Nove em cada 10 empresas ouvidas por uma pesquisa da KPMG têm um canal de denúncias. Em uma a cada quatro chegam menos de quatro relatos por ano. Isso indica que a organização vai bem ou que a ferramenta é pouco confiável?
O Radar de Inovação de GZH conversou com Aline Deparis, CEO e cofundadora da Privacy Tools, empresa de Porto Alegre criada em 2019 que ajuda organizações a cuidar da privacidade e da proteção de dados. Ela explica como uma empresa pequena pode ter um canal de denúncias que funcione sem montar uma estrutura cara.
Isso ganha força com a nova regra sobre saúde mental nas empresas, a NR-1. As companhias precisam identificar, prevenir e reduzir riscos à saúde mental no trabalho, como assédio, metas abusivas e jornadas excessivas. O Supremo Tribunal Federal (STF) prorrogou, em 25 de setembro, o prazo para que as empresas comecem a ser multadas, mas a norma continua valendo.
Para a CEO da Privacy Tools, a plataforma é a parte mais simples: o que sustenta um canal de denúncias é a confiança dos funcionários, construída com um comitê que trate os relatos, garantia de anonimato e mudanças visíveis na empresa. Ela defende que o canal seja encarado como um "termômetro de cultura", e não apenas como cumprimento da NR-1.
— O software você implementa, mas a confiança você não, você constrói, você conquista — diz.
Radar de Inovação
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Para quem não é do meio, o que muda na prática entre receber uma denúncia por e-mail ou por planilha e usar uma plataforma?
A tecnologia surge justamente por isso. Ter a informação é poder de decisão, na minha opinião. No passado, recebíamos as denúncias por e-mail, por telefone. Agora, posso me valer de diversas tecnologias, como a inteligência artificial, para tomar decisões mais assertivas sobre as denúncias que chegam.
Eu sempre falo que o canal de denúncia é um termômetro de cultura. Não basta ter uma plataforma implantada: é preciso utilizar esse canal efetivamente. E, mais do que isso, ele precisa gerar mudanças na companhia.
Uma indústria com 80 funcionários, sem RH estruturado, quer começar amanhã a se adequar à NR-1. Quais são os três requisitos mínimos para ter esse canal?
A plataforma atende tanto uma empresa gigantesca quanto uma pequena. Entregamos hoje uma solução na modalidade SaaS. O que a empresa precisa é criar um comitê. No momento em que implanta o canal, é preciso ter um comitê de ética para receber as denúncias e garantir ao time que não haverá retaliação. O time precisa confiar, senão não vai denunciar.
Eu sempre provoco: ter um canal de denúncias e zero denúncias é sinônimo de que a minha empresa está boa? Não necessariamente. A provocação é justamente essa: é preciso ter um comitê que receba as denúncias, garanta que elas serão tratadas e gerem mudança, e que faça as pessoas se sentirem confortáveis e, sobretudo, confiantes para denunciar. Aí, sim, teremos resultados.
Se a empresa não tem RH, precisa ter algumas pessoas de confiança que saibam receber essa informação, que muitas vezes é sensível, guardá-la e tratá-la em prol não só de quem denuncia, mas também da companhia. É preciso ter cuidado com os dois lados.
Quanto custa, na ponta, essa ferramenta para uma empresa de cem funcionários?
Entendemos o custo para a empresa analisando a média de denúncias que ela pode ter. É um custo muito baixo, talvez uma mensalidade na casa de R$ 200 ou R$ 300. Nem sei se chega a tudo isso, considerando que ela não terá um volume muito grande de denúncias.
Mas, mais do que isso: estamos falando de uma plataforma que vamos implementar, mas também da confiança que os colaboradores precisam ter para realizar suas denúncias, sobretudo para atender à NR-1. Eles precisam se sentir confortáveis e seguros ao fazer isso, e isso é muito importante. Você se sentiria confortável ao fazer uma denúncia ou ficaria preocupado? "Poxa, vou denunciar a Aline, como será que ela vai reagir se descobrir que fui eu? Será que essa informação não vai vazar?"
O software você implementa, mas a confiança você não implementa, você constrói, você conquista. E esses são os pilares que você me perguntou: precisa de uma plataforma? Precisa. Mas precisa de um comitê que vá analisar a denúncia e gerar uma mudança a partir do momento em que a recebi. Uso você como exemplo para que quem nos acompanha consiga associar isso.
