Após 10 dias, foi encerrado nesta sexta-feira (10) o primeiro voo tripulado da Nasa dentro da campanha Artemis. Batizada de Artemis II, a missão espacial foi um marco histórico e estratégico na exploração espacial, na visão de especialistas ouvidos por Zero Hora.
A experiência abre espaço para futuras conquistas nessa área e aquece a corrida espacial, dando vantagem aos Estados Unidos.
Foi a primeira missão com tripulação a sair da órbita da Terra desde o fim do programa Apollo, também da Nasa, em 1972, e a que foi mais longe, batendo o recorde dos 400,1 mil km atingidos pela Apollo 13 em 1970.
Pela primeira vez, foi possível explorar a olho nu o lado oculto da Lua, que não é visível da Terra. Esta região já foi fotografada por sondas, mas os astronautas foram os primeiros humanos a observar essa parte da superfície lunar, onde há crateras de até a 8 km de profundidade.
Base permanente na Lua
A missão chegou aos 406,7 mil km de distância e foi bem-sucedida ao demonstrar a eficiência do funcionamento da cápsula Orion com tripulação a bordo. Foram testados os sistemas de suporte à vida, navegação e comunicação, que atestaram a segurança dos equipamentos em ambiente de espaço profundo.
A meta da agência espacial norte-americana é estabelecer, até o final da década, uma base permanente na superfície da Lua.
Apesar de ser um plano distante, a missão recém-encerrada aproxima os EUA deste objetivo, destaca a astrofísica e professora Thaisa Storchi Bergmann, pesquisadora do Departamento de Astronomia do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS):
— A Lua tem recursos importantes, incluindo metais e água. Isso nós temos que explorar melhor, e é muito mais viável estabelecer uma base espacial na Lua do que em Marte, porque para a Lua nós conseguimos ir e voltar em poucos dias.
A próxima missão
Segundo a cientista, os experimentos feitos vão levar a avanços tecnológicos, aperfeiçoando equipamentos como os uniformes dos astronautas e garantindo condições favoráveis para o sucesso das futuras expedições.
Estamos abrindo uma nova era de exploração do espaço. A tecnologia nos permite isso. Também é uma conquista simbólica, que encanta as pessoas, os jovens, as crianças
THAISA STORCHI BERGMANN
Pesquisadora do Departamento de Astronomia do Instituto de Física da UFRGS
Na próxima missão, a Artemis III, prevista para ocorrer até 2027, dois astronautas devem pousar na superfície para explorar possíveis recursos no polo sul da Lua, como gelo, em áreas nunca exploradas por humanos.
Interesse econômico na Lua

Diferentemente do contexto da Guerra Fria, quando foi desenvolvido o projeto Apollo, época em que Estados Unidos e a então União Soviética rivalizavam por influência no mundo, hoje existem outros players envolvidos na corrida espacial.
Para além das tensões políticas, as nações à frente da disputa têm forte interesse econômico na exploração da Lua por conta de recursos presentes na atmosfera lunar, principalmente o hélio-3.
Pesquisas e relatórios de importantes agências espaciais apontam que esse isótopo raro do hélio pode ser utilizado como combustível em reatores de fusão nuclear, com potencial para se tornar uma das formas mais eficientes de geração de energia já estudadas. Diferentemente dos combustíveis nucleares tradicionais, como o urânio, o hélio-3 não é radioativo, o que o torna uma alternativa considerada mais segura e limpa.
A busca pelo gás deve causar impacto na corrida energética mundial. Além disso, os próprios sistemas modernos que permitem o avanço das missões espaciais são desenvolvidos por grandes empresas de tecnologia, que desempenham papel importante nesse processo.
"Parceria público-privada"

