
Pela primeira vez, um foguete comercial será lançado ao espaço a partir do território brasileiro. A missão está prevista para 17 dezembro, data que deve abrir a primeira janela de operações orbitais do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão. O voo integra a Operação Spaceward, coordenada pela Força Aérea Brasileira (FAB) em parceria com a Agência Espacial Brasileira (AEB).
O lançamento será feito pela empresa sul-coreana Innospace, responsável pelo HANBIT-Nano, veículo de pequeno porte projetado para colocar cargas leves em órbita baixa da Terra. Oito cargas úteis (objetos lançados com algum objetivo, seja científico ou comercial) estarão a bordo, entre elas satélites desenvolvidos por universidades brasileiras. Para a FAB e a AEB, a operação representa um marco aguardado há décadas pelo setor espacial.
— Será o primeiro lançamento de um satélite brasileiro realizado a partir do território nacional. A gente prova para nós mesmos e para o mundo de que Alcântara é um espaço-porto viável e interessante — afirmou à reportagem o diretor de Gestão de Portfólio da AEB, Rodrigo Leonardi.
O que é a missão Spaceward
A Spaceward é a campanha montada para preparar Alcântara para a operação do foguete coreano. Ela reúne uma série de etapas que vão da chegada das equipes técnicas ao Maranhão à integração final das cargas úteis, passando por testes elétricos e mecânicos, checagens de comunicação e protocolos reforçados de segurança de voo.
— A Agência Espacial Brasileira é responsável pelas questões programáticas do programa. Os braços operacionais e executores são os mais variados. No caso de Alcântara, o braço executor é a Força Aérea Brasileira, que opera o centro de lançamento. As autorizações de lançamento são emitidas pela AEB — explica Leonardi.
Embora o CLA exista desde os anos 1980, todas as atividades realizadas até hoje tinham caráter suborbital, campanhas de treinamento, testes de propulsão ou experimentos de curta duração. Esta é a primeira missão concebida para levar satélites ao espaço a partir do território brasileiro.
Por isso, a Spaceward funciona como o "teste" que pretende demonstrar, na prática, a capacidade do país de operar um lançamento orbital completo, com padrão semelhante ao de centros estrangeiros. Segundo Leonardi, a operação é uma oportunidade para consolidar Alcântara como um espaço-porto competitivo:
— É um mercado competitivo. O Brasil vai ter que se empenhar para tornar Alcântara cada vez mais atraente, com carga, com vazão, para poder atender as demandas.
Como é o foguete HANBIT-Nano
O HANBIT-Nano é um foguete de dois estágios projetado para missões orbitais de pequeno porte. Ele tem 21,8 metros de altura, 1,4 metro de diâmetro e pode transportar até 90 quilos de carga útil.
O primeiro estágio usa um motor híbrido de 25 toneladas de empuxo. Já o segundo pode operar com dois tipos de motor, dependendo da missão, um híbrido e outro movido a metano líquido, alimentado por bomba elétrica. É o primeiro veículo da família HANBIT projetado para voos comerciais.
A estrutura conta ainda com um Sistema de Terminação de Voo (FTS), mecanismo que permite encerrar a missão imediatamente caso seja detectada alguma anomalia durante a subida. O componente foi validado em testes integrados com o CLA, procedimento obrigatório para autorizações de lançamento.
O ciclo de desenvolvimento envolveu 247 profissionais e passou por nove grandes marcos de qualificação entre 2024 e 2025, incluindo testes de separação de estágios, ensaios de motores e validações da coifa.
O que vai a bordo
A missão levará oito cargas úteis desenvolvidas no Brasil, na Coreia do Sul e na Índia. Cinco delas são satélites de pequeno porte; três são experimentos tecnológicos.
Entre os brasileiros, dois foram criados pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O FloripaSat-2A e o FloripaSat-2B integram uma nova plataforma de pequenos satélites concebida no SpaceLab, da universidade, e serão testados em voo pela primeira vez.
