
Nascido em Nova York, filho de imigrantes gregos, Peter Diamandis, logo na infância, já demonstrava interesse por novas tecnologias e exploração espacial. Hoje, aos 64 anos, é amplamente reconhecido como um dos maiores especialistas em inteligência artificial (IA), desenvolvimento tecnológico, inovação e pensamento futurista do mundo.
Na década de 1980, Diamandis se graduou em genética molecular e depois em engenharia aeroespacial pelo prestigioso Massachusetts Institute of Technology (MIT), além de concluir também doutorado pela Faculdade de Medicina de Harvard. Ao longo de sua carreira, fundou dezenas de empresas ligadas a áreas como tecnologia espacial, saúde e educação, com destaque para a conhecida Singularity University, sediada na Califórnia.
Na segunda quinzena de agosto, Diamandis esteve em Porto Alegre, onde ministrou palestra sobre inovação e tecnologia no Instituto Caldeira. Durante a passagem pela Capital, deu entrevista com exclusividade a Zero Hora, comentando assuntos como o avanço da IA e o futuro da exploração espacial, entre outros temas relacionados. Confira:
Você e seu parceiro Ray Kurzweil têm dito que o mundo será um lugar "irreconhecível" até 2038. Pode desenvolver um pouco essa ideia?
Ray Kurzweil e eu usamos "irreconhecível" porque a mudança exponencial não é linear — é enganosa e, por vezes, disruptiva. Até 2038, agentes de IA, energia limpa abundante, educação sob demanda, transporte totalmente autônomo e avanços em biotecnologia parecerão normais. Imagine tradução de idiomas em tempo real em seus óculos de realidade aumentada, tutores personalizados para cada criança, robôs tão comuns quanto smartphones e um custo marginal quase zero para conhecimento, mão de obra e energia. Teremos a capacidade de projetar vida sintética, reverter aspectos do envelhecimento e colonizar o espaço.
A chave é a convergência: IA, robótica, biotecnologia, nanotecnologia e tecnologia espacial não estão apenas avançando, estão se amplificando mutuamente.
É por isso que os próximos 15 anos ofuscarão os últimos cem em termos de transformação social.
Como você avalia o estado atual do avanço no desenvolvimento da inteligência artificial? Está surpreso com o uso diário generalizado de ferramentas de IA pela população?
Acabamos de cruzar um limiar. A IA deixou de responder perguntas e passou a executar tarefas multietapas de forma autônoma. Os modelos de base agora são combinados com ferramentas, APIs (Interfaces de Programação de Aplicação) e memória, transformando-os em agentes que podem pesquisar, codificar, planejar, negociar e executar.
O que mais me empolga é a capacidade de acelerar a própria ciência, pois, da descoberta de medicamentos à modelagem climática, a IA está reduzindo os prazos de décadas para meses.
Contudo, ainda estamos na fase da 'televisão em preto e branco', uma etapa primitiva em comparação com onde estaremos em uma década.
O uso generalizado de IA no dia a dia da população não me surpreende, já era esperado. Quando algo é 10 vezes mais barato, mais rápido ou mais fácil, se espalha como fogo em palha. Da mesma forma que o smartphone se tornou uma extensão do nosso corpo, a IA está se tornando uma extensão da nossa mente. O que me surpreendeu foi a criatividade dos casos de uso, como jovens estudantes coautorando e publicando artigos científicos, aposentados criando arte, empreendedores prototipando produtos da noite para o dia. A taxa de integração aos fluxos de trabalho superou até mesmo minhas previsões otimistas.
O que você acha que a IA será capaz de fazer, dentro de cinco ou 10 anos, que não consegue executar hoje ainda?
Dentro de uma década, a IA será uma verdadeira "parceira especializada". Ela administrará negócios de forma autônoma, projetará novos materiais, personalizará tratamentos médicos de acordo com o seu genoma e atuará como uma professora 24 horas por dia, 7 dias por semana, fluente no seu estilo de aprendizagem. Ela gerenciará cadeias de suprimentos inteiras, conduzirá pesquisas científicas e até negociará acordos internacionais.
Imagine sua IA pessoal sabendo de cada conversa que você teve, cada meta que definiu e antecipando suas necessidades antes que você as expresse.
O GPT-5 de hoje parece inteligente, mas é um triciclo, comparado à nave espacial que está se construindo.
Você também têm um grande interesse em pesquisas sobre saúde humana e longevidade. Para quem não está familiarizado com o conceito, o que é Velocidade de Escape da Longevidade (LEV), e como a inteligência artificial e a tecnologia contribuem para a longevidade da saúde humana atualmente?
LEV é o ponto em que, para cada ano de vida, a ciência acrescenta mais de um ano à sua expectativa de vida saudável. Atualmente, estamos adicionando cerca de três meses por ano, e tecnologias como IA, genômica, terapia genética, medicina regenerativa e reprogramação celular estão acelerando esse ritmo.
