 sobre possível exploração de menores em vídeos. 

Depois da repercussão do caso, a promotoria obteve na Justiça, na terça-feira (12), uma liminar determinando:

  • Suspensão de todos os perfis do influenciador nas redes sociais;
  • Bloqueio da monetização dos canais;
  • Afastamento imediato dos adolescentes que viviam com ele.

As investigações também miram pais e responsáveis que permitiram ou incentivaram a participação dos filhos nos vídeos. A apuração busca identificar se familiares receberam benefícios, como celulares, pagamento de aluguel e custeio de mensalidades escolares, em troca da exposição.

Segundo informações da Agência Brasil, a promotora Ana Maria França afirmou que moradores do condomínio onde Hytalo residia já haviam se queixado de filmagens até altas horas, com barulho, bebida alcoólica e cenas de teor sexual envolvendo menores.

(As reclamações eram) sobre conduta irregular dele com crianças e adolescentes, na produção de seus conteúdos, se estendendo até tarde e com barulho, muitas dessas filmagens envolvendo bebidas alcoólicas, além de cenas que tinham uma conotação sensual. Começamos a coletar provas, dados, documentos, porque o Ministério Público só age dentro dos ditames legais. Agora, a primeira fase do procedimento está concluída, com essa ação civil pública — disse a promotora.

Movimentação no Congresso e no Planalto

No Legislativo, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou prioridade para propostas de proteção de crianças e adolescentes nas redes. Em menos de uma semana, 32 projetos de lei passaram a tramitar na Casa, alguns criminalizando a "adultização" e outros proibindo a monetização de conteúdo com menores.

— O vídeo do Felca sobre a "adultização" das crianças chocou e mobilizou milhões de brasileiros. Esse é um tema urgente, que toca no coração da nossa sociedade. Na Câmara, há uma série de projetos importantes sobre o assunto. Nesta semana, vamos pautar e enfrentar essa discussão — disse Hugo Motta.

Um dos textos em discussão é o PL 2.628/2022, do senador Alessandro Vieira (MDB-SE), que obriga as plataformas digitais a criarem mecanismos para impedir a circulação de material que erotize crianças e prevê multas de até 10% do faturamento anual da empresa em caso de descumprimento.

O Colégio de Líderes da Câmara dos Deputados também marcou para a próxima semana uma comissão geral para debater o tema, com presença de parlamentares, especialistas e organizações da sociedade civil. O grupo terá até 30 dias para apresentar um texto sobre o tema.

— Assisti a um vídeo que me deixou sem palavras. Um vídeo que expôs de forma crua e dolorosa uma ferida aberta no Brasil: a "adultização" das nossas crianças. Ao ver aquelas imagens, a minha primeira reação não foi política, foi humana. Foi de um pai que se pergunta: que mundo estamos entregando para nossos filhos? — questionou Motta, conforme o Estadão.

Já no Executivo, o presidente Lula afirmou que enviará ao Legislativo um projeto de regulação das redes, defendendo a responsabilização das big techs pela circulação de conteúdos ilegais. Segundo o presidente, "quem não quer regulação está ganhando dinheiro com ódio, pedofilia e desinformação".

— Quem quer que não haja regulação são as pessoas que estão ganhando muito dinheiro com isso, porque tem gente que fala que é empresário, mas ganha dinheiro com a divulgação de quadros de pedofilia com criança, com ódio. Então nós vamos regular — afirmou o presidente em entrevista ao jornalista Reinaldo Azevedo, da Band News.

A bancada de oposição, liderada pelo PL, afirmou concordar com a criação de regras para combater a "adultização" infantil na internet. O deputado Domingos Sávio (PL-MG) destacou, porém, que o avanço dessa pauta não pode resultar em limitações à liberdade de expressão.

— Há até um consenso, e é absurdo que alguém não concorde, que o crime nas redes sociais tem que ser punido e tem que ter regras claras sobre isso. Agora, não é necessário e nós não podemos admitir que, sob o pretexto que nós vamos punir crime, nós cometemos outro crime contra a Constituição que é acabar com a liberdade de expressão — comentou.

Entenda a possível proposta

O grupo de trabalho criado pela Câmara terá 30 dias para apresentar um projeto consolidado contra a "adultização" infantil nas redes. 

Uma das possibilidades é de que o texto final reúna propostas já em tramitação, como o PL 2.628/2022, e novas medidas sugeridas após o caso Felca.

Entre os pontos discutidos estão:

  • Proibição da monetização de conteúdo produzido por menores;
  • Criação de mecanismos obrigatórios de detecção e bloqueio de material sexualizado com crianças e adolescentes;
  • Punições mais severas para quem explorar a imagem de menores na internet;
  • Responsabilização das plataformas pelo conteúdo hospedado.

Quem é Felca

Natural de Londrina (PR), Felipe Bressanim Pereira começou a produzir conteúdo em 2012, com vídeos de games. Aos poucos, passou a explorar o humor e, mais recentemente, críticas sobre a cultura digital. Atualmente, soma quase 20 milhões de seguidores no YouTube, TikTok e Instagram.

Entre seus vídeos mais conhecidos está o teste de um produto da influenciadora Virgínia Fonseca, que ultrapassou 19 milhões de visualizações. 

Felca também participou de debates sobre as "lives NPC" e, mais recentemente, se destacou por criticar influenciadores que promovem casas de apostas, especialmente após a participação de Virgínia na CPI das Bets.

Após a publicação sobre "adultização", Felca disse que passou a circular com carro blindado e seguranças.

 — Comecei a andar com carro blindado e segurança. Muitas ameaças, sim. A questão das bets, por exemplo, vieram muitas ameaças. A questão da "adultização" existe uma ameaça de processo. Provavelmente existe e a gente conta com isso, que vai existir alguns processos aí. Mas é o lado da verdade. Se ninguém fala, ninguém vai falar — declarou.

Felca contou ainda que a ideia do vídeo surgiu há um ano e que assistir às cenas denunciadas foi "terrível" e "aversivo".

— Eu realmente mergulhei no lamaçal. Foi muito aversivo fazer esse vídeo. É terrível a gente olhar essas cenas. Dá vontade de chorar, de vomitar, é terrível. Mergulhei no lamaçal. O que a gente está fazendo aqui é uma gota no oceano. Mas, sem essa gota, o oceano seria menor. Então, vale a pena fazer — comentou sobre a postagem que fez na última quinta-feira (7).

Quem é Hytalo Santos

Instagram / @hytalosantos/Reprodução
Hytalo Santos teve a conta no Instagram desativada.

Hytalo Santos é um influenciador digital paraibano que construiu uma audiência milionária com vídeos curtos no Instagram e TikTok, muitas vezes mostrando festas, brincadeiras e interações com adolescentes. 

Natural de Cajazeiras, interior da Paraíba, a convivência com eles era mostrada diariamente no perfil, e os menores, chamados por Santos de "minhas crias" viraram personagens nos conteúdos dele. As investigações do MPPB indicam que parte dessas gravações incluía situações inadequadas para menores de idade.

Com mais de 20 milhões de seguidores antes da suspensão de suas contas, Hytalo, em uma conta reserva, negou irregularidades e afirma colaborar com as autoridades.

— Saiu como se fosse uma coisa de agora, mas não é. A gente coopera com o Ministério Público. Algumas pessoas não entendem, a gente tem uma família, mas não é uma família padrão — declarou.

A empresa Meta, controladora do Instagram, disse que não comenta casos de contas específicas. Já a defesa de Hytalo não foi localizada.

*Produção: Murilo Rodrigues


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