O que são cidades inteligentes, ou "smart cities"? Esse conceito nasceu no final dos anos 1990 ligado à tecnologia, mas se expandiu: atualmente, uma cidade inteligente é aquela que melhora a vida dos seus cidadãos com modelos que mesclam ferramentas de gestão, segurança, operações urbanas eficientes e soluções inovadoras — com tecnologia.
É essa leitura que as arquitetas e urbanistas Ana Paula Wickert, doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pela Atitus, e Grace Tibério Cardoso, professora da Escola Politécnica da Atitus, aplicam a Passo Fundo. O Parque da Gare, entregue à população em 2016, usou o conceito de cidade inteligente no novo projeto. Dez anos depois, ele se tornou uma referência de intervenção urbana planejada com participação popular.
No Radar de Inovação, programa do canal de GZH no YouTube, Ana Paula e Grace defenderam que o conceito de cidade inteligente começa antes da tecnologia: é necessário entender o território, ouvir as pessoas que vivem nele e sustentar as decisões em dados.
— Eu sempre falo isso: se cada um varrer a sua calçada, a gente já tem uma cidade que é bem mais inteligente. A calçada é um espaço de uso público, porém de gestão privada — quem cuida dela é o proprietário do terreno — afirma Ana Paula Wickert.
Elas apontam o corpo técnico reduzido das prefeituras e a falta de georreferenciamento na maioria das cidades gaúchas como os principais obstáculos para desenvolver — uma fragilidade escancarada pela crise climática — e lembram que a iniciativa não precisa partir do poder público, como no bairro Petrópolis, em Passo Fundo, onde os próprios moradores levaram ao prefeito o projeto de qualificação de uma área verde.
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Vamos começar pelo tema mais abrangente: o que são as cidades inteligentes, as smart cities?
Grace Tibério Cardoso — O conceito começou lá na década de 1990, relacionado muito mais às tecnologias. Mas, desde 2010, mais ou menos, ele foi ampliado para a inclusão das pessoas. Porque não faz sentido trabalhar com tecnologia, dados e informação se não for para trazer benefício para as pessoas — ou seja, trabalhar com os dados reais, as evidências, e trazer melhores condições de vida.
Quando se começou a falar em smart cities, a primeira associação era com Wi-Fi aberto para todo mundo: o parque tem internet, então é um parque inteligente. Mas não é bem isso?
Ana Paula Wickert — Não, não é bem isso. E o conceito vem se ampliando, como a Grace comentou, porque a tecnologia está muito em voga. Os primeiros congressos em que a gente participava eram muito de apresentar tecnologias: vamos supor, um sistema de coleta de resíduos sólidos em que você tem tudo rastreável, pesado, com acompanhamento de todo o processo. Depois isso vai avançando e chega naquilo que realmente é importante — como a tecnologia, ou como as soluções inteligentes, melhoram a qualidade de vida das pessoas. É isso que importa lá na ponta. A gente já passou essa fase de só falar em tecnologia quando se fala em smart cities. Agora se fala nesse entendimento mais complexo de todas essas variáveis e em como isso pode melhorar a gestão pública, muito mais como processo de gestão, e resultar lá na ponta na melhoria da qualidade de vida do cidadão.
E como o caso do Parque da Gare se conecta a esse conceito?
Ana Paula Wickert — O Parque da Gare é uma experiência bastante relevante para o Rio Grande do Sul e para o Brasil, porque entrou dentro de um programa mais complexo, financiado pelo Banco Interamericano, que se chamava Prodin, e acabou se tornando uma intervenção pensada e estruturada a partir de um diagnóstico urbano, em primeiro lugar. Então o entendimento do território já é uma questão de ser inteligente: entender o território e entender onde deve ser feita a primeira intervenção.
Ele nasceu disso, desse plano. Depois, o projeto foi construído todo com participação comunitária. Tivemos várias audiências públicas, análises, conversas com o Ministério Público, a participação de todos os entes da cidade. E, quando ele foi implantado, nós entendemos que esse parque tinha que atender o maior número de pessoas e de grupos sociais. Como era uma área muito abandonada, violenta, degradada, nós preenchemos ele com muitos usos. Lá dentro foi criada uma biblioteca parque, que depois se converteu no Prisma, espaço de inovação.