No fim de setembro, o Supremo Tribunal Federal prorrogou por mais 90 dias a suspensão das multas da NR-1 sobre riscos psicossociais, como assédio. Para o dono de uma empresa pequena que corria para se adequar, o que muda?
Acho que não muda nada, na minha opinião. Temos mais 90 dias, mas não estamos falando de algo só regulatório. Você mesmo falou no início que 93% das empresas já têm canal de denúncia. Então não é só sobre ter o canal, e sim como ele está sendo utilizado. Justamente por isso a provocação. Ele está pouco utilizado e, eventualmente, pode não gerar confiança nos funcionários para denunciar.
Se você pega esse dado de 93% que já têm o canal, cai para 79% o de funcionários que dizem confiar. E, se olhamos pelo viés da empresa, 73% realmente utilizam o canal em prol da gestão. Ou seja, vamos perdendo pontos percentuais.
Sendo muito transparente, não muda. Por que não muda? Porque estamos olhando para o nosso principal ativo, o colaborador, que faz a nossa companhia todos os dias. O canal de denúncia não é só sobre a NR-1. Se a empresa cumpre a NR-1, isso tem de ser consequência: preciso atender bem o meu colaborador, respeitá-lo, dar os canais adequados. A NR-1 vai ser consequência, assim como a LGPD e qualquer outro marco regulatório que temos no país.
A Lei 14.457 obriga as empresas que têm Cipa a manter um procedimento de denúncia de assédio sexual e violência, com anonimato garantido. Nas empresas que vocês atendem, ainda aparece quem não cumpre?
É difícil dizer, porque trabalhamos com uma plataforma e as informações são de propriedade das companhias. Dados públicos, como os da KPMG, demonstram que as denúncias de assédio cresceram.
Na minha percepção, isso não se deve só à tecnologia, que é mais segura, porque é preciso garantir que a denúncia não vai ser descoberta no caminho. Há também uma maturidade maior: as pessoas estão mais maduras para fazer essas denúncias. Muitas vezes me dizem: "Mas, Aline, se as denúncias diminuem, significa que o problema foi resolvido?". Não podemos ser tão simplistas.
Essa é a minha opinião: seja assédio sexual ou qualquer outra denúncia que recebamos, precisamos entender de onde vem, qual é o setor, do que trata, qual é o conteúdo, se há reincidência. Volto ao ponto principal: atender o ser humano, o colaborador na sua totalidade.
Uma empresa teve 581 atestados por transtornos mentais identificados pelo Ministério Público do Trabalho entre 2019 e 2025. Um canal com privacidade e anonimato permitiria identificar o problema antes de ele chegar à Justiça?
Se as pessoas denunciam, e a empresa dispõe de canal e de comitê, é importante que o colaborador se sinta seguro para denunciar e para acompanhar a mudança que vai acontecer a partir dali.
Num caso como esse, em uma empresa hipotética, se ela tivesse recebido várias denúncias, analisado a reincidência e usado a tecnologia e a informação em prol de uma tomada de decisão, na minha percepção, sim, teria minimizado o risco de chegar a uma instância superior, como o Ministério Público. Quando se usa a plataforma da maneira como ela se dispõe a entregar a solução, é possível prever, não deixar a crise acontecer e agir de maneira proativa. Digamos que fossem 500 denúncias e que 250 pessoas tivessem feito essa denúncia: era, no mínimo, um ponto de atenção para os recursos humanos. Enfim, algo há ali para ser analisado, com certeza.
Na pesquisa da KPMG, 84% das empresas ouvidas acham que têm um canal eficaz, mas 25% delas recebem menos de 12 relatos por ano. Falta confiança nesses canais?
Pode ser que sim. Pode ser que, em alguns casos, esteja faltando confiança. Mas não só isso. O pessoal muitas vezes fala: "Aline, vou comprar agora a plataforma da Privacy Tools e implementar. Resolvi o meu problema?". Não. Ter uma plataforma disponível não é sinônimo, de maneira alguma, de resolver o problema, se é que ele existe.
