A inteligência artificial já é usada por sete em cada dez brasileiros, mas apenas um em cada cem a considera muito confiável.
Essa contradição está no centro da pesquisa "Alívio e Desconfiança: a dupla postura brasileira diante da inteligência artificial", conduzida por Melissa Resch e Samantha Schreiber, jornalistas especialistas em branding e sócias da VOZ Colab e da VOZ Unfold, plataforma de estudos de comportamento e tendências de consumo. O levantamento foi feito em parceria com a empresa The Glass Room, por meio da pesquisadora Amanda Brandão. A pesquisa ouviu mais de 600 pessoas em cinco regiões do país.
O tema ganha urgência em um país que está entre com maior índice de uso de IA no mundo, com 71% da população utilizando IA generativa, acima da média global, segundo pesquisa realizada pelo Google em parceria com a Ipsos — a média global é de 66%.
Referências
O estudo revela um paradoxo: 44% dos entrevistados dizem sentir alívio ao usar a tecnologia, ao mesmo tempo em que cresce a desconfiança sobre a qualidade das respostas, a pressão para dominar o assunto e a dúvida sobre a própria capacidade — 58% já duvidam de si mesmos na hora de criar algo sem o apoio da ferramenta.
No podcast Radar de Inovação, em GZH, as pesquisadoras discutem os efeitos da IA na produtividade, na educação, na informação e até na saúde mental.
— Antes do super-humano, a gente precisa resolver o humano, que já não está bom. Enquanto sociedade, a gente está muito ansiosa, está muito doente. A gente já não dá conta do que tem — Melissa Resch, sócia da Voz Colab.
Leia a entrevista completa
O que motivou vocês a fazer essa pesquisa e entender como brasileiros e brasileiras estão se comportando diante da IA?
Melissa Resch — A Voz Colab é uma empresa que trabalha criando marcas, desde estratégias de posicionamento e identidade visual até estratégias para a comunicação cotidiana das empresas. Para isso, a gente precisa entender de tendências de consumo e comportamento, entender o que as pessoas estão fazendo e pensando. A Voz existe há cerca de 10 anos, atendendo empresas de todo o Brasil e de fora também. Em outubro do ano passado, decidimos abrir esses estudos para quem quiser participar e criamos a Voz Unfold, uma plataforma de estudos que hoje já é uma comunidade online, onde fazemos estudos de comportamento e tendências para entender a relação das pessoas com fenômenos contemporâneos. Usamos resgate teórico — teorias de antropologia, filosofia, sociologia — como insumo de qualidade para pensar esses fenômenos. E a inteligência artificial hoje é um deles. O Brasil é o segundo maior usuário de IA no mundo, com 54% da população usando IA generativa, acima da média global. A gente queria entender como as pessoas estão se relacionando com essa tecnologia — porque a IA não é uma ferramenta, mas nos traz muitas ferramentas.
Samantha Schreiber — A inteligência artificial já era um tema muito caro para a gente, algo que vínhamos debatendo e estudando, principalmente os impactos num sentido mais sociológico e de comunicação, olhando para esse novo ecossistema informacional que se cria. Foi um caminho natural que esse primeiro estudo aberto e público fosse sobre esse tema, ainda mais olhando para o contexto global e pensando em entender quais são esses sentimentos, como os brasileiros estão se relacionando com um tema tão novo, com tanta informação desencontrada — todo mundo está falando, mas às vezes está todo mundo meio perdido.
A pesquisa mostra que as pessoas usam os modelos de linguagem para resolver tarefas do dia a dia e melhorar a produtividade, mas com desconfiança sobre a credibilidade dos dados e uma ansiedade de produção. Por que "alívio" e "desconfiança" ao mesmo tempo?
Melissa Resch — Alívio, na verdade, foi uma palavra usada pelos entrevistados. A gente tinha uma pergunta que questionava o que você mais sente ao usar a IA, com uma larga quantidade de possíveis respostas. A maioria, 44%, disse sentir alívio. Ao mesmo tempo, as pessoas estão vigilantes em relação a isso. Se a maioria usa para escrever, tem um dado muito interessante: 58% já duvidam de si mesmas para criar alguma coisa. Sentem que o raciocínio fica incompleto se não usarem inteligência artificial.
