
A apresentação do forrozeiro João Gomes em um camarote da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, teve um momento fora do roteiro no último sábado (21).
No meio do show, o cantor interrompeu a performance ao identificar na plateia a pesquisadora Tatiana Sampaio e a chamou de "a maior celebridade que temos aqui hoje", arrancando aplausos do público.
O momento ampliou ainda mais a visibilidade da cientista que já vinha sendo bastante comentada por causa dos estudos sobre a polilaminina, substância experimental investigada como possível terapia para lesões da medula espinhal.
Há décadas a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) se dedica a pesquisas na área de regeneração neural e, nos últimos meses, viu seu nome circular com frequência fora do meio acadêmico.
Quem é Tatiana Sampaio?
Tatiana Sampaio tem 59 anos e nasceu em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Ela demonstrou interesse pela Biologia ainda na escola.
Toda a sua formação acadêmica foi construída na UFRJ, onde se graduou em Ciências Biológicas em 1986, concluiu o mestrado em 1990 e obteve o doutorado em 1992.
Após a formação, realizou dois estágios de pós-doutorado no exterior: um em imunoquímica na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, e outro sobre inibidores de angiogênese na Universidade de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha. Em 1995, ingressou como professora da UFRJ, instituição à qual segue vinculada.
Atualmente, é professora associada do Instituto de Ciências Biomédicas e coordena o Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular, grupo que investiga como proteínas do organismo podem modular o comportamento das células e a organização de tecidos, especialmente no sistema nervoso.
Trajetória na pesquisa
Desde o fim da década de 1990, ela lidera estudos relacionados à laminina, proteína naturalmente presente no corpo humano e importante para a organização celular e o desenvolvimento de neurônios.
Foi a partir dessa linha de investigação que surgiu a polilaminina, composto biotecnológico produzido em laboratório que se tornou o principal foco de sua equipe.
Em modelos experimentais, a substância demonstrou potencial para estimular o crescimento de axônios e favorecer a reorganização do ambiente ao redor de lesões medulares.
A hipótese estudada pelos pesquisadores é que, no futuro, a abordagem possa contribuir para ampliar as chances de recuperação de funções motoras afetadas por traumas graves.
A própria cientista, porém, já ressaltou que o composto não deve ser visto como solução isolada, mas como parte de estratégias terapêuticas associadas à reabilitação.
O que se sabe sobre a polilaminina?
A polilaminina é um biomaterial derivado da laminina, proteína da matriz extracelular que participa da organização das células, especialmente no sistema nervoso. A proposta do composto é mimetizar funções dessa proteína no organismo.
Nas pesquisas, há indícios de efeitos neuroprotetores e potencial regenerativo em estudos laboratoriais e em animais.
Com isso, a substância poderia, teoricamente, criar um microambiente mais favorável para a sobrevivência dos neurônios e para a reorganização de conexões neurais após uma lesão medular.
— Como que faz para o axônio crescer na vida real? Ele cresce em cima de uma pista de laminina. Quando tem uma lesão, tem pista de laminina? Não. E se a gente der a pista? Ele volta a crescer. Não tem nenhuma genialidade nisso — disse a pesquisadora em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, no último domingo (22).
Vale ressaltar que, no fim de janeiro, o Ministério da Saúde anunciou o início do estudo clínico de fase 1 para avaliar a segurança da polilaminina em pacientes com trauma raquimedular agudo. A etapa inicial deve incluir cinco voluntários, entre 18 e 72 anos, com lesões torácicas completas recentes.
O objetivo é acompanhar a evolução dos participantes ao longo de seis meses a um ano, sob supervisão de comitês de ética e autoridades sanitárias. As fases seguintes deverão avaliar a eficácia do tratamento em grupos maiores.