A IA lê cada novo artigo científico, identifica padrões que os humanos não percebem, desenvolve novas terapias e personaliza intervenções. A missão é permanecer saudável por tempo suficiente para se beneficiar desses avanços.
Como escrevo no Guia da Longevidade, seu tempo de vida saudável é a prioridade, porque quanto mais você mantiver a vitalidade agora, maior a probabilidade de se beneficiar dos ganhos exponenciais em longevidade nos próximos anos.
A evolução tecnológica e o desenvolvimento da IA têm avançado exponencialmente em todo o mundo, a um ritmo cada vez mais impressionante. O que a população em geral deve fazer para se adaptar melhor a essas mudanças?
Primeiro, deve-se adotar uma mentalidade que priorize a IA, aprendendo a usar ferramentas de IA no trabalho e na vida pessoal. Segundo, as pessoas devem se tornar aprendizes constantes, se mantendo extremamente curiosos.
Metade das habilidades profissionais atuais estará obsoleta em cinco anos.
Terceiro, é importante otimizar sua saúde para ter energia e acuidade cognitiva para se adaptar. Quarto, construir uma rede forte é fundamental, pois em tempos de mudanças rápidas, quem você conhece é tão importante quanto o que você sabe. E, finalmente, deve-se desenvolver uma mentalidade de "moonshot" (tiro na lua, em tradução direta), se concentrando em desafios e objetivos ousados e significativos, porque o pensamento pequeno não sobreviverá em um mundo de crescimento exponencial.
Muitas pessoas têm medo do avanço da inteligência artificial e da tecnologia como um todo, acreditando que os humanos podem perder o controle. Você tem alguma preocupação deste tipo?
Estou mais preocupado com o uso indevido por humanos do que com a IA "decidindo" nos prejudicar. Os riscos são reais: desinformação em larga escala, concentração de poder, choques de automação na economia e sistemas frágeis na tomada de decisões críticas. Minha receita para dirimir esses riscos é transparência, auditorias independentes, ampla alfabetização em IA, concorrência aberta e padrões globais de segurança.
Como você avalia os desafios regulatórios relacionados ao desenvolvimento da IA e da tecnologia nos EUA e no mundo?
O desafio é equilibrar inovação e segurança. O excesso de regulamentação corre o risco de retardar avanços benéficos. Por outro lado, a falta de regulamentação corre o risco de causar danos.
Sou a favor da regulamentação de aplicações (como a IA é usada) em vez de algoritmos (como ela é construída). Sandboxes (prática de segurança cibernética em que você executa código, observa, analisa e codifica em um ambiente seguro e isolado) para experimentação segura, responsabilização por danos e cooperação internacional são fundamentais.
Você também sempre teve grande interesse pela exploração espacial. Como você avalia esse processo globalmente hoje? Quão longe você acha que estamos dos voos comerciais para a Lua e para Marte? E, você acredita que é possível criar uma colônia humana em Marte?
Estamos em uma nova corrida espacial, desta vez, impulsionada por foguetes reutilizáveis, capital privado e participação global. Os custos de lançamento caíram cem vezes desde a era dos ônibus espaciais. SpaceX, Blue Origin e outras empresas estão viabilizando constelações de satélites, missões lunares e, eventualmente, a Marte. Enquanto isso, países como China, Índia e Emirados Árabes Unidos seguem investindo pesado neste setor.
Missões governamentais à Lua, no período de 2028 a 2030, levarão a viagens comerciais à Lua provavelmente no início ou meados da década de 2030. Já missões tripuladas a Marte devem ocorrer em meados da década de 2030 e início da década de 2040.
Uma colônia autossustentável em Marte? Seria necessário um esforço de várias décadas, mas é provável. Marte oferece independência, a Lua oferece proximidade, e ambos fazem parte da expansão da humanidade em direção ao sistema solar.
Como o avanço tecnológico pode contribuir para o enfrentamento da crise climática e ajudar a preservar o planeta?
A tecnologia é a nossa maior alavanca para a proteção do clima. Redes otimizadas por IA, energias renováveis baratas, fusão, novos materiais para captura de carbono, agricultura de precisão e proteínas alternativas. O desafio da questão climática é urgente, mas o pensamento da abundância nos diz que podemos enfrentá-lo e, ao mesmo tempo, desenvolver melhorias para a saúde, a educação e a prosperidade.
Como você avalia o ecossistema de inovação e desenvolvimento tecnológico do Brasil? Qual é o potencial do país nesse mercado?
O potencial de inovação do Brasil é enorme. Fintechs e pagamentos instantâneos de classe mundial, talentos em IA e desenvolvimento, liderança em tecnologia agrícola, bioinovação a partir de biodiversidade incomparável, enorme potencial solar e eólico, e geografia espacial estratégica, como Alcântara.
Com regras estáveis e empreendedorismo ousado, o Brasil pode se tornar um polo global de abundância. Além disso, o Brasil é um país rico em energia, o que deve ser capaz de atrair data centers para serem construídos em áreas adjacentes a usinas de energia.