Vocês também sentem isso no dia a dia de vocês?
Melissa Resch — Trabalhando com comunicação, isso é algo que a gente pode falar em relação às empresas: precisamos ter diretrizes para esse uso. Esses dados nos trazem muito essa informação — de como, dentro das empresas, vamos usar sem que as pessoas sintam essa culpa. É alívio porque a gente está sobrecarregado, mas ao mesmo tempo sentimos culpa de usar, porque não sabemos como fazer esse uso, como ser ético e transparente em relação a ele. E usamos muito por achar que o nosso raciocínio é imperfeito, sendo que a IA tem muita saída errônea.
Samantha Schreiber — Tem uma questão que a IA traz, que é o volume. Um relatório com um volume absurdo de dados talvez a gente realmente não conseguisse fazer daquela forma — ou levaria uns dois anos para algo que ela faz numa tarde. Então há um ponto de comparação muito desleal. Só que a nossa nova noção de produtividade vai ser cada vez mais baseada nisso: vamos nos medir cada vez mais em relação ao que a máquina faz. É uma concorrência desleal quando pensamos em volume. Talvez por isso a questão da autenticidade, da assinatura humana, dessas coisas que ainda são muito nossas, tenha aparecido tanto como saída, como ponto de esperança nessa disputa entre homem e máquina. É toda uma lógica de produtividade que acelera algo que já era presente antes. A IA consegue fazer muito mais em alguns aspectos, mas existe uma homogeneização: enquanto cada um de nós, fazendo um relatório ou produzindo um texto, teria uma leitura diferente, com impressões que vêm do nosso repertório, ali temos uma média matemática. E isso está refletido no resultado: muitas coisas produzidas, todas muito iguais entre si — o texto que usa "não só isso como aquilo", o travessão e tudo mais.
Essa estética padronizada — como as imagens típicas de IA que a gente já reconhece de longe — tira a singularidade humana que vocês trabalham na pesquisa?
Samantha Schreiber — Voltando à gênese da pesquisa, uma das discussões que a gente tinha era sobre essa saturação estética. Era uma das nossas hipóteses no início: será que isso é algo presente? E vimos que, para uma parcela, é — mas não é todo mundo que sente essa fadiga mais estética, essa percepção ainda não é do grande público. Por outro lado, vimos outros tipos de saturação, de fadiga e de cansaço que se comprovaram na pesquisa.
Melissa Resch — Inclusive a pressão por entender de IA, que é muito mencionada pelas fontes. Os jovens entre 18 e 24 anos são os mais preocupados: 72% dizem que sentem pressão para entender. Estamos falando de uma parcela do público que está entrando no mercado e sente que precisa dominar isso. E, de modo geral, é o que tem acontecido: a gente vai ao almoço de domingo e tem que falar sobre IA com a família; está na empresa e tem que falar sobre IA. Essa era uma hipótese da pesquisa: entender se havia esse cansaço do assunto. E um cansaço também de precisar identificar o que é IA até na hora de ver um meme. Comentamos na apresentação da pesquisa o meme do canguru, que foi canônico na vida de muitas pessoas — a gente estava na posição de "sabemos identificar o que é e o que não é", e muita gente caiu naquele meme. Até na hora de dar risada, de relaxar, tenho que me preocupar com isso. A pesquisa mostrou que sim, as pessoas estão cansadas do assunto, mas ainda assim sentem que precisam entender, porque é um caminho sem volta e porque têm que ser mais produtivas a partir disso.
Samantha Schreiber — Tem um impacto nesse contexto de trabalho mesmo: se eu não entender, vou ficar obsoleto e vou perder o meu espaço, principalmente no contexto profissional.
A pesquisa mostra que 40% sentem pressão para se manter informados sobre IA e 58% afirmam estar cansados de ouvir falar do assunto. A motivação inicial do estudo também veio dessa pressão percebida no dia a dia de vocês e dos clientes?
Melissa Resch — Com certeza. Para além dessa motivação pessoal — de sentir que não há mais tempo de relaxar, que o assunto está em todos os lugares —, a gente percebe que as empresas, quando chegam para nós, estão muito perdidas sobre qual caminho seguir. Faço tudo sozinho agora com a IA? Contrato alguém para fazer? Reduzo minha equipe e invisto mais em IA, mesmo que ainda não esteja funcionando bem? É um dilema que as empresas estão vivendo.
