Pouca coisa mudou na BR-290 nos últimos anos: a rodovia que atravessa o Rio Grande do Sul de leste a oeste segue praticamente sem trechos duplicados, ainda tem problemas estruturais e motiva reclamações de usuários.
A reportagem de Zero Hora percorreu 630 dos 726 quilômetros da rodovia, saindo de Porto Alegre no dia 30 de junho e chegando a Uruguaiana em 2 de julho. Enquanto problemas recorrentes, como a má condição do asfalto, reduziram, outros permanecem, como a falta de iluminação, desníveis em pontes e, principalmente, lentidão nas obras de duplicação. O trabalho que já dura mais de 12 anos pouco avançou nos últimos tempos.
De Eldorado a Pantano Grande, duplicação segue em ritmo lento
O primeiro trecho percorrido pela reportagem foi entre Porto Alegre e Cachoeira do Sul. Nesse segmento está em andamento o aguardado projeto de duplicação da pista, que deve se estender de Eldorado do Sul a Pantano Grande. Até agora, 28 quilômetros foram duplicados, restando outros 115.
Toda parte duplicada está entre Butiá e Pantano Grande, que compreende os lotes 3 e 4 do projeto:
- Do km 193 ao 207, liberado em abril de 2026
- Do km 214 ao 228, liberado desde 2024
Além da pista duplicada, este trecho tem boa sinalização, iluminação, asfalto em boas condições, passarelas de pedestres e um viaduto sobre o acesso a Pantano Grande.
O marceneiro Lisandro Lemos da Rosa mora em Porto Alegre e utiliza a BR-290 de três a quatro vezes por ano para visitar os pais em Rosário do Sul.
— Se fosse duplicada, uma vez em cada dois meses eu iria lá, não tenha dúvida. Só que se torna cansativo com a pista simples, mal sinalizada, cheia de buraco. Cansa muito a viagem — lamenta.
Entre Eldorado do Sul e Butiá não existe um poste de iluminação. Há desnível entre a pista e o acostamento. O asfalto até não apresenta problemas críticos, mas tem desníveis e ondulações, principalmente a partir de Arroio dos Ratos.
Obras paradas
Pelo caminho, se vê obras iniciadas em 2014 e que hoje estão interrompidas, como um trecho de 1,7 quilômetro junto à ligação com a RS-407, em Charqueadas, e parte de um viaduto sobre o acesso a Arroio dos Ratos.
Duas etapas previstas para o primeiro semestre deste ano atrasaram. O Ministério dos Transportes previa para a primeira semana de maio a retomada da duplicação do lote 2, entre Arroio dos Ratos e Butiá, parada há 10 anos. Quando a reportagem passou pelo trecho de 30 quilômetros, no fim de junho, não havia sinal de obra.
Segundo o governo federal, faltaram recursos. Ao colunista de GZH Jocimar Farina, o ministro George Santoro garantiu que o trabalho se iniciará "em breve".
Além disso, estava prevista para o final de junho a duplicação de mais 11 quilômetros do lote 3 e outros quatro quilômetros do lote 4, o que também não se confirmou.
O que diz o Dnit
Sobre as obras, o departamento enviou nota à reportagem no começo de junho:
Sobre a duplicação da BR-290, o Lote 1 encontra-se em fase de elaboração de anteprojeto dos serviços remanescentes e adequações necessárias. Após sua conclusão será realizada uma nova licitação. E o Lote 2 está na fase final de lavratura do termo de acordo para retomada do contrato paralisado.
A partir da retomada dos contratos dos Lotes 1 e 2, que depende da finalização dos tramites administrativos citados acima, estima-se um prazo de aproximadamente 32 meses para a conclusão das obras.
Já o Lote 3, a etapa de projetos já foi concluída, com obras em andamento nos perímetros urbanos de Butiá e Minas do Leão, entre o km 174 e o km 183.
No Lote 4, a etapa de projetos também já foi concluída, as obras estão em andamento na ponte sobre o Arroio Capivarí, no km 207.
Trecho entre São Gabriel e Rosário do Sul tem piores condições
A partir de Cachoeira do Sul, a estrada é toda de pista simples. No entanto, é boa a qualidade do asfalto até São Gabriel. Parte do trajeto foi feita antes do amanhecer, o que fez chamar a atenção, novamente, a ausência de iluminação.