Você inicia o trabalho, precisa conscientizar, e as pessoas trocam de emprego, saem da companhia. Quem assistiu ao treinamento sobre canal de denúncia ontem pode não estar mais aqui hoje. Então o RH precisa mostrar continuamente ao time que existe o canal, que é importante usá-lo, que ele está disponível. Ao implementar a tecnologia, é preciso buscar o que mencionei, que é o que construímos: a confiança. Há um trabalho ainda maior com os times para que entendam que esse canal vai gerar a mudança que esperam.
A KPMG também aponta que 45% das empresas ouvidas divulgam amplamente as consequências das denúncias. O que a empresa precisa mostrar aos funcionários depois de uma apuração para o canal ser usado?
É preciso demonstrar que a denúncia é anônima, que a apuração de todo o conteúdo será feita e que as informações não vão vazar. Muitas vezes se recebem denúncias com informações sobre salários, dados sensíveis, e tudo isso precisa de muito cuidado. Volto àquele ponto: quem vai ser o seu comitê de ética? Quem vai analisar esse conteúdo? Vai ser um terceiro?
E, na minha opinião, as empresas precisam demonstrar as mudanças que estão propondo enquanto recursos humanos, a área responsável pelas pessoas. Costumo dizer, e acredito muito nisso, que as pessoas precisam ficar no centro da companhia. Para quem o RH responde? Na minha opinião, para todo mundo, porque atende a todas as áreas. Por isso, essa área precisa estar no centro. Assim, o time vai perceber por si só o quanto ela é importante, vai se sentir mais à vontade e ter liberdade. A partir disso vem a geração das mudanças, que é o que precisamos apresentar às pessoas.
Existe uma lenda de que o anonimato atrapalha a apuração das denúncias. É lenda mesmo ou é real?
É fundamental que mantenhamos o anonimato. Há a própria LGPD, que trata de dados sensíveis, e é preciso cuidar de quais dados vamos repassar. Você precisa tratar a denúncia e o contexto dela, mas saber se foi a Aline, o Luís, o Pedro ou o Paulo pode não fazer diferença. O importante é entender que houve um assédio naquele contexto. Se aconteceu com o X, com o Y ou com o Z dentro da companhia, acho que não importa, porque é preciso tratar os colaboradores de maneira igualitária. Então, dizer que o anonimato atrapalha, acho que não: não há necessidade. E temos de cuidar dos dados e da maneira como lidamos com eles.
Eu defendo o anonimato, defendo o canal de denúncia que tenha toda a segurança para que o colaborador, no fim do dia, tenha muita tranquilidade para denunciar.
A proteção do dado anônimo é sempre polêmica: há quem diga que é possível identificar o IP, o horário, cruzar com a localização. O que a plataforma de vocês faz com esses registros?
Já temos, na própria plataforma da Privacy, a anonimização. No momento em que a denúncia sobe, não é possível rastrear de onde ela veio, de maneira alguma, salvo se a pessoa colocar o nome dela ou algo do tipo. Hoje garantimos que não há como descobrir quem fez a denúncia a partir do que foi escrito na plataforma.
E o que a Privacy faz que outras empresas que oferecem canal anônimo com protocolo e conversa nos dois sentidos não fazem?
Nascemos aqui no Rio Grande do Sul, somos uma empresa gaúcha, mas não exclusivamente: estamos em todo o Brasil e expandindo inclusive para o mercado do Chile. Quando nascemos, olhávamos para a gestão de cookies, para a privacidade raiz, para brincar um pouquinho. A empresa foi crescendo e percebemos que não basta olhar para dados isoladamente: é preciso ter todo o ecossistema. Governança e compliance passaram a permear o que já vínhamos desenvolvendo.
Por isso começamos a olhar para a solução de canal de denúncia, para a governança de IA, para o ESG, porque, voltando ao que já falamos, há muita informação e é preciso tomar uma decisão. Uma única plataforma, e não ferramentas isoladas em contextos isolados, facilita para a alta gestão tomar uma decisão mais assertiva, porque ela tem todas as informações. E, com todas essas informações, consegue minimizar ou antever alguns riscos. No exemplo que você contou, se houvesse um canal de denúncias e 250 pessoas tivessem feito a mesma denúncia, fatalmente a empresa teria condição de tomar uma decisão mais assertiva.