Vocês visualizaram isso em empresas de qual tamanho?
Melissa Resch — Sobretudo em pequenas e médias, que são empresas com mais dificuldade de fazer grandes investimentos em equipe e infraestrutura de pessoal. Mas nas grandes também acontece, e tem havido uma discussão importante sobre a comoditização de todos os serviços. Ao mesmo tempo em que as empresas estão vendo que podem investir em IA para economizar, também estão vendo que correm o risco de comoditizar o próprio serviço. Na nossa atuação com marcas, setores que antes não investiam em marca agora estão buscando. O setor jurídico, por exemplo, nunca se preocupou em fazer marca — se preocupava com comunicação digital, redes sociais. Agora está vendo que esse investimento é necessário para se diferenciar num mercado saturado, em que qualquer um entra num Claude ou num ChatGPT e elabora um texto. Mas, para sair da caixa, antes a gente precisa ter uma caixa. É dessa caixa que as empresas estão sentindo falta: quais são as nossas bases, as nossas estruturas fundantes.
A pesquisa traz um recorte em que a percepção de saturação aparece mais entre pessoas com curso superior e menos nos níveis fundamental e médio. A Noruega chegou a praticamente banir a IA do ensino fundamental, sob a lógica de que é um momento fundante da cognição humana. Como vocês veem o impacto dessa saturação no ambiente educacional?
Samantha Schreiber — Lembrei de um estudo que saiu num relatório recente da OCDE, feito, se não me engano, na Turquia, com dois grupos de alunos do equivalente ao nosso ensino fundamental, em relação à matemática. Um grupo fez os estudos e provas com apoio de IA generativa, outro sem. O grupo com IA foi muito melhor enquanto podia utilizá-la, mas, quando a IA foi retirada, foi muito pior do que o outro, que se manteve mais estável. O grupo sem IA, por mais que não tenha tido um número astronômico, teve um aprendizado real; o outro aprendeu a usar a ferramenta, a executar o prompt, a achar o caminho — que é um aprendizado válido, mas não desenvolveu a capacidade cognitiva que se busca nessa idade com o estudo de matemática, que não é só fazer conta de dois mais dois. Na educação, estamos vendo uma discussão muito grande em diferentes níveis, inclusive no superior: o quanto se usa ou não para produzir um artigo, fazer uma pesquisa; o quanto deixar claro em termos metodológicos é suficiente para que aquilo seja um conhecimento reconhecível. Assim como tem empresas substituindo tudo por IA e voltando atrás, no contexto educacional vamos ver perdas importantes nesse desenvolvimento. Talvez a gente consiga notas mais bonitas, textos mais bem escritos dentro do padrão da IA, para colocar num muralzinho, mas, em termos de aprendizado e desenvolvimento, acabamos perdendo, se não houver um limite claro de quanto e como essas ferramentas devem ser utilizadas.
Melissa Resch — Mais estética do que substância. Foi uma discussão que tivemos durante a apresentação da pesquisa, porque houve também uma etapa qualitativa, em que ouvimos uma série de especialistas acadêmicos. Uma professora que participou, um nome importante na pesquisa no Brasil, falou justamente dessa fundação, de pensar que é um modelo matemático. Assim como a gente desaprendeu a andar pela cidade por conta do GPS — uma metáfora que se traz bastante —, agora estamos perdendo isso em relação a várias outras coisas. E, se formos pensar na grande crítica que se faz hoje às empresas de IA, é a de que são modelos construídos por empresas da iniciativa privada, com interesses privados, fazendo extração de dados sem consentimento e sem transparência sobre esse uso.
Samantha Schreiber — E do norte global, de países ricos. Tem todo um contexto específico.
Sobre extração de dados: o publisher do The New York Times comentou recentemente, no congresso da associação mundial de jornais, que as grandes empresas de IA pagam por ótimos engenheiros e data centers, mas nunca pagam pelo dado — que às vezes é jornalismo, é conteúdo que levou anos para ser feito, é uma biblioteca inteira. Por que isso não é considerado algo a ser remunerado? Como vocês veem essa contradição?
