
A Nasa anunciou nesta quarta-feira (3) o fim da missão MAVEN, a sonda que estudava a atmosfera de Marte desde 2014.
A agência espacial dos Estados Unidos concluiu que a nave não pode mais ser recuperada nem voltar a cumprir suas funções científicas, encerrando uma operação que durou mais de 11 anos – período 10 vezes superior ao inicialmente previsto para a missão.
O último contato com a MAVEN ocorreu em 6 de dezembro de 2025. O nome é uma sigla em inglês para Mars Atmosphere and Volatile Evolution, algo como Atmosfera de Marte e Evolução de Voláteis, em referência ao gás e ao vapor de água que a sonda foi enviada para estudar.
Naquele dia, a nave passou atrás de Marte em relação à Terra, situação rotineira em que o próprio planeta bloqueia o sinal por alguns minutos, e simplesmente não voltou a se comunicar quando deveria reaparecer.
A perda de sinal acendeu o alerta. As antenas da Deep Space Network, rede de grandes radiotelescópios que a Nasa mantém em três continentes para se comunicar com naves distantes, ficaram à escuta e não captaram nada.
Sem esse canal, não há como enviar comandos nem receber dados de uma sonda a mais de 200 milhões de quilômetros da Terra.
O que provavelmente aconteceu

Uma investigação interna reconstituiu o que provavelmente aconteceu. Antes de desaparecer por trás do planeta, a telemetria – o conjunto de informações que a nave envia sobre seu próprio funcionamento – indicava que todos os sistemas estavam normais.
Ao reaparecer, porém, um pequeno fragmento de dados captado pelas antenas mostrou dois sinais preocupantes: a MAVEN havia entrado em modo de segurança e girava em velocidade muito acima do normal.
O modo de segurança é uma espécie de hibernação de emergência. Quando detecta algo errado, a nave desliga as funções não essenciais e fica à espera de instruções da Terra para se proteger.
O problema é que esse estado, somado à rotação descontrolada, foi fatal. Ao girar fora de controle, os painéis solares da MAVEN deixaram de apontar para o Sol de forma estável, e, sem luz solar constante, não havia como recarregar as baterias. Com isso, elas se esgotaram, o sistema de comunicação perdeu energia e a sonda ficou definitivamente em silêncio.
A Nasa reuniu, em fevereiro, um comitê de revisão de anomalias para avaliar as tentativas de recuperação e estimar o estado atual da nave. Segundo o grupo, a MAVEN não tem mais condições de operar, conclusão que coincide com a avaliação da própria equipe da missão. A causa da perturbação na órbita ainda não foi determinada, e um relatório final deve ser divulgado até o fim deste ano.
"A ciência que a MAVEN nos entregou é fundamental para definir que tipo de proteção contra radiação e que medidas de segurança precisaremos adotar antes de enviar seres humanos a Marte. Os dados coletados continuarão a oferecer conhecimento valioso sobre Marte por décadas", afirmou Louise Prockter, diretora da Divisão de Ciência Planetária da Nasa, em comunicado.
Por que estudar a atmosfera de um planeta sem ar
Lançada em 18 de novembro de 2013 a bordo de um foguete Atlas V, a partir de Cabo Canaveral, na Flórida, a MAVEN chegou à órbita marciana em setembro de 2014. Foi a primeira missão dedicada exclusivamente a estudar a atmosfera de Marte e sua evolução ao longo do tempo.
A missão buscava responder uma das grandes questões da exploração espacial: como Marte deixou de ser um planeta mais quente, úmido e potencialmente habitável para se tornar o deserto gelado que é hoje.
Evidências como leitos de rios secos e minerais formados na presença de água indicam que o planeta já teve uma atmosfera muito mais densa. A MAVEN foi enviada para descobrir para onde esse ar foi.
A resposta está no Sol.
O Sol que arranca a atmosfera
A Terra é protegida por um campo magnético que desvia partículas vindas do Sol. Marte perdeu essa proteção há bilhões de anos e ficou exposto ao vento solar, fluxo contínuo de partículas carregadas emitidas pela estrela.
Um dos principais resultados da MAVEN foi demonstrar que o vento solar remove gradualmente a atmosfera marciana e que esse processo se intensifica durante tempestades solares.
A sonda foi a primeira capaz de medir simultaneamente a atividade do Sol e seus efeitos sobre a atmosfera do planeta.
"A missão MAVEN realmente ampliou nosso entendimento sobre a atmosfera marciana e sua evolução. Esse conjunto de dados teve um impacto enorme na área", comentou Shannon Curry, investigadora principal da missão e pesquisadora da Universidade do Colorado em Boulder, também em comunicado.
Um visitante interestelar
Entre seus últimos trabalhos, a MAVEN participou da observação do cometa 3I/ATLAS, apenas o terceiro objeto interestelar identificado atravessando o Sistema Solar.
Em uma campanha de 10 dias, a sonda registrou imagens em diferentes comprimentos de onda, incluindo luz ultravioleta, ajudando cientistas a investigar a composição e a origem do visitante cósmico.
Uma ponte entre Marte e a Terra

Além da pesquisa científica, a MAVEN funcionava como retransmissora de dados para robôs em operação na superfície marciana, como Curiosity e Perseverance.
A sonda recebia as informações enviadas pelos veículos e as encaminhava à Terra, chegando a registrar o maior volume de dados já retransmitido de outro planeta em um único dia. Ao longo da missão, foram produzidos mais de 800 estudos científicos.
Embora a nave tenha silenciado, os dados coletados continuarão servindo de base para pesquisas sobre Marte e futuras missões tripuladas ao planeta.