Os problemas mais críticos na pista, no entanto, são notados entre São Gabriel e Rosário do Sul. Em alguns trechos o asfalto se encontra esburacado, com ondulações e desníveis. Usuários afirmam que essa parte é hoje a pior da rodovia para andar.
Bruno Coelho, motorista da secretaria de saúde de Santana do Livramento transporta pacientes, muitas vezes em estado crítico, para São Gabriel.
— Obviamente, uma estrada ruim interfere diretamente na nossa segurança, primeiramente. Estrada com buraco, com ondulações, impacta diretamente na nossa segurança e também na do paciente — afirma.
Na entrada de Rosário do Sul, a ponte sobre o Rio Santa Maria é outro destaque negativo. A má qualidade do asfalto preocupa motoristas, que precisam reduzir a velocidade para evitar acidentes. O agricultor Marcos Cardoso conta que já teve um pneu furado no local:
— A situação de cortar pneu é frequente, não é só o meu caso como de outros veículos também.
A preocupação dos moradores não é apenas em relação ao pavimento, mas também à estrutura da ponte. No início do ano passado, o Dnit realizou um estudo a pedido da prefeitura e concluiu que não há risco de desabamento.
Equipes contratadas pelo órgão federal realizam manutenção da estrutura desde o segundo semestre de 2025. Conforme ofício enviado pelo Dnit ao município, estão sendo feitos serviços como limpeza, reparos nas vigas e recomposição dos drenos. Posteriormente será feita a troca do pavimento. A previsão inicial era de concluir essa etapa no primeiro trimestre deste ano, o que não se confirmou.
Desníveis em pontes e obra longa na fronteira
O trecho final da BR-290 mostrou melhora no asfalto. Alguns trechos entre Rosário e Alegrete ainda apresentam desgastes e ondulações. A boa qualidade da pavimentação foi um aspecto positivo, enquanto o desnível na cabeceira das pontes foi observado como um risco, reforçado por relatos de usuários.
Principalmente na altura de Alegrete são diversas pontes secas ou sobre arroios menores, muitas delas num nível inferior ao da rodovia, formando um degrau.
Esse aspecto é atualmente o mais preocupante para o caminhoneiro Márcio de Castro, que teve seu caminhão danificado há cerca de oito meses por conta do obstáculo.
— Vinha vindo em uma velocidade normal da via e quando chegou na cabeceira da ponte, que é apertada ali, simplesmente foi um solavanco que abriu um feixe de mola — relembra.
A BR-290 termina na Ponte Internacional, em Uruguaiana, ligando Brasil e Argentina sobre o Rio Uruguai. É uma das principais entradas do país para chilenos, argentinos e caminhoneiros que realizam rotas internacionais. Segundo dados da Receita Federal, apenas em junho 21.683 caminhões fizeram a travessia.
Desde maio a ponte passa por obras de manutenção que devem durar ao menos dois anos. As intervenções com impacto no trânsito devem começar em setembro, com bloqueios parciais e fluxo intercalado (pare e siga). A expectativa é que os congestionamentos se agravem durante o verão, quando aumenta o fluxo de turistas argentinos rumo às praias gaúchas e catarinenses. O investimento previsto é de R$ 59,1 milhões.
Sem perspectivas para duplicação total

Se a conclusão das obras de duplicação entre Eldorado do Sul e Pantano Grande ainda é distante, não há atualmente perspectiva de vermos toda a rodovia duplicada. A BR-290 (sem considerar a freeway, entre Porto Alegre e o Litoral) é o único trecho de ligação entre Buenos Aires e São Paulo que tem pista simples.
A implementação de uma nova faixa de Cachoeira do Sul até Uruguaiana não foi incluída no Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do governo federal. Parlamentares e entidades empresariais atuam para tentar fazer a ideia sair do papel.
Para o presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga e Logística no Estado do Rio Grande do Sul (Setcergs), Delmar Albarello, a rodovia não acompanhou as mudanças no transporte.
— Hoje nós temos veículos com 30 metros de comprimento e que carregam 48 toneladas de carga mais o peso do veículo. Os equipamentos evoluíram, tudo evoluiu e a estrada não. Tempo é muito dinheiro porque são mercadorias envolvidas, são veículos de alto valor, pessoas envolvidas, risco de acidente. Está comprovado que a duplicação reduz em 90% os acidentes fatais — analisa.


