
Embora tenha sido adiada devido a falhas técnicas, a missão Artemis II é aguardada com alta expectativa. Esta será a primeira vez em mais de 50 anos que os seres humanos se aproximam novamente da Lua – nesta etapa, ainda não haverá alunissagem (pouso na lua). A missão, prevista para ocorrer em março, deve contribuir, ainda que de forma moderada, para o avanço do conhecimento sobre tecnologia e sobrevivência humana no espaço.
Trata-se do primeiro voo de teste tripulado da Nasa na campanha Artemis. O objetivo, neste momento, é confirmar se os sistemas da espaçonave Orion operam no espaço profundo conforme planejado, de modo a dar suporte a astronautas — e preparar o terreno para o estabelecimento de uma presença permanente na Lua.
Na "Era de Ouro da exploração e inovação", as missões Artemis permitirão que os astronautas explorem a Lua em busca de descobertas científicas e benefícios econômicos, e ajudarão a impulsionar as primeiras missões tripuladas a Marte, conforme a agência espacial norte-americana. As iniciativas unem diversas nações, incluindo o Brasil.
O astrônomo, professor e diretor do Observatório do Valongo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Thiago Signorini Gonçalves, analisa a missão com cautela. As expedições são caras e não necessariamente trazem o maior retorno científico – telescópios e missões não tripuladas são mais baratas e têm maior retorno, pois já têm alta capacidade de exploração e de descobertas científicas.
A etapa é o passo seguinte nos testes de tecnologias, incluindo os sistemas de lançamento de foguetes e de suporte à tripulação, como preparação para a terceira missão, que trará ainda mais complexidades além da presença da tripulação, garantindo que, quando os astronautas finalmente pisarem na Lua, tudo esteja dentro das expectativas.
— O grande diferencial dessa missão é ter o sistema tripulado. Você está mandando uma tripulação para orbitar a Lua, uma coisa que não se faz há algum tempo. Você tem uma missão tripulada chegando bem longe e, do ponto de vista tecnológico, tem todo um sistema de lançamento diferente, que é o que eles estão testando agora para a Artemis. Eles aposentaram o sistema dos ônibus espaciais — avalia Gonçalves.
Compreendendo a missão
A missão Artemis II ocorre na esteira do teste de voo não tripulado Artemis I e demonstra uma ampla gama de capacidades do Space Launch System (SLS, sistema de lançamento) e da Orion.
A intenção é levar os astronautas a um sobrevoo pelo satélite natural, passar pelo seu lado oculto e retornar à Terra em uma trajetória de "retorno livre", ou seja, aproveitar a força gravitacional na Terra para trazer a Orion de volta sem necessidade de grandes manobras de propulsão.
Durante o voo, a tripulação deve testar os sistemas essenciais da Orion — suporte de vida, comunicações, navegação e controle manual — em um ambiente de espaço profundo, longe da influência da Terra. Também deve realizar procedimentos de emergência, teste do abrigo contra radiação, participação em experimentos científicos e observação da Lua.
Após contornar a Lua, a cápsula Orion deve atingir uma marca histórica: viajará cerca de 7,5 mil quilômetros além do lado oculto. A volta pelo lado oculto será principalmente uma maneira de aproveitar essa órbita para trazer o foguete de volta, como explica o professor Thiago Gonçalves:
— É interessante fazer isso, mas não vai ter nenhuma descoberta imediata, porque já temos satélites e telescópios que já fizeram bastante essa exploração, e essa passagem rápida por ali não vai ter nenhum retorno imediato.
Segundo a agência, "as lições aprendidas ao longo da missão abrirão caminho para o retorno de humanos à superfície lunar. Por meio do programa Artemis, a Nasa explorará mais da Lua do que nunca e criará uma presença duradoura no espaço profundo", enquanto se prepara simultaneamente para pousar um astronauta em Marte.
Retorno científico e econômico da missão
O professor Thiago Gonçalves aponta que um retorno científico da campanha é a possível busca por gelo no polo sul lunar, onde a Artemis III, próxima missão, deve pousar. Isso teria implicações para a formação do sistema solar em sua infância e até para a busca por recursos para o estabelecimento de bases permanentes na Lua.
No caso da Artemis II, a missão testará principalmente sistemas de suporte à vida e como os seres humanos podem sobreviver no espaço profundo. Serão medidos parâmetros como a exposição à radiação, aponta Isadora Stefanhak Arantes, pesquisadora em ciência espacial e embaixadora em astrobiologia pela Nasa. Segundo ela, avaliar a adaptação dos astronautas será parte importante da missão – uma espécie de laboratório para a ida a Marte.
— Marca esse retorno humano ao espaço profundo e também uma coisa que é fundamental de ressaltar: o maior desafio do espaço hoje em dia não é tecnológico, é biológico. O espaço é a fronteira final, mas para nós, seres humanos, nosso próprio corpo é uma fronteira — afirma Isadora. — Nós temos de contornar todas essas questões para conseguir conhecer o espaço.
A expedição contribuirá para a evolução do entendimento sobre a permanência de seres humanos no espaço, longe da proteção da magnetosfera da Terra. Afinal, são muitas décadas sem enviar uma tripulação tão longe, e novos sensores a bordo da espaçonave devem apresentar medidas com maior precisão, acrescenta a pesquisadora.
Para Isadora, os benefícios econômicos incluem a redução de custos e o aprimoramento de ideias para uma possível ida permanente à Lua. A pesquisadora cita como exemplos a manobra que utiliza a própria gravidade para o retorno, bem como ações que mantenham a qualidade de vida dos astronautas e, concomitantemente, resultem em economia. Uma das iniciativas testadas será a agricultura espacial.
Para o professor, entretanto, trata-se sobretudo de uma estratégia de marketing para viabilizar a aprovação dos programas. O retorno científico é limitado em comparação ao investimento, enquanto o retorno econômico é de difícil avaliação, em meio a uma nova corrida espacial. Esse contexto inclui a competição entre Estados Unidos e China, a demonstração de poderio tecnológico, e a entrada de empresas privadas nesse cenário – algo que não acontecia na época da Guerra Fria.
— Tem um interesse econômico grande por trás dessas empresas. E é difícil avaliar qual é o retorno tanto científico quanto financeiro direto para a população como um todo. Estamos testando novas tecnologias, por exemplo, que facilitam o lançamento de telescópios espaciais, que barateiam o custo da missão como um todo, mas esse retorno imediato é um pouco mais difícil de avaliar — pondera.
Embora os conhecimentos obtidos possam auxiliar futuramente no planejamento de uma missão tripulada a Marte – algo interessante e que poderia trazer retornos, na visão do professor –, a longo prazo, trata-se de um objetivo extremamente distante, caro e complexo, com custo-benefício baixo quando comparado a tecnologias já existentes.