Para André Rafael Weyermüller, professor dos cursos de Relações Internacionais e Direito da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), essa evolução tecnológica também é econômica:
— Os módulos utilizados são fornecidos pela iniciativa privada. Antes, no projeto Apollo, tudo era da Nasa. Hoje, temos uma espécie de parceria público-privada que permite esses avanços, e isso vai ter uma repercussão econômica importante.
Companhias como SpaceX (de Elon Musk) e Blue Origin (de Jeff Bezos) vêm liderando esses avanços, bem como iniciativas chinesas, como a estatal China Aerospace Science and Technology Corporation (CASC), Galactic Energy e LandSpace. Segundo o especialista, economicamente, a Lua virou objeto de desejo da geopolítica e da economia mundial, atraindo diferentes nações.
Corrida espacial envolve China, Irã e Índia
A missão Artemis é um marco, mas a China também está à frente de avanços importantes, destaca Weyermüller. Na avaliação do professor, o país asiático é o principal rival dos EUA nessa corrida:
— A China não teve toda expertise e o tempo de desenvolvimento para fazer o que foi feito na Artemis, mas eles já conseguiram coletar antes amostras do lado oculto da Lua (usando uma sonda não tripulada), feito que outros países ainda não tinham conquistado. Há anos, a China tem uma estação espacial própria orbitando a Terra. Então, trata-se de um protagonista militar, geopolítico e econômico fortíssimo.
Além disso, o gigante asiático planeja lançar, no segundo semestre deste ano, a sétima missão espacial robótica para explorar a Lua. O objetivo da missão Chang’e 7 da Agência Espacial Tripulada da China é estudar os ambientes e os recursos do polo sul do satélite natural, de acordo o jornal China Daily.
O país pretende fazer uma missão tripulada com alunissagem (pouso na Lua) até 2030. Mas, antes disso, entre 2028 e 2029, a China deve lançar a missão Chang’e 8, com participação do Irã. Por meio da Agência Espacial do Irã (ISA, na sigla em inglês), o país conseguiu colocar em órbita seus primeiros satélites no final dos anos 2000 e, desde então, vem ampliando sua capacidade de observação da Terra e testes de veículos lançadores.
Também na Ásia, a Índia tem obtido sucesso com o programa Chandrayaan da Organização Indiana de Pesquisa Espacial (ISRO, na sigla em inglês). Em 2023, a Chandrayaan-3 realizou um pouso controlado na região do polo sul lunar, área considerada estratégica por potencial presença de gelo e recursos.
Além disso, o país está entre as nações que assinaram os Acordos Artemis, um conjunto de princípios não vinculativos liderado pelos Estados Unidos para a exploração lunar, que inclui cooperação, interoperabilidade e compartilhamento de dados. O sucesso da Artemis 2 pode contribuir para a evolução das estratégias indianas de exploração lunar.
Custo elevado da missão

A missão conduzida pela Nasa busca estabelecer presença humana contínua na Lua. A campanha inclui o retorno ao solo lunar (planejado para Artemis III) e a construção de infraestrutura permanente no local, como um laboratório (objetivo da Artemis IV, com previsão para 2028).
Mesmo sem pousar, os astronautas já realizaram observações e experimentos que ajudam a compreender como o corpo humano responde ao espaço profundo e como o ambiente lunar se comporta para preparações de exploração futura.
Na visão do astrônomo, professor e diretor do Observatório do Valongo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Thiago Signorini Gonçalves, o custo dessas missões é muito elevado e exige cautela.
— Há, sim, um impacto científico, uma possibilidade de exploração e melhor entendimento da Lua, da formação dos corpos no sistema solar. Mas é um investimento muito alto, e o retorno científico não é tão grande assim. Sou um defensor das missões não tripuladas, porque o custo-benefício pode até ser melhor nesses casos — explica.
Longo prazo
Na avaliação do especialista, o interesse geopolítico e econômico foi um motivador importante da iniciativa, para demonstrar o poderio tecnológico dos EUA. No entanto, é preciso focar nos avanços científicos que podem ser obtidos pelas próximas etapas do programa, e não será a curto prazo.
— O principal objetivo era testar a segurança dos sistemas de suporte à vida dos astronautas, e isso eles conseguiram demonstrar de maneira bastante convincente. Em termos de descobertas, a médio e longo prazo seria interessante estabelecer laboratórios na Lua. Se conseguirmos explorar melhor o solo lunar, conseguiremos aprender muito sobre as origens dos corpos no sistema solar. Poderia ajudar a entender a formação da Terra e dos oceanos — afirma Gonçalves.
Para o pesquisador, a missão foi um primeiro passo nessa direção. O especialista acredita que as próximas fases do programa devem atrasar, devido às complexidades envolvidas no pouso lunar. Assim, países como a China podem demonstrar avanços nos próximos anos.