Então, o nosso diferencial é entregar essa suíte completa, atendendo a todo um ecossistema, para que quem precisa decidir, e que responde com o próprio CPF pelo risco da companhia, tenha todas as informações e uma matriz para tentar reduzir os riscos que podemos evitar em algumas situações e devemos evitar em muitas.
O site descreve a solução como voltada a grandes empresas, e o material que recebemos fala em empresas de todos os portes. Quem é o cliente típico do canal de denúncias?
Hoje, o nosso cliente típico da Privacy Tools, como um todo, são empresas enterprise. A própria RBS é nossa cliente. Quando as pessoas acessam o GZH, por exemplo, a gestão de cookies, de consentimentos e de direitos do titular é toda da Privacy Tools. O nosso maior portfólio de clientes são empresas enterprise. Então o cliente típico, tanto para privacidade quanto para governança de ESG e igualmente para canal de denúncia, acaba sendo empresa enterprise, sim.
O que são empresas enterprise?
É uma categoria que criamos com empresas que têm mais de mil funcionários. Foi o que selecionamos como enterprise. Mas você me perguntou: "Aline, você só atende empresas com mais de mil funcionários?". Evidentemente que não. Quando desenvolvemos a solução, já a desenvolvemos de maneira modularizada. Ou seja, se você amanhã inicia a sua empresa e quer contratar apenas um módulo, só o canal de denúncia, por exemplo, e tem 15 funcionários, isso é possível.
Temos hoje, no portfólio, clientes com 10 funcionários que prestam serviços para grandes corporações e acabam se preocupando com a privacidade, afinal são operadores ou cooperadores. Então acabam contratando mesmo sendo pequenas empresas. Por sermos uma empresa que entrega módulos, posso atender uma grande, uma média ou uma pequena empresa. A Privacy está completamente preparada, em suporte e em treinamento, e entende a realidade da pequena empresa. Muitas vezes uma companhia com mil funcionários tem comitê, RH, jurídico, departamento de governança. Numa empresa pequena, muitas vezes o jurídico é externo, o DPO é terceiro, o RH é terceiro, mas é muito importante que ela também tenha o canal de denúncia.
Valorizamos isso e temos uma metodologia para atender essas pequenas empresas, porque elas chegam com uma estrutura diferente da de uma grande, que tem um time gigantesco para assumir e implementar a plataforma.
Você veio de Viadutos, cidade com pouco mais de 4 mil habitantes, e hoje lidera uma empresa de Porto Alegre, sendo mulher numa área em que o machismo estrutural é bastante forte. Se o dono ou a dona de uma empresa pequena aqui do Rio Grande do Sul ouvir só uma coisa sua, o que deve ser?
Coragem para empreender. Não é porque você é de Viadutos, de Porto Alegre, de São Paulo, ou porque teve a oportunidade de estudar em Harvard: as portas estão aí, o sol brilha para todos, sendo muito clichê, mas é algo em que acredito muito. Sair de uma cidade do interior, ser filha de pais agricultores, me dá muito orgulho. Vou muito a Viadutos até hoje. Na minha percepção, boas raízes formam boas árvores. Não interessa onde você nasceu ou onde estudou: eu estudei sempre em escola pública e hoje estamos à frente da Privacy Tools. É algo que muito me orgulha, mas que vem com muita responsabilidade.
Então, coragem, empreendam, vão em frente, tirem as ideias do papel. Há mercado para todo mundo. Não desistam. Tive 2 milhões de oportunidades de desistir, ou 10 milhões e uma, e a Privacy Tools está aí.
A expectativa de faturamento é de R$ 20 milhões?
É isso. A expectativa é fechar este ano com esse valor. Somos uma empresa que está no mercado atuando efetivamente, ainda considerada uma startup, mas na trilha do venture capital. Temos alguns investidores a bordo, e isso em cinco anos de operação.
A empresa tem um pouquinho mais de história, mas costumo brincar que, nos primeiros anos, éramos três: eu, o meu sócio fundador, que é o Marison, e o CNPJ. Os primeiros anos foram de desenvolvimento da plataforma. São cinco anos efetivos, em que temos cliente, faturamento, funcionário, uma empresa como diz no dicionário, como deve ser. Então vamos em frente, coragem: o Brasil precisa de empreendedorismo.