O lago é da época da ferrovia. Foi feita toda uma parte ambiental de despoluição das nascentes, desligamos todas as redes de esgoto que jogavam água ali. Muita gente não sabia nem que essa parte do parque existia. Quando nós fizemos a vistoria, na primeira visita do prefeito com a comunidade e com a imprensa, as pessoas chegaram lá embaixo e falaram: “aqui é parque também”. Elas só viam a parte de cima, porque ele tem um desnível importante.
Nessa reconstrução, temos ali a feira do produtor, que ganhou um prédio novo e assumiu essa parte da gestão a partir da comunidade rural, que são famílias. Temos A Gare Complexo Gastronômico, que é a revitalização da estação férrea. Ela foi licitada e é uma parceria entre poder público e iniciativa privada — um sucesso imenso. Terminamos o parque em 2016 e, desde 2019, essa gestão privada vem sendo acompanhada pelo poder público. É um complexo gastronômico que transformou a cidade até em polo atrativo de turismo, com a valorização do patrimônio. E temos agora uma escola de música lá dentro. Então é um parque muito denso em termos de programa, envolve a comunidade e devolveu para a cidade um espaço que era praticamente abandonado.
O que diferencia uma revitalização que leva em conta o conceito de cidade inteligente de uma obra que apenas troca o calçamento e coloca postes?
Grace Tibério Cardoso — Do ponto de vista da arquitetura e do urbanismo, na verdade não deveria existir essa diferença, porque qualquer intervenção tem que ser pensada e projetada para a segurança das pessoas, para trazer acessibilidade. A gente tem sempre que verificar o que está sendo demandado pela população. Claro, algumas obras que são maiores vão depender de outras iniciativas e ações para que a gente entenda melhor como aquele território está acontecendo. Mas é importante sempre ter essa comunicação com a população.
Dou um exemplo também de Passo Fundo: na requalificação dos canteiros centrais da Avenida Brasil, houve uma questão relacionada ao piso podotátil, que precisou ser colocado novamente porque, na época, não havia sido conversado com o pessoal da associação [VERIFICAR] para fazer certinho, como precisaria ser para as pessoas que necessitam desse elemento para se locomover, as que têm deficiência visual.
Então precisa sempre ter esse cuidado com a população. Se a gente não conversa, se a gente não traz a população para essa discussão, eles não se sentem incluídos. E acaba que acham que aquilo não é para eles. E, na verdade, é para eles e é deles. Então é importante que participem desse processo de decisão também.
Pergunta de Eduarda Costa, repórter da redação integrada de GZH Passo Fundo: aqui na cidade a gente tem dois bons exemplos de cidades inteligentes, que são o Parque da Gare e a estação, onde hoje há um espaço de gastronomia. Pensando no futuro, que outros locais da cidade a gente poderia explorar com esse conceito para também valorizar a nossa cidade?
Ana Paula Wickert — O importante é a gente partir de um entendimento do diagnóstico da cidade. E talvez seja isso que faz o parque ser tão diferente: foi feito um grande diagnóstico da cidade, com a identificação dessas áreas e de todos os elementos e variáveis que compõem uma intervenção em cada área. O Parque da Gare foi dado como prioritário, mas esse plano aponta vários outros espaços e territórios que podem receber intervenções e que igualmente qualificariam a vida pública da cidade.
A gente já vê, por exemplo, o que foi feito no campo do quartel, que também era um espaço diagnosticado ali. O Parque do Banhado da Vergueira é um parque ambiental que também surgiu nesse diagnóstico. São espaços que têm características diferentes, não seguem o mesmo modelo. A ideia não é criar um padrão que se repita, e sim criar uma forma de entender o território e as pessoas a partir de dados e de informações. Na Gare, a gente teve acompanhamento ambiental, teve todo esse diagnóstico com informações precisas: a água estava poluída, depois do parque a água estava despoluída.
Mas Passo Fundo, assim como várias cidades médias, tem muitos territórios que podem ser regenerados. A Gare chama atenção porque era um território central, então foi regenerada. Mas tem espaços que são novos, que nunca tiveram uso e que também podem receber essas intervenções. O ideal é pensar isso de forma a atender a população. Eu não sou muito de usar conceitos e termos definitórios, não é questão de cidade em 15 minutos, mas a ideia de que cada um tem que ter um parque a dez minutos da sua casa move, por exemplo, a Dinamarca, que é a maior referência em espaços públicos no mundo hoje, junto com Nova York. O ideal seria a gente pensar numa escala de território, identificando essas áreas potenciais e fornecendo esses territórios de uso público a dez minutos a pé de cada casa. E aí a gente vai indo para os bairros.
