
Uma imagem da Lua com tons intensos de azul e laranja tomou conta das redes sociais nos últimos dias. O registro, que muitos usuários associaram às missões Artemis da Nasa, no entanto, levantou dúvidas. Lua colorida, filtros ou fotos antigas?
A fotografia, compartilhada em um perfil de curiosidades de Astronomia do Instagram, é, na realidade, uma composição feita a partir de 81 mil imagens individuais do satélite natural que foram capturadas em 2024.
O autor é o astrofotógrafo curdo Darya Kawa Mirza, de Erbil, no Iraque. Foram necessários quatro dias de observação contínua para capturar os registros. Juntos, os fragmentos deram origem a um arquivo único de 708 gigabytes e resolução de 159,7 megapixels.
Autodidata, Darya começou a fotografar em 2007 e hoje utiliza um telescópio de alta potência instalado no próprio quintal. Foi a primeira pessoa no Iraque a ter uma foto publicada pela Nasa.
Para entender o que há por trás das cores, especialistas em astrofísica detalham a composição do solo lunar e as técnicas usadas por fotógrafos profissionais.
A "maquiagem" dos minerais
Embora a olho nu a Lua pareça um bloco cinzento e uniforme, sua superfície é composta por uma rica variedade de materiais. A professora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Alejandra Daniela Romero explica que essa variação visual tem explicação geológica direta.
— A Lua como a Terra está formada por muitos materiais e alguns deles refletem a luz melhor que outros. As cores podem variar considerando o conteúdo de ferro e titânio principalmente. As regiões planas das crateras grandes, possuem grande quantidade de oxido de ferro, que não refletem a luz muito bem — explica Alejandra.
Segundo a professora, essa composição química é o que permite o surgimento de tons azulados.
— O oxido de ferro pode também fazer que a região tenha uma cor mais azulada. As cores podem sim ser pela composição do solo da Lua — detalha.
Técnica ou manipulação?
Outro ponto que chama a atenção na publicação é a alegação de que foram "empilhadas" 81 mil fotos para chegar ao resultado final. A técnica de empilhamento (ou stacking, em inglês) é comum na astrofotografia para reduzir o ruído e aumentar a nitidez — e é usada tanto por amadores quanto por profissionais.
A astrofísica e professora de pós-graduação do Instituto de Física da UFRGS, Thaisa Storchi Bergmann, analisou a imagem. Segundo ela, o registro é real, mas as cores estão exageradas. As tonalidades azuladas e avermelhadas indicam, na verdade, regiões com excesso de minerais como titânio (azul) e ferro (laranja). O fotógrafo processou a imagem para realçar essas cores, tornando visível uma informação que, de outra forma, passaria despercebida.
— A imagem não é fake, só com cores que representam os diferentes minerais em excesso nas regiões coloridas — explica.
Cores que existem, mas não vemos
As cores mostradas na imagem são reais em termos de composição, mas exageradas em termos de visibilidade. O que fotógrafos fazem é "puxar" a saturação desses canais de cor (o azul do titânio e o laranja do ferro) para que fiquem visíveis ao olho humano, criando o que na Astronomia se chama de Mineral Moon.
Além disso, a diversidade de materiais na Lua reforça uma visão científica.
— A teoria mais aceita para a formação da Lua é que, quando a Terra ainda estava se resfriando e solidificando um objeto do tamanho do marte bateu contra a Terra e tirou uma parte, formando com isso a Lua — afirma Alejandra.
*Sob supervisão do jornalista Tércio Saccol



