
Com o Natal se aproximando, um tipo específico de fraude tem se espalhado com rapidez pelas redes sociais e plataformas de anúncios: as falsas compras feitas em sites clonados ou lojas inexistentes, que simulam grandes e-commerces com ofertas muito abaixo do preço praticado no mercado.
Levantamento da SOS Golpe, central gratuita de denúncias, aponta que 45,1% das ocorrências registradas em 2025 estão ligadas a compras digitais fraudulentas, um percentual que cresce justamente nos últimos meses do ano, com o maior volume de promoções.
Estima-se que cerca de 56 milhões de brasileiros já tenham sido vítimas de golpes ou fraudes online, desde julho de 2024. No Rio Grande do Sul, o número de golpes digitais cresceu 163,5% em 2025, o segundo maior índice do Brasil.
Segundo a pesquisa, realizada em parceria com a Silverguard, esse já é atualmente o principal tipo de golpe aplicado contra consumidores brasileiros.
As páginas fraudulentas reproduzem com precisão o visual de lojas conhecidas, como Amazon, TikTok Shop e Magazine Luiza, utilizam logotipos oficiais, fotos profissionais e até avaliações inventadas para criar uma sensação de legitimidade e induzir o consumidor a finalizar a compra rapidamente.
— A clonagem visual atingiu um nível de perfeição em que o layout deixou de ser um critério confiável. O principal sinal de alerta está na URL. Muitas vezes, o site parece original, mas o endereço tem uma letra trocada ou um domínio estranho. Se não for exatamente o endereço que você conhece, é golpe — explica a especialista em tecnologia e cibersegurança Rafaela da Silva.
Desconto "milagroso" e pagamento restrito
De acordo com a especialista, há padrões claros nesses golpes. Os criminosos apostam em produtos de alto desejo e fácil revenda, como smartphones de última geração, consoles, eletroportáteis populares e itens sazonais caros.
O valor costuma ficar em uma faixa considerada "plausível", geralmente entre R$ 200 e R$ 1.500, para não levantar suspeitas imediatas. Outro sinal recorrente é a limitação das formas de pagamento.
— Muitos sites falsos funcionam como um funil. Você navega normalmente, mas, na hora de pagar, só aparecem opções como PIX ou boleto. Isso não é por acaso: os golpistas evitam o cartão de crédito porque ele permite contestação e chargeback — afirma Rafaela.
Também é comum que links institucionais, como "Quem somos", "Trabalhe conosco" ou redes sociais, estejam quebrados ou levem de volta à página inicial, sem informações verificáveis.
Anúncios impulsionam os golpes
O uso de anúncios patrocinados em redes sociais e buscadores é apontado como o principal motor da disseminação dessas fraudes. Para a especialista, há uma "transferência automática" de confiança por parte do usuário.
— Quando a oferta aparece em uma grande plataforma, muita gente assume que foi verificada, o que nem sempre é verdade. Além disso, os golpistas usam as ferramentas de segmentação dessas redes para atingir públicos específicos e exploram gatilhos de urgência, como contadores regressivos falsos, que impedem a checagem racional — diz.
Um mapeamento da área de Prevenção a Fraudes do Banco Mercantil, instituição voltada ao público com mais de 50 anos, também indica aumento significativo na procura por suporte relacionada a compras não entregues feitas em sites falsos, especialmente após anúncios vistos nas redes.
Como verificar se a loja é confiável

Antes de finalizar uma compra, Rafaela recomenda o que chama de "verificação triangular", que leva poucos minutos.
- O primeiro passo é não comprar diretamente pelo link do anúncio. Ao se deparar com uma oferta, o ideal é abrir uma nova aba no navegador e digitar manualmente o endereço oficial da loja, procurando o mesmo produto no site verdadeiro
- Em seguida, vale fazer uma checagem rápida de reputação. Pesquisar o nome da loja no Google junto de termos como "Reclame Aqui" ou "golpe" ajuda a identificar se há um volume recente de reclamações, especialmente relacionadas à não entrega de produtos
- No próprio Reclame Aqui, também é possível verificar se o site aparece no "Detector de Sites Confiáveis" da plataforma
- O terceiro passo é testar os canais de contato. Tentar ligar ou enviar mensagem para o telefone ou WhatsApp informado no site costuma ser revelador, já que lojas falsas raramente mantêm atendimento funcional
Checar CNPJ e razão social também contribui para a análise, mas exige atenção aos detalhes.
— O mais importante é observar a idade do CNPJ. Golpes são operações rápidas. Uma loja que se diz grande, mas foi aberta há poucos meses, é um alerta forte. Também vale comparar o capital social com o porte que a empresa diz ter — orienta.
Caiu no golpe: o que fazer?
Ao perceber que foi vítima de uma falsa compra, a primeira ação deve ser tentar estancar o prejuízo financeiro. Se o pagamento foi feito por cartão de crédito, o consumidor deve contatar imediatamente o banco ou a operadora, informar a fraude e solicitar o bloqueio e a abertura de contestação.
No caso de PIX, é fundamental acionar rapidamente o Mecanismo Especial de Devolução (MED) pelo aplicativo do banco, embora as chances de recuperação sejam menores e dependam da agilidade.
— Nunca pague taxas extras para suposta liberação ou reenvio do produto. Isso é um segundo golpe. Não clique em links enviados para "cancelamento" e jamais forneça mais dados pessoais ou documentos — alerta a especialista.
Também é importante reunir provas, como prints do anúncio, do site falso, comprovantes de pagamento e conversas.
Cuidados essenciais para comprar no Natal
Para reduzir os riscos nas compras de fim de ano, a principal recomendação é adotar desconfiança diante de preços muito abaixo da média de mercado.
Especialistas também orientam priorizar o uso de cartões de crédito virtuais, especialmente os de uso único, e evitar pagamentos via PIX em lojas desconhecidas, onde as chances de recuperação do dinheiro são menores.
Outra medida simples, mas eficaz, é digitar manualmente o endereço das lojas no navegador e conferir com atenção a URL antes de finalizar a compra, evitando clicar em links de anúncios ou mensagens.
— Os golpistas exploram a pressa do Natal. Parar cinco minutos para verificar a loja pode evitar a perda de dinheiro e muita dor de cabeça — resume Rafaela.