Grace Tibério Cardoso — É o caso do bairro Petrópolis, ali em Passo Fundo. Depois do sucesso do Parque da Gare, foram pensadas outras alternativas, outras ações, que estão chamadas agora de multigares, justamente considerando essa distribuição dos espaços verdes qualificados para a população. Isso que a Ana pontuou, de que a gente precisa conhecer o território e saber quais são as demandas da população que mora ali, é o que faz com que a gente também traga a população para essa participação.
No bairro Petrópolis era uma área verde. E a área verde, quando não é utilizada de acordo com o que a gente imagina, acaba se tornando uma área perigosa, de descarte de lixo, uso de drogas. A população do entorno se reuniu, o meu vizinho, que é topógrafo, falou: “eu vou fazer aqui o levantamento”. Então ele fez o levantamento e eu fiz o projeto. A gente fez isso de forma voluntária, porque é a nossa ação como cidadãos e participantes, e apresentamos para o prefeito. Ele abraçou a ideia. Foi uma demanda da população. Então a gente não precisa necessariamente esperar vir do poder público: a gente pode e deve demandar essas questões de acordo com a necessidade. As obras já começaram e tem outros pontos em andamento também em outros lugares.
A qualificação desses espaços verdes está relacionada ao bem-estar, à sustentabilidade, à prática desportiva, à mobilidade ativa. A conexão com o espaço verde também traz os animais. Tem um estudo bem interessante de Barcelona em relação a isso. Então tem muita coisa que a gente precisa ainda explorar nessa temática.
Ana Paula Wickert — Passo Fundo tem também a questão da aliança empresarial, que é outro exemplo bem interessante, com um pouco da referência do Instituto Caldeira. Existe um silo e um moinho, e eles ocuparam o moinho com essa ideia de trazer inovação. A gente trabalhou ali para eles com o estudo de criar um distrito de inovação naquele entorno. Esse espaço é contíguo à Gare: havia a estação férrea, os trilhos e, logo em seguida, o silo e o moinho.
Hoje esse espaço está sendo utilizado com essa pegada mais da inovação, com várias empresas, empresários da cidade que se reuniram para fazer o investimento e revitalizar o prédio. Nós já fizemos um estudo em conjunto com a prefeitura para criar estratégias de fomento para que empresas da área de inovação se instalem naquele entorno. A gente está trabalhando em várias frentes, mas sempre pensando com dados, com análises, e trazendo exemplos que possam ser referências para cidades médias.
A participação popular é um ponto interessante, porque é possível imaginar alguém em casa pensando na própria cidade: eu também quero um parque perto de casa, quero que a pracinha ali perto seja desenvolvida, que tenha um espaço de brinquedo, que o lago seja revitalizado. O que vocês diriam para essa pessoa que quer ser um cidadão ativo nesse planejamento urbano?
Grace Tibério Cardoso — Falando da minha experiência, é começar a conversar com quem mora ao nosso redor, mostrar que aquele espaço tem importância, recolher o lixo mesmo, plantar árvores novas, cuidar do espaço. Meu marido até fazia a limpeza ali, levava a cortadora. Quer dizer: não esperar alguém fazer. Ir lá e mostrar com o exemplo que é possível. A gente vê vários casos também em São Paulo, de lugares que as pessoas olhavam e diziam “era um lugar abandonado, tinha problemas de lixo”, e começaram a plantar árvores, e aí já tem uma área reflorestada. Então é ter ação mesmo, ter atitude. E uma delas é, principalmente, cuidar do seu próprio lixo. Acho que cuidar da sua própria entrada já é um bom começo.
Ana Paula Wickert — Eu sempre falo isso, já fui até taxada de chata em outras entrevistas, porque a minha fala sempre era assim: se cada um varrer a sua calçada, a gente já tem uma cidade que é bem mais inteligente. Cuidar da sua calçada, porque a calçada é um espaço de uso público, porém de gestão privada — quem cuida dela é o proprietário do terreno.