Melissa Resch — O Bernie Sanders tem uma proposta de taxar essas empresas em níveis astronômicos, de modo que devolvam para a sociedade o que estão pegando de nós. Mas o fio que eu trazia antes era sobre onde os donos dessas empresas estão investindo. Enquanto nós, de modo geral, colocamos nossos filhos para estudar ciência da computação, por entender que é um campo promissor, os filhos desses bilionários, dos donos dessas tech companies, estão estudando filosofia, antropologia. Há hoje várias instituições no mundo dedicadas a isso e recebendo esse público. E eles mesmos têm esse background: muitos dos donos dessas empresas têm formação em filosofia. Será que temos que nos apressar tanto em formar bons técnicos, e não em formar pensamento crítico, capacidade de análise? A questão da educação passa muito por isso — e até os professores estão um pouco perdidos sobre o que fazer nesse cenário, porque as universidades não têm diretrizes. Acho que foi Yale que passou a prover aos alunos o plano pago do Claude por uma questão de segurança: quando você paga, a empresa pelo menos diz que as suas informações estão seguras. A universidade decidiu pagar para todos os alunos, para ter essa segurança e para não haver discrepância na saída dessas informações, considerando que um plano pago dá uma saída melhor de dados do que o gratuito. São muitas camadas complexas para discutir.
A pesquisa aponta, no capítulo sobre uso e confiança, que 8,5% já sentem que o raciocínio fica incompleto sem ajuda de IA e que 44,3% sentem insegurança por não usar IA em um processo. Há quem diga que, com esses modelos, seremos super-humanos, com capacidades que nenhum outro humano teve. Estamos falando de super-humanos ou de humanos pela metade?
Melissa Resch — Eu acho que, antes do super-humano, a gente precisa resolver o humano, que já não está bom. Estamos muito ansiosos; enquanto sociedade, estamos muito doentes. A gente já não dá conta do que tem. A tecnologia sempre vem com essa promessa de tornar as nossas vidas mais fáceis. A democratização do conhecimento, do saber, da informação já foi essa promessa — e o resultado foi a pós-verdade, que nos traz enormes problemas. Outro ponto da pesquisa é esse: 9 em cada 10 dizem que a IA aumenta as chances de fake news. Ou seja, sentimos que precisamos usar, estamos usando porque senão achamos que não estamos bons o bastante, mas não confiamos. Todos nós já sabemos desses outputs: sabemos que não dá para confiar, que está aumentando notícia falsa, que se comprometeu a qualidade da informação. As entradas são todo o conhecimento que construímos ao longo da história da humanidade. Nós criamos filtros para cuidar dessa informação — criamos bibliotecas, criamos a checagem jornalística — e agora tudo isso está sendo erodido em benefício do volume, um volume que responde a ele mesmo. Como fica quando essa IA se alimenta de informações falsas que ela mesma criou? Isso não me parece levar a um super-humano. Muito pelo contrário: parece que estamos enclausurando, sufocando o que temos de melhor. Não sou muito otimista nesse sentido.
Samantha Schreiber — Uma das especialistas com quem conversei durante a etapa qualitativa falou muito sobre o quanto as pessoas que conseguirem dominar essa tecnologia vão realmente se transformar, ter ganhos absurdos em diferentes frentes e setores. Mas isso é uma parcela muito pequena. Talvez, enquanto tivermos dois super-humanos, teremos uns 200 mil humanos pela metade. Ganha-se muito pouco e se perde bastante. E há algo falacioso na ideia de que, com a tecnologia, vamos trabalhar menos — na verdade, vamos enfiar trabalho em todos os espacinhos que sobrarem. Ainda tem uma questão: a IA escreve rapidamente aquele e-mail de que a gente precisa, mas aí perdemos 20 minutos revisando, ajustando, tentando tirar aquela linguagem toda plastificada — para fazer funcionar, para um prompt ser um bom prompt, para que haja de fato cocriação. Não sei onde está esse ganho tão grande de tempo de que se fala. E você comentou sobre a IA utilizar o conteúdo dos jornais, das bibliotecas, mas ela também usa como referência um monte de coisa que é mentira, texto preconceituoso, dado errado. Além de alucinar — as alucinações da IA, que trazem coisas sem pé nem cabeça —, ela se alimenta de coisas que nem sempre são verdadeiras, verificadas ou éticas. Quanto mais a gente se fiar nisso sem senso crítico, sem um filtro, talvez a gente vá para um lado mais de meio humano mesmo.
