
Quem planeja trocar de celular, notebook ou outro eletrônico em 2026 esperando uma queda de preços pode acabar se decepcionando. A avaliação de especialistas é de que o mercado global de semicondutores segue aquecido e sem sinais de alívio no curto prazo, puxado principalmente pela forte disputa por memória RAM.
— Não é uma "crise dos chips" como estão chamando, mas sim um mercado que está muito aquecido, com uma demanda maior do que a capacidade produtiva, ajudando a elevar os preços — diz Celso Peter, pesquisador do Instituto Tecnológico (ITT) Chip da Unisinos.
Segundo ele, o encarecimento ocorre porque os mesmos componentes usados em eletrônicos no dia a dia também são disputados pela infraestrutura de inteligência artificial, concentrada em grandes data centers.
Por que os preços estão altos?
Historicamente, eletrônicos sempre foram relativamente caros no mercado brasileiro, mas a popularização da inteligência artificial acrescentou uma nova camada de pressão a esse cenário. Com mais aplicações de IA no cotidiano, cresceu a demanda por componentes essenciais, e a memória RAM passou a ocupar o centro dessa disputa.
Presente em celulares, notebooks, smart TVs e até veículos, a RAM é um dos principais gargalos da indústria nos últimos anos. Isso ocorre porque a produção mundial desse tipo de componente é altamente concentrada e dominada por poucas empresas.
Hoje, Samsung e SK Hynix, ambas da Coreia do Sul, lideram a fabricação global de memórias, seguidas pela norte-americana Micron. Quando a demanda cresce rápido, como ocorre agora com a explosão da IA, a oferta não consegue acompanhar no mesmo ritmo.
— Uma fábrica de semicondutores com tecnologia de ponta pode custar em torno de 20 bilhões de dólares. São investimentos muito altos, acessíveis a pouquíssimos países e empresas. Ao longo do tempo, isso fez com que a produção se consolidasse nas mãos de poucos fabricantes globais — explica Willyan Hasenkamp, diretor da HT Micron Semicondutores, em São Leopoldo.
Mesmo com investimentos bilionários anunciados pelas fabricantes, o efeito não é repassado de imediato para o consumidor.
— A capacidade de produção é limitada. Fábricas de memória são dedicadas a esse tipo de componente, e ampliar essa estrutura leva bastante tempo — afirma Peter.
Por que a IA "passa na frente"?

Além da limitação técnica, há um outro fator decisivo: dinheiro. As memórias de alto desempenho usadas em data centers de inteligência artificial geram margens de lucro maiores do que aquelas destinadas a celulares e notebooks.
— Existem poucos fabricantes que produzem o chip de memória a partir do silício. Com a forte demanda por chips voltados à inteligência artificial, esses fabricantes priorizam as memórias de maior valor agregado — explica Hasenkamp.
Na prática, isso significa que cada chip direcionado à IA é um chip a menos disponível para eletrônicos de consumo. Com a oferta reduzida, os preços sobem.
Diante desse cenário, as fabricantes acabam adotando duas estratégias: repassar o aumento ao consumidor ou manter o preço e reduzir a quantidade de memória nos aparelhos.
A segunda alternativa já é comum no mercado e tem nome: shrinkflation. O valor permanece semelhante, mas o produto chega às lojas com menos RAM.
E o Brasil?
Vale lembrar que o Brasil não participa da etapa mais cara da fabricação de chips, a produção do wafer de silício, mas integra a cadeia global na fase final, de encapsulamento e testes, que envolve a integração do chip com outros componentes. No Rio Grande do Sul, esse trabalho é feito em São Leopoldo na HT Micron.
Além da unidade gaúcha, outras quatro empresas realizam esse tipo de serviço no país: a Zilia, em Atibaia (SP); a Adata, na região de Campinas (SP); a Multilaser, em Minas Gerais; e a Cal-Comp, em Manaus (AM).
— Essas unidades recebem os chips prontos, fazem o encapsulamento e fornecem os componentes para fabricantes de computadores, celulares e servidores — salienta Peter, do ITT Chip.
Ainda assim, a presença dessa etapa no país não protege o mercado interno das oscilações globais.
— Esse é um problema geral. Os custos praticados no Brasil seguem os valores internacionais. Como dependemos desse insumo, quando a memória fica mais cara lá fora, ela também encarece para quem produz e para quem compra aqui — afirma Hasenkamp.
Afinal, os preços vão baixar em 2026?
A resposta curta é desanimadora: provavelmente, não. Segundo especialistas, não há espaço para uma queda generalizada nos preços ao longo de 2026.
Embora não seja possível prever o futuro, a tendência é que, no máximo, ocorra uma desaceleração no ritmo de alta em relação a 2025.
— O preço das memórias ainda deve aumentar, porque existe essa escassez. O impacto no preço final, no entanto, para o consumidor tende a ser menor do que a alta da memória em si, já que os aparelhos contam com outros componentes. Em um cenário mais extremo, esse impacto pode chegar a algo em torno de 10% — analisa Hasenkamp.
Um dos motivos é que a produção das grandes fabricantes já está comprometida, segundo Peter:
— A produção dessas fábricas deste ano já está toda vendida. Creio que uma possível estabilização só a partir de 2027.