Mas eu gosto de destacar um aspecto. Tem dois âmbitos aí: nós temos comunidade e temos poder público. A comunidade percebe a cidade como um todo, ela experiencia a cidade como um todo, ela sai na rua e tem a experiência conjunta de tudo aquilo. Então ela nota que falta alguma coisa, nota que está difícil de pegar um ônibus para o trabalho, que o ônibus atrasa, que talvez não tenha conforto para esperar aquele ônibus, vê que tem uma lâmpada queimada. Ela percebe a cidade como um todo. E qual é a maior dificuldade das cidades hoje em termos de gestão? É que a gestão ainda é fracionada: uma secretaria troca a lâmpada, a outra pinta a faixa de segurança, a outra pensa o projeto, e algumas vezes não há transversalidade entre esses elementos. A pessoa que está lá na ponta vê a cidade como um todo, mas quem cuida cuida de cada parte, e aí a gente nunca consegue chegar num resultado que seja efetivamente transformador.
É aí que entram as estratégias de tecnologia que vão ser mais proveitosas na gestão pública. Se a gente conseguir ter uma gestão mais integrada, uma gestão que consiga cruzar as informações, o resultado para o cidadão vai ser muito melhor. Hoje já tem a possibilidade de ter aplicativos em que você manda essas informações e pede sugestões. Porque a gente também tem que ter o cuidado: às vezes a gente diz que as pessoas têm que sair fazendo, e elas fazem o que não devem. Então tem que ter um equilíbrio aí.
E é importante entender que, às vezes, um prefeito diz que vai investir em tecnologia para gestão e as pessoas falam que isso não é importante, que o importante é a saúde, é a educação. Mas, para ter saúde organizada, para ter educação organizada, a tecnologia está aí facilitando muito. Central de matrícula, central de consultas. Essas estratégias hoje são fundamentais para uma cidade que quer ser inteligente. É não ter que fazer a pessoa ir dez vezes ao serviço para pedir um exame. Então é pensar a tecnologia não só no espaço público, como a internet, e sim como alguma coisa que agiliza o atendimento às demandas da comunidade.
Estamos em contexto eleitoral e quase sempre os políticos buscam projetos ligados a serviços — mais escolas, mais postos de saúde, mais obras viárias. Nem sempre essas políticas públicas estão diretamente conectadas com profissionais da arquitetura e do urbanismo, que são qualificados para transformar as cidades não só em espaços de convivência, mas em espaços úteis para toda a população. Como arquitetos e urbanistas podem contribuir para o debate público?
Ana Paula Wickert — Você acabou de dizer qual é a nossa profissão: arquiteto e urbanista. Então eu sempre digo que quem entende dessa parte de infraestrutura de cidade é o urbanista, obviamente com o suporte dos engenheiros, porque tem toda uma parte de infraestrutura que é domínio da engenharia.
Mas uma coisa que nos impacta muito enquanto profissionais — e eu já estou há bastante tempo no mercado — é que tem muitas cidades que ainda não têm nenhum arquiteto e urbanista trabalhando. O Rio Grande do Sul tem cidades médias e pequenas. Passo Fundo é uma cidade média, mas tem 200 e poucos mil habitantes, não é como São Paulo, que tem cidades de 600, 800 mil. E a gente tem aqui cidades de 30 mil habitantes que sequer têm um arquiteto no corpo técnico.
Esse entendimento de que a cidade é um elemento com diversas forças, com diversos interesses, é o que a gente chama de uma ciência social aplicada da arquitetura e urbanismo: a gente tem que entender a demanda técnica, mas também a demanda social, cultural, o aspecto da preservação. É uma complexidade que só esse profissional tem, e isso ainda é muito deficiente. As cidades que têm corpo técnico têm um corpo técnico pequeno, e às vezes não é um corpo técnico que tenha empoderamento para levar essas decisões.
Eu vejo que a gente tem uma fragilidade grande em termos de dados, de georreferenciais, de informações. Porque ir para a rua, olhar, diagnosticar, isso a gente faz sem tecnologia. Mas a gestão lá na ponta, fazer um plano de macrodrenagem, saber que áreas da cidade alagam agora com esses problemas todos do aquecimento global, isso você precisa de dados. E, para isso, tem tecnologia. Se não tivesse, é uma situação. Mas tem.
