
A estratégia de lançamento do aguardadíssimo GTA 6 — que em sua edição de mídia física não terá um blu-ray, mas um código de download dentro da caixa — parece ter sido o empurrão que faltava para uma mudança profunda no mercado de games. A partir de janeiro de 2028, a Sony deixará de produzir discos de seus jogos para PlayStation e trabalhará apenas com versões digitais, que são baixadas da internet.
Essa decisão pegou parte do mundo gamer de surpresa por ser uma ruptura com a experiência tradicional. Para fontes ouvidas por Zero Hora, além da questão da nostalgia, o movimento deverá impactar o varejo e a experiência do consumidor.
Segundo comunicado da Sony, fabricante do videogame, a decisão é "uma direção natural" para a empresa, visando a "se adaptar às tendências de consumo, visto que a preferência geral por mídias digitais supera significativamente a demanda por discos físicos".

Daniel Donizetti dos Reis, criador do site independente MeuPlayStation, com mais de 3 milhões de seguidores nas redes sociais, verificou essa tendência em pesquisas com usuários do portal. Em 2016, 80% preferiam games em mídia física, tendência que se inverteu em 2024, com 70% mais voltados ao formato digital.
Esse processo já se reflete no console mais recente da Sony: o PlayStation 5, lançado em 2020, chegou nos formatos com e sem leitor de disco. Já o PlayStation 5 Pro, que saiu no final de 2024, não veio de fábrica com o suporte para mídia física — é possível comprar o dispositivo separado para acoplar no aparelho.
Hoje, games do PlayStation em mídia física e digital custam o mesmo valor no lançamento: em média, R$ 399,90 para um título classificado como AAA, ou seja, uma grande produção. A versão digital é uma compra única, e não uma assinatura.
Com a mudança, a Sony deverá ter uma redução no custo de produção e distribuição dos discos, mas ainda não está claro se essa economia será repassada aos consumidores.
Discos de games movimentam mercado
Mesmo que as estatísticas mostrem uma redução de consumidores dos discos, os números do console da Sony são enormes: o PlayStation 5 vendeu 94 milhões de unidades. A minoria dos usuários que prefere a mídia física ainda representa milhões de pessoas.
— Com essa mudança, fica evidente que nós, consumidores, não temos mais o direito de possuir (os jogos). Só temos uma licença de uso, em que você compra o direito de jogar o jogo por um tempo determinado — observa Reis, do site MeuPlayStation. — Se a Sony perder o direito de uso do jogo, ela vai remover de sua biblioteca e pronto.
Atualmente, diz ele, quem tem versões físicas de títulos como Ghost of Tsushima, Hogwarts Legacy ou Spider-Man poderá jogá-los enquanto o blu-ray e o equipamento permanecerem funcionais. Os discos podem ser colecionados, emprestados ou até mesmo revendidos — e há todo um mercado voltado para isso.
A Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Digitais Eletrônicos (Abragames) teme pela memória dos jogos para a posteridade. Em nota enviada a Zero Hora, a entidade afirma: "A distribuição exclusivamente digital pode representar um grande problema para a preservação dos jogos no futuro".

Impacto no varejo
Com 11 lojas no Rio Grande do Sul e três no Rio de Janeiro, a B&B Games é referência na venda de consoles e discos de games. A empresa ainda trabalha com troca e revenda, o que possibilita que jogadores comprem títulos seminovos com preços mais em conta.
— Essa ausência que vai ter das mídias físicas prejudica bastante as vendas, principalmente no mercado de seminovos. Se nós, que somos loja grande, vamos sentir o impacto, imagina as menores — analisa Gilberto Bitelo, supervisor de vendas da unidade do Barra Shopping Sul da B&B Games, que se chama B&B Shop.
Outro ponto que acendeu um alerta nos jogadores é a concentração da venda em apenas um lugar: hoje, os jogos digitais do PlayStation são comercializados apenas na plataforma PlayStation Store. Já a mídia física está presente em inúmeras lojas do setor, o que estimula concorrência e abre possibilidade de garimpar preços mais baixos.
Segundo a Abragames, há jogos que possuem componentes online e dependem inteiramente de servidores para funcionar. "Se esses servidores forem encerrados porque o ciclo de vida daquele produto chegou ao fim, todo o investimento feito pelo consumidor naquele jogo também deixa de existir", diz a entidade em nota.

Mudança não é ilegal, diz advogado
O advogado e professor especializado em direito digital Juliano Madalena afirma que esta será uma mudança de modelo de negócios "extremamente relevante": o usuário passará a adquirir uma licença para jogar um título específico. Com isso, o aspecto tangível deixa de existir.
— É o fim do sentimento de ser proprietário — resume Madalena.
O especialista acredita que, quando o usuário adquirir um jogo na PlayStation Store, será informado o tempo de licença para usufruir aquele game e se pode ser renovado.
— A simples eliminação da mídia física não representa nenhum tipo de comportamento ilícito ou ilegal — avalia o advogado. — Por outro lado, a expectativa que o consumidor possui em relação à aquisição de produtos intangíveis no mercado digital deve ser esclarecida em seus pormenores.
Experiência de jogo "de classe mundial"
Procurada pela reportagem, a Sony Interactive Entertainment não respondeu à solicitação de entrevista.
Em comunicado no blog oficial da PlayStation no Brasil, a empresa afirma: "Essa transição nos permitirá alinhar melhor com a maneira que a maior parte da nossa comunidade joga e acessa seus games atualmente".
A nota acrescenta que a transição "não afeta jogos que já foram lançados, ou que serão lançados, em formato de disco antes de janeiro de 2028".
"Continuaremos priorizando nossos recursos para trazer inovações na maneira como os jogadores acessam os jogos e para oferecer opções sobre onde adquiri-los, seja em revendedores parceiros ou na PlayStation Store. Seguimos comprometidos em proporcionar uma experiência de jogo de classe mundial aos nossos fãs e agradecemos pelo apoio contínuo", conclui o texto.





