
O início da janela de lançamento do foguete HANBIT-Nano, a partir do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, poderá ser acompanhado ao vivo pelo público. Inicialmente marcado para sexta-feira (19), o lançamento, porém, pode sofrer alterações de data.
A próxima tentativa será realizada dentro da janela de lançamento, que se estende até 22 de dezembro, ainda a ser definida entre a empresa Innospace, a Força Aérea Brasileira (FAB), que conduz a Operação Spaceward, e a Agência Espacial Brasileira (AEB). Já a transmissão ao vivo será realizada no canal oficial da Innospace, empresa sul-coreana responsável pelo desenvolvimento do foguete.
A operação marca um momento inédito para o programa espacial brasileiro: será o primeiro lançamento comercial de um veículo espacial realizado a partir do território nacional.
Como assistir ao lançamento?
A transmissão será feita exclusivamente pelos canais oficiais da Innospace. Será possível acompanhar, em tempo real, imagens da plataforma de lançamento em Alcântara, a contagem regressiva e o momento do disparo.
A FAB reforça que, mesmo com horário definido, o lançamento só será autorizado se todas as condições técnicas e meteorológicas forem consideradas seguras.
Por que o lançamento foi adiado
O lançamento estava previsto para a quarta-feira (17), mas foi adiado após a identificação de uma anomalia em parte do sistema de refrigeração do oxidante do combustível durante a etapa final de checagens.
Em nota, a Innospace informou que a decisão teve caráter preventivo e envolveu a substituição de componentes. Segundo a empresa, a mudança no cronograma não está relacionada a falhas estruturais no foguete nem às instalações de solo, mas foi adotada para preservar a segurança da operação, considerando também as condições climáticas.
Foi a segunda vez que o lançamento da aeronave foi adiada. A primeira data programada seria no dia 22 de novembro, mas a Innospace e a FAB anunciaram que precisavam de mais tempo para fazer ajustes adicionais no veículo para avaliar seu desempenho durante o voo.
O que é avaliado antes e durante o voo
Antes da autorização final, a FAB realiza uma série de verificações técnicas. Entre os parâmetros analisados estão:
- pressão interna dos tanques de combustível
- funcionamento dos sistemas de ignição
- softwares embarcados
- condições meteorológicas, como vento, chuva e descargas elétricas
Esses fatores estão entre as principais causas de adiamentos de lançamentos espaciais em todo o mundo. Mesmo após a decolagem, a trajetória do foguete é monitorada em tempo real.
Caso o veículo apresente comportamento fora do previsto, o voo pode ser interrompido de forma controlada.
— A segurança é a premissa máxima. Se houver qualquer risco antes do lançamento, a contagem é interrompida. E, se durante o voo do foguete ocorrer uma anomalia relevante, os protocolos de contingência permitem neutralizar o veículo de forma controlada — afirma o chefe da Divisão de Operações do CLA, major engenheiro Robson Coelho de Oliveira.
Como é o foguete e o que ele leva ao espaço
O HANBIT-Nano é um foguete de dois estágios projetado para missões orbitais de pequeno porte. Ele tem 21,8 metros de altura, 1,4 metro de diâmetro e pode transportar até 90 quilos de carga útil.
O primeiro estágio usa um motor híbrido de 25 toneladas. Já o segundo pode operar com dois tipos de motor, dependendo da missão, um híbrido e outro movido a metano líquido, alimentado por bomba elétrica. É o primeiro veículo da família HANBIT projetado para voos comerciais.
A missão levará cargas para a órbita baixa da Terra (LEO), a aproximadamente 300 quilômetros de altitude, com inclinação orbital de 40 graus. Oito cargas úteis (objetos lançados com algum objetivo, seja científico ou comercial) estarão a bordo, entre elas satélites desenvolvidos por universidades brasileiras.
Para a FAB e a AEB, a operação representa um marco aguardado há décadas pelo setor espacial.
— Será o primeiro lançamento de um satélite brasileiro realizado a partir do território nacional. A gente prova para nós mesmos e para o mundo de que Alcântara é um espaço-porto viável e interessante — afirmou à reportagem o diretor de Gestão de Portfólio da AEB, Rodrigo Leonardi.
O ciclo de desenvolvimento envolveu 247 profissionais e passou por nove grandes marcos de qualificação entre 2024 e 2025, incluindo testes de separação de estágios, ensaios de motores e validações da coifa.
Até quando pode ocorrer o lançamento?
Caso o disparo não ocorra nesta sexta-feira, a FAB informa que a janela de lançamento permanece aberta até segunda-feira (22). Novas tentativas dependerão da validação técnica dos sistemas e das condições meteorológicas em Alcântara.
— Se não for possível em um dia, a gente vai tentar em outros, até que consiga realizar. O lançamento ocorre nisso que chamamos de janela de lançamento — explicou Leonardi.
O Brasil pode lançar seus próprios foguetes?
Do ponto de vista técnico, o Brasil já opera foguetes há anos, mas ainda não tem um veículo próprio capaz de colocar satélites em órbita. Hoje, o país domina o lançamento de foguetes suborbitais, usados em experimentos de curta duração que atingem o espaço e retornam em seguida.
O mais conhecido deles é o VSB-30, utilizado rotineiramente em campanhas científicas.
— Nós temos uma família de foguetes suborbitais. Esses foguetes suborbitais nós lançamos rotineiramente, e o Brasil já domina isso — resume Leonardi.
A próxima etapa está em desenvolvimento: ter um lançador orbital nacional, capaz de levar satélites à volta da Terra. Segundo o diretor da AEB, dois projetos estão em curso, o VLM, em parceria com a Força Aérea, e o MLBR, com a iniciativa privada. Ainda não há data para que esses veículos se tornem operacionais.
— Ainda não temos uma data de quando estarão prontos, mas estamos investindo para, em algum momento, termos um veículo lançador próprio — diz.