Grace Tibério Cardoso — Isso que a Ana pontuou sobre o corpo técnico reduzido faz com que as prefeituras não consigam, por exemplo, rever o plano diretor, que é uma questão muito importante para saber como a cidade precisa se desenvolver e para ampliar essa questão das áreas de risco. E, às vezes, elas fazem a licitação, contratam empresas que nem conhecem a cidade, e trazem propostas que não são a realidade. Esse é um problema muito sério, que acontece em vários lugares. Por isso é muito importante que se invista mais nessa questão do corpo técnico mais qualificado, mais empoderado, como a Ana pontuou, e que eles tenham possibilidade de realmente discutir com a população as demandas que são necessárias.
Ana Paula Wickert — Porque, se o corpo técnico é pequeno, ele passa apagando incêndio e não consegue planejar. E o planejamento urbano é uma ferramenta extremamente importante, ele deve ser feito. Eu defendo muito essa parceria entre prefeituras e universidades, porque a universidade pode produzir dados e fornecer para a gestão pública, para ela entender se, de fato, fazer uma ciclovia funcionou ou não funcionou, se as pessoas estão usando ou não estão usando. A gente tem que responder isso também, entender se esses projetos que estão sendo feitos estão sendo absorvidos pela comunidade. As pessoas estão usando? Quem está usando? Esse diagnóstico todo pode muito bem ser fornecido pelo meio acadêmico.
Falta uma política de Estado sobre isso? A gente tem o Estatuto da Cidade, uma série de documentos e leis que já passaram.
Ana Paula Wickert — Falta, falta. Quando eu estive na gestão pública, nós tínhamos que atender algumas demandas que vinham do governo federal para poder receber recursos. Todas as cidades tinham plano de saneamento, plano de mobilidade, mas isso fica solto. Agora, vivendo, por exemplo, essa crise climática, nós não temos georreferenciamento. A maioria das cidades do Rio Grande do Sul não tem georreferenciamento, então não se tem certeza, segurança sobre o território.
O que é georreferenciamento?
Ana Paula Wickert — Georreferenciamento é quando você tem um sobrevoo que vai fotografar o teu território. Todo mundo conhece o Google Earth: seria um Google Earth com as medidas, com os dados e as informações geolocalizadas. Então a gente consegue saber e acompanhar onde é que tem área de fragilidade ambiental, onde estão as nascentes. Você pode georreferenciar tudo, pode georreferenciar até o poste e o bueiro. É um modelo digital da cidade. Está muito em alta agora falar dos gêmeos digitais.
Para que serve isso? Não é que vai substituir a nossa vivência, porque arquiteto e urbanista tem que caminhar na cidade, tem que olhar os problemas, tem que ver como as pessoas estão usando a cidade e, principalmente, quem não está usando. Não é só olhar quem está usando, é ver quem não está. Isso também é fundamental. Mas eu preciso ter esse modelo para poder trabalhar. Eu não estou mais nos anos 1970, quando a gente usava mapa desenhado à mão. Se a gente tem essa tecnologia, isso tem que vir, no meu entendimento, como uma política de Estado. Porque é caro de fazer, então os prefeitos adiam essa documentação, e aí vai indo. Agora, nesse trabalho todo de regeneração do Estado a partir das cheias, se a gente tivesse mais dados, seria mais fácil de trabalhar, mais ágil de responder.
E políticas de Estado como o georreferenciamento de várias cidades juntas, ou um planejamento urbano que envolva regiões metropolitanas — o planejamento de Esteio parecido com o de Sapucaia do Sul, para que daqui a pouco não se tenha um trânsito enorme passando na BR-116?
Ana Paula Wickert — Sim, tem que ter sinergia, porque o território termina aqui, o político termina aqui, mas às vezes a parte... Por exemplo, eu estou fazendo um estudo para uma cidadezinha chamada Caseiros. Não tem nem 3 mil habitantes. Tem mais de 400 municípios do Estado que recebem água nascida em Caseiros. Então vocês imaginem se lá em Caseiros ninguém se preocupa com nada, porque o território é contíguo. Não tem como. A gente precisa ter esse entendimento regional. Posso ter falado 400 errado, que agora não vou lembrar, mas é muito município. Acho que 70% dos municípios recebem de alguma forma a água que nasce lá.