A Universidade Federal do Maranhão (UFMA) também participa com dois projetos. O PION-BR2 carrega mensagens de estudantes de Alcântara e integra testes de módulos nacionais de comunicação e energia. Já o Jussara-K foi projetado para coletar dados ambientais em áreas remotas e se comunicar com plataformas terrestres instaladas no Estado.
— Esses satélites são importantes enquanto trazem todo um conhecimento relacionado ao ciclo espacial, ou seja, nós aprendemos desde a fazer, a ter o conhecimento de produzir um satélite até o passo de fazer o lançamento — destaca Carlos Brito, professor do curso de Engenharia Aeroespacial da UFMA.
Entre os experimentos tecnológicos está o Sistema de Navegação Inercial (SNI), desenvolvido por empresas brasileiras por encomenda da AEB, e o PINA-FD, equipamento de posicionamento de alta precisão da empresa Castro Leite Consultoria. A carga internacional é o Solaras-S2, desenvolvido pela empresa indiana Grahaa Space para observação da atividade solar.
Por que é a primeira vez?

Mesmo com localização estratégica, a poucos graus da Linha do Equador, o que reduz custos e aumenta a eficiência para lançamentos, o país nunca havia conseguido utilizar Alcântara para missões orbitais.
Um dos principais obstáculos era o acesso a tecnologias estrangeiras sensíveis, o que só foi superado com a assinatura do acordo de salvaguardas tecnológicas entre Brasil e Estados Unidos.
O documento regulamentou o uso de componentes protegidos por exportação e permitiu que empresas internacionais, como a Innospace, pudessem lançar veículos a partir da base maranhense.
Segundo Leonardi, a negociação levou anos até amadurecer:
— É uma história muito antiga. É um anseio bem antigo da AEB e da Força Aérea de dar uso ao centro de lançamento, que já completa quase quatro décadas. Nós o utilizamos regularmente para lançamentos suborbitais, mas nunca tivemos oportunidade de usar para um lançamento orbital — disse.
O Brasil pode lançar foguetes?
Do ponto de vista técnico, o Brasil já opera foguetes há anos, mas ainda não tem um veículo próprio capaz de colocar satélites em órbita. Hoje, o país domina o lançamento de foguetes suborbitais, usados em experimentos de curta duração que atingem o espaço e retornam em seguida. O mais conhecido deles é o VSB-30, utilizado rotineiramente em campanhas científicas.
— Nós temos uma família de foguetes suborbitais. Esses foguetes suborbitais nós lançamos rotineiramente, e o Brasil já domina isso — resume Leonardi.
A próxima etapa ainda está em desenvolvimento: ter um lançador orbital nacional, capaz de levar satélites à volta da Terra. Segundo o diretor da AEB, dois projetos estão em curso, o VLM, em parceria com a Força Aérea, e o MLBR, com a iniciativa privada. Ainda não há data para que esses veículos se tornem operacionais.
— Ainda não temos uma data de quando estarão prontos, mas estamos investindo para, em algum momento, termos um veículo lançador próprio — diz.
Quando o lançamento deve ocorrer?
A primeira tentativa estava prevista para o último sábado (22). Porém, a FAB adiou o início da missão para 17 de dezembro, data que ainda pode mudar conforme as condições meteorológicas e o andamento das verificações de segurança.
Isso porque o lançamento ocorrerá dentro de uma janela, e não necessariamente no primeiro dia, o voo só acontece quando todos os sistemas estiverem prontos.
— Se não for possível em um dia, a gente vai tentar em outros, até que consiga realizar. O lançamento ocorre nisso que chamamos de janela de lançamento — explicou Leonardi.
Até a confirmação final, as equipes seguirão em rotina de simulações de pré-lançamento, testes elétricos e inspeções conjuntas no centro. Por isso, a hora exata da decolagem deve ser divulgada mais perto da abertura da janela.