Quase 7 em cada 10 pessoas ouvidas na pesquisa acreditam que a IA distorce a percepção do que é autêntico e real. Ao mesmo tempo, o Digital News Report da Reuters de 2026 mostra que 45% dos usuários de IA se preocupam com desinformação — e que, no Brasil, 14% dos entrevistados já usaram IA generativa para ver notícias. Ou seja: as pessoas temem a distorção, mas buscam na IA justamente o que deveria ser o mais verificável, a notícia. De onde vem essa distorção?
Melissa Resch — Talvez da busca por algum atalho. Vejo muito uso para fazer o resumo do resumo do resumo. Parece que, se eu ler um resumo das notícias do dia no Perplexity, que é uma IA que faz isso, vou economizar mais tempo do que lendo no site do jornal. Mas vai mesmo? Não vai. Sem contar que a IA tem vieses, tem tendências a trazer informação preconceituosa. E toda a nossa conversa aqui trata basicamente do uso para criação de texto, para leitura de notícia — mas há usos muito mais graves. O Pentágono está usando agora para guerra, e as IAs usadas para vigilância e reconhecimento facial têm problemas gravíssimos de racismo e misoginia. Mesmo na pesquisa desk, que usamos bastante no nosso dia a dia para estudar diferentes teóricos e colocar visões em conflito, o que tenho percebido é que, para conseguir uma saída que não seja de um teórico branco, europeu, eu preciso pesquisar ativamente. Preciso perguntar: já teve alguma mulher que estudou isso na história do cânone? Alguma mulher trans, alguma mulher negra que estudou isso na história acadêmica? Então, quanta informação nova, de fato, conseguimos extrair? Acho que é pouca. O esforço deveria ser o contrário, na verdade.
Para concluir: 56% associam a IA a alívio e apoio, e sabemos que muita gente está usando o ChatGPT para terapia. A próxima fronteira é criar métodos de validação — ou colocar a singularidade humana nesse ponto e mostrar às pessoas a importância de buscar alívio e apoio não numa plataforma, mas em outra pessoa?
Melissa Resch — Na etapa qualitativa da pesquisa, ouvimos psicólogos também, com diferentes visões. Alguns nos colocaram que, entre não ter terapia e ter terapia com a IA, melhor ter com a IA — pelo menos a pessoa terá apoio, se não puder pagar um psicólogo. Mas houve outros, e uma pesquisadora da UFRGS nos trouxe dados de como a IA já interferiu em casos muito graves, por exemplo, orientando uma pessoa que queria tirar a própria vida. Isso já aconteceu mais de uma vez. É bastante grave esse uso, é um problema imenso para a área da saúde — ainda mais num contexto em que a saúde está no fogo cruzado da polarização política. Ainda é muito complicado dizer que é uma fonte segura. E, no Brasil, as pessoas substituem, na verdade: uma pesquisa recente da Edelman mostrou que a maioria acredita que a IA pode executar tarefas tão bem quanto os médicos.
Samantha Schreiber — Nesse sentido, todo mundo que já conversou com o ChatGPT sabe o quanto ele exalta: "o que você acha disso?", "é perfeito, faça isso, você é ótimo". Há sempre uma concordância. Não sou psicóloga, mas faço análise há muitos anos, e sabemos que o papel desse interlocutor muitas vezes não é concordar contigo, não é massagear o teu ego para que uma culpa vá embora. E mesmo chatbots voltados para terapia e autoconhecimento já tiveram questões gravíssimas — nos Estados Unidos, no ano passado, se não me engano, inclusive com adolescentes. São casos que mostram o quão delicado é esse tema.
A Voz Unfold, onde a pesquisa está disponível — é isso mesmo?
Melissa Resch — É isso. A Voz Unfold é uma iniciativa da Voz Colab dedicada ao pensamento crítico.