Grace Tibério Cardoso — Existem pesquisas que trabalham principalmente essa questão das cidades em sistema, não apenas a questão de tráfego, de mobilidade, mas também a dos recursos hídricos, do saneamento, justamente para que se tenha conservação do ambiente, conservação da água, e para que tudo isso acabe não impactando de forma negativa apenas em um ponto. Então é muito importante essa questão de a academia fornecer essas evidências, com esses dados, para que o gestor consiga ter essa visualização e consiga tomar decisões mais acertadas.
Para quem está em casa e quer se qualificar sobre cidades inteligentes, que leitura, podcast ou vídeo vocês recomendam?
Ana Paula Wickert — Vai ficar difícil a sua pergunta. Hoje em dia tem muitas instituições que trabalham com isso, empresas inclusive. Depende de qual ramo das cidades inteligentes a pessoa quer se aprofundar, se é na parte mais de tecnologia, de intervenções em ruas inteligentes ou de mobilidade. Eu leio tanta coisa que não sei nem recomendar, mas naturalmente tem as bibliografias clássicas. A gente vai dizer o Jan Gehl, que fala muito da cidade para as pessoas, o que na verdade resulta em soluções de cidades inteligentes. O escritório dele tem uma fundação hoje que publica vários livros, e a gente pode ir se atualizando com isso. Não é só o livro original dele, tem várias publicações atuais. Tem outros pensadores da área também, mais da economia, que tratam sobre isso.
Grace Tibério Cardoso — Pode recomendar também a leitura da ONU-Habitat, que fala justamente de construção de cidades inteligentes centradas nas pessoas, de 2022, se eu não me engano. Não vou ter certeza se tem a versão em português, mas em inglês com certeza. E aí qualquer inteligência ajuda ali na leitura também. Existem também algumas normas, as ISO, que estão relacionadas a cidades inteligentes e resilientes, se eu não me engano, desde 2019.
Ana Paula Wickert — Eu gosto também de pesquisar cidades. Milão, por exemplo, é uma cidade que a gente estudou muito a fundo e que está usando várias estratégias de smart cities em diversos campos. Gênova também. A Itália está com um programa bem expressivo de cidades inteligentes. Então dá para pesquisar: essas cidades normalmente têm sites que explicam todas as ações que estão sendo feitas. Pittsburgh, nos Estados Unidos, também é uma cidade que está se desenvolvendo a partir de estratégias de cidades inteligentes. Como é um tema muito atual, tem as bibliografias conceituais, mas eu gosto muito de ver o que as cidades estão produzindo nesse sentido. Milão vale muito a pena dar uma olhada no que está sendo feito.
Vocês querem convidar as pessoas a visitar o Parque da Gare e divulgar as redes sociais de vocês?
Ana Paula Wickert — A gente quer convidar. O Parque da Gare ganhou prêmios, ficou entre os 20 melhores projetos de urbanismo do Brasil pela ArchDaily [VERIFICAR], foi capa da revista Projeto. É um parque que já está com dez anos agora, ele é de 2016, e, se vocês forem lá hoje, ele vai estar tão bonito quanto estava, ou até mais. Agora as árvores já cresceram. A gente plantou até erva-mate lá. Vale a pena ir visitar. E a minha rede social é o meu próprio nome, Ana Paula Wickert. Mas eu tenho um portal também, que chama ARQ Atualiza, onde a gente produz conteúdo sobre arquitetura e urbanismo. Então, ARQ Atualiza no Instagram.
Grace Tibério Cardoso — No meu caso, o meu perfil pessoal é grace.cardoso. E eu tenho um também que chama Fofoca Técnica, arroba fofoca técnica. Isso surgiu justamente numa disciplina em que a gente conversava sobre conceitos e depois dizia: vamos aplicar isso, vamos fofocar tecnicamente sobre as questões relacionadas à cidade. Então surgiu o perfil Fofoca Técnica, e lá a gente fala principalmente dessas questões de cidade, urbanismo, arquitetura, mas de uma forma mais leve, mais tranquila, porque a fofoca tem justamente essa prerrogativa de ser fácil e de ser disseminada mais facilmente também.


















